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O “curto-circuito” de preços no mercado livre de energia

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Não bastasse o curtailment, os cortes de geração de usinas renováveis centralizadas que levaram o ONS, órgão regulador do sistema, a jogar fora 20% da energia solar e eólica gerada no País no ano passado, o setor elétrico enfrenta uma nova crise, dessa vez, efeito das distorções de preços no mercado de energia – modelo de negócio que movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano.

Uma série de fatores que começaram a se alinhar há dois anos acabou criando uma tempestade perfeita que atinge agora o setor – causando uma quebradeira entre as comercializadoras de energia.

Esse cenário de terra arrasada, que levou à queda de liquidez de quase 40% do mercado de energia em 2025, está obrigando toda a cadeia do setor a buscar alternativas. Com estratégias diferentes, uma empresa grande de energia, o Grupo Bolt, e uma comercializadora de médio porte, a Voltera, revelaram ao NeoFeed o que estão fazendo para impedir que a volatilidade de preços inviabilize o negócio.

A atual crise começou no início de 2024, ironicamente em meio a uma expectativa de grandes negócios com a abertura do mercado livre de energia para consumidores de média e alta tensão. A abertura se deu num momento de preços de energia historicamente baixos, impulsionando migração em massa e descontos elevados.

Contas de luz típicas para essa nova camada de consumidores – empresas de médio porte e estabelecimentos comerciais, como redes varejistas, supermercados e shoppings – caíram entre 15% e 30%, ampliando, além da base de clientes, a complexidade de gestão de contratos pelas geradoras e comercializadoras.

A fase de preços mínimos ficou para trás no ano passado, com um ajuste brusco de precificação de energia para patamares acima da média histórica. Isso porque, já como efeito do curtailment, o ONS tornou o modelo de formação de preços mais conservador, priorizando maior preservação de água e acionamento mais frequente de térmicas, visando à segurança energética diante da intermitência de renováveis e das limitações de transmissão.

Esses modelos, geridos por plataformas eletrônicas, consideram variáveis como hidrologia, carga, despacho térmico, aversão a risco – possibilidade de reservatórios secarem por falta de chuvas, por exemplo – e restrições operativas. O resultado foi aumento do custo de operação e maior volatilidade, especialmente no curto prazo.

“Na prática, o preço de energia não é definido pela negociação entre compradores e vendedores, ou seja, por oferta e demanda, e sim por modelos matemáticos e pelas condições climáticas, que por sua vez são determinantes para formação de preços do mercado livre”, afirma Victor Hugo Iocca, diretor de energia elétrica da Abrace, associação que reúne grandes consumidores comerciais e industriais de energia.

Para se ter ideia do aumento dessa volatilidade de preços, levantamento da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) mostra que, de 2024 a março de 2026, o preço de longo prazo no mercado livre subiu 59%, o preço trimestral avançou 121% e o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) médio – que é usado como preço de referência do setor elétrico brasileiro – aumentou 84%, enquanto o IPCA variou 5%.

O aumento da volatilidade dos preços, com disparadas mesmo em cenários de reservatórios cheios, elevou a necessidade de garantias financeiras, pressionando comercializadoras com caixa frágil, dificultando a rolagem de posições e a venda de energia.

Grandes comercializadoras agressivas, como a Gold Energia, acumularam perdas acima de R$ 1 bilhão e quebraram, enquanto 2W Energia e América Energia sofreram fortes impactos e romperam contratos. No início de 2026, o grupo Elétron Energia, também com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, entrou em recuperação judicial, seguido pelo IBS Energy, que pediu proteção após ver seu passivo chegar a R$ 57 milhões.

O caso mais rumoroso envolve a Tradener, a primeira comercializadora do País: a Justiça paranaense suspendeu parte de uma liminar que permitia à Tradener alterar a forma de repasse de energia aos clientes, que passavam a arcar com custos adicionais pelas diferenças de preço-horário – ignoradas pela comercializadora.

Com isso, a Justiça manteve apenas a proteção de 60 dias da Tradener contra execuções enquanto a comercializadora negocia com credores um passivo que pode chegar a R$ 5 bilhões, segundo estimativas do mercado. Em nota, a companhia afirma que está tomando medidas para “assegurar a continuidade de suas operações e proteger o atendimento aos seus clientes enquanto negocia, de forma ordenada, uma solução com suas contrapartes”.

Aposta no mercado livre

O Grupo Bolt – que atua em varejo, trading, geração distribuída, operações estruturadas e intercâmbio internacional – manteve sua expansão mesmo com a volatilidade.

Com presença em oito estados e faturamento de R$ 1,5 bilhão, a empresa mira a abertura total do mercado livre em 2027, para o qual até 100 milhões de consumidores poderão migrar — muito além das 30 mil novas unidades dos últimos dois anos, restritas aos consumidores de grandes cargas.

“O setor de energia espera há 30 anos pela abertura total do mercado livre”, afirma ao NeoFeed o CEO do Grupo Bolt, Gustavo Ayala, referindo-se ao potencial estimado pelo mercado – que pode movimentar até R$ 250 bilhões por ano no longo prazo.

A estratégia visando essa abertura combina três verticais e forte automação com IA: “Essa abertura vai exigir um novo modelo operacional, com inteligência artificial no centro”, diz Ayala.

A plataforma da Bolt já opera com 30 mil clientes em baixa tensão – clientes da “energia por assinatura” das usinas da vertical de geração distribuída (GD), com receita de R$ 120 milhões – e cerca de 300 clientes no mercado livre varejista.

A autoprodução de energia também é apontada como pilar para mitigar volatilidade e reduzir custo, com 21 projetos somando 220 megawatts-médios (MWm). Entre eles, destaca-se a parceria com a Rede D’Or, que recebe energia limpa de 337 mil painéis solares para mais de 70 hospitais em 13 estados do Complexo da Lagoinha, em Russas (CE).

O foco na abertura do mercado livre, porém, exigiu que a Bolt bolasse um modelo ao mesmo tempo simples e agressivo: comprar energia no atacado e vender no varejo. Segundo Ayala, até 2030, a referência para o consumidor tende a ser a tarifa do mercado cativo – com reajustes e tendência de alta-, migrando gradualmente para preços do próprio mercado livre nos anos seguintes.

“No atacado, a curva futura apresenta patamares por ano: 2027 é o mais caro; há queda previstas para os anos seguintes e preços ainda mais baixos no longuíssimo prazo, como em 2035, com expectativa de alívio via novos investimentos em oferta e transmissão”, diz.

Por outro lado, a partir de 2028, a expectativa é de crescimento acelerado do varejo por ser mais rentável, combinando queda de custo na curva futura com tarifa cativa em alta – aquela que o consumidor comum paga hoje às distribuidoras -, permitindo oferecer descontos competitivos.

O “segredo” está na venda no varejo. “Projeções do preço de energia em R$ 400 por megawatt-hora (MWh) em 2028–2030 permitem estruturar ofertas com desconto competitivo”, diz Ayala. O PLD médio hoje está em R$ 265,75 por MWh.

A projeção de faturamento da Bolt para 2028, cerca de R$2 bilhões, não difere muito da receita atual. “Mas a proposta de comprar no atacado e vender no varejo permite um avanço maior na margem; juntamente com a autoprodução para médios e grandes clientes conseguimos nos afastar dos riscos do trading”, revela.

‘Fase de baixa’

Alan Henn, CEO da Voltera – comercializadora que atua há seis anos no mercado, com cerca de 500 clientes e 55 MW médios de carteira, vendendo energia somente para consumidor final -, resume o quadro atual como passageiro.

Segundo ele, com a virada de preços e falhas de gestão de risco, alguns fornecedores romperam contratos firmados na “fase de baixa”, deixando consumidores desassistidos.

“Esses clientes precisaram buscar novas contratações a preços mais altos ou pleitear retorno ao mercado cativo – que exige aviso prévio de cinco anos, embora possam existir janelas reduzidas-, elevando significativamente seus custos de energia”, diz.

Henn afirma que os problemas foram mais concentrados em novos entrantes de médio porte e varejo, que ele estima entre 10% e 15% dos consumidores migrados recentemente para o mercado livre, que estão tendo de buscar novo fornecedor, por causa dos preços elevados. Grandes consumidores, acredita, foram menos afetados por critérios mais rigorosos de seleção de contrapartes.

“O problema não é estrutural do mercado livre, e sim de escolhas de contratação e gestão de risco”, adverte. “Paga mais quem está descontratado, escolhe contratos curtos sem proteção adequada ou foi afetado por rompimentos contratuais.”

Henn afirma que o curto prazo, até 3 meses, segue altamente volátil, dependente de hidrologia e carga, tornando arriscada a exposição ao mercado spot. No médio-longo prazo, a perspectiva é de acomodação e tendência de queda da curva com oferta suficiente e leilões de capacidade: “Os preços atuais refletem mais a operação e conjuntura do que escassez física estrutural”, acredita.

Para evitar essa volatilidade, Hein diz que a Voltera adota gestão conservadora, operando “casado” – casamento de compras e vendas -, para evitar risco direcional de preço, priorizando estabilidade operacional e previsibilidade.

“O principal risco assumido é o de crédito dos consumidores; a empresa desloca a exposição de preço ao alocar 100% da energia comprada em contratos de venda”, diz.

A Voltera mantém contratos com múltiplos geradores em diferentes regiões para diversificação e segurança de entrega. Oferece plataforma de gestão e advisory para otimizar consumo e reduzir multas, democratizando ferramentas antes restritas a grandes empresas. A empresa tem expectativa de crescer 100% em 2025 e superar R$ 100 milhões de faturamento, mantendo disciplina comercial e operacional.

Para Hein, o momento atual reflete o custo real de operação no mercado livre, que será repassado ao cativo nos reajustes anuais. “Reajustes já observados próximos de 16%, quatro vezes o IPCA projetado, indicam que o impacto atinge todos os consumidores, não apenas os do mercado livre”, diz.

Ele também se mostra otimista quanto à abertura do mercado livre. “Para a próxima etapa de abertura, até 2027, são essenciais educação do consumidor, criação do Supridor de Última Instância (SUI) para atender desassistidos e fortalecimento de governança, além de produtos e infraestrutura que sustentem a escala do varejo de energia”, sugere.



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