O El Niño deve chegar mais cedo e com potencial de maior intensidade, trazendo implicações relevantes para o agronegócio na América do Sul nos próximos meses.
Na semana passada, a NOAA (agência meteorológica dos EUA) atualizou suas projeções e antecipou o início do fenômeno para o trimestre maio-junho-julho — antes, era previsto para junho-julho-agosto.
No Brasil, os efeitos típicos tendem a ganhar força a partir de junho, com aumento das chuvas no Sul e temperaturas mais elevadas no Sudeste e no Centro-Oeste.
Para o agro, os impactos são diretos. No inverno, o excesso de chuva pode prejudicar culturas como o trigo no Rio Grande do Sul e no Paraná, além de dificultar a colheita de cana-de-açúcar e do milho em estados como Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
Ao mesmo tempo, a combinação de calor e baixa umidade do solo eleva o risco de queimadas em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Algumas simulações indicam que a anomalia de temperatura no Pacífico pode superar 2,5°C, colocando o evento entre os mais intensos já registrados — ao lado de 1982/83, 1997/98 e 2015/16.
Ainda assim, não há relação linear entre o aquecimento do oceano e a magnitude dos impactos. A inundação no Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, ocorreu sob um El Niño mais fraco, influenciada por uma combinação de fatores.
Na prática, um evento mais intenso tende a tornar seus efeitos mais consistentes — em contraste com o padrão irregular observado durante o recente La Niña.
Fim do período úmido
Com o avanço do outono, o regime de chuvas já começa a refletir essa transição em parte das áreas produtoras. Nos últimos sete dias, praticamente não houve precipitação ao longo do Vale do São Francisco, entre Minas Gerais e Bahia, e os modelos indicam que esse quadro deve persistir nas próximas semanas.
A redução das chuvas tende a se espalhar pelo oeste de Minas Gerais, alcançando áreas do Triângulo Mineiro e do Cerrado, além do leste de Goiás e do sudoeste da Bahia.
O ponto de atenção é o milho safrinha: plantado com atraso nesses estados, boa parte das lavouras ainda está em fase vegetativa e depende de umidade pelo menos até maio. Por ora, a umidade do solo sustenta o desenvolvimento das plantas, mas o déficit hídrico pode surgir rapidamente.
O cenário se agrava com a previsão de uma onda de calor entre o próximo dia 22 e o fim de abril, com temperaturas de até 35°C e aumento da evapotranspiração.
Em outras regiões, as condições seguem mais favoráveis. Até o fim de abril, embora abaixo da média histórica, as chuvas ainda ocorrem com frequência suficiente para manter o desenvolvimento da segunda safra de milho em Mato Grosso, Rondônia, Pará, Tocantins, Maranhão e Piauí.
No Sul, a perspectiva é mais positiva no curto prazo. Paraná e Mato Grosso do Sul devem registrar o retorno de chuvas mais intensas a partir do início da próxima semana, aliviando a estiagem.
Nas regiões de Foz do Iguaçu, Pato Branco e Francisco Beltrão, os acumulados podem superar 50 milímetros, enquanto Ponta Porã deve receber cerca de 30 milímetros até o fim de abril.
Argentina
Na Argentina, o clima virou do avesso. Após um ciclo marcado por estiagem e riscos à produtividade, o país enfrenta agora chuvas torrenciais que interrompem a colheita de milho.
Até a semana passada, a precipitação ainda beneficiava áreas de plantio tardio de milho e soja. No entanto, volumes superiores a 150 milímetros registrados entre 14 e 15 de abril em províncias como Entre Ríos, Corrientes, Chaco e Formosa inviabilizaram as atividades de campo.
A instabilidade deve persistir. Embora haja uma trégua parcial entre os dias 16 e 18, novos episódios de chuva forte são esperados no início da próxima semana, com acumulados acima de 100 milímetros em Santa Fé, Entre Ríos, Corrientes, Chaco e Formosa.




