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‘Se hoje atuo no exterior, é porque alguém me colocou livros nas mãos’, diz pesquisadora mariliense • Marília Notícia

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Mariliense Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos cruzou fronteiras e hoje é pesquisadora internacional (Foto: Divulgação)

A trajetória de Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos é o tipo de narrativa que reafirma a potência transformadora da educação pública. Nascida em Marília e egressa da Escola Estadual Professor Antonio de Baptista, Tatiane viu seu destino mudar quando uma professora ofereceu uma pilha de livros da biblioteca aos alunos que terminassem a tarefa.

O que começou com “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, floresceu em uma carreira acadêmica sólida: de professora de idiomas e autora de um romance aos 16 anos, ela avançou até se tornar pesquisadora internacional, cruzando fronteiras para beber direto da fonte da literatura canadense.

Atualmente, Tatiane é doutoranda na Unesp de Assis e atua como pesquisadora visitante no L. M. Montgomery Institute, no Canadá. Ela é a primeira brasileira a realizar esse mergulho nos arquivos originais de Lucy Maud Montgomery, criadora da personagem Anne de Green Gables.

Doutoranda é a primeira pesquisadora brasileira a investigar a obra de Lucy Maud Montgomery (Foto: Divulgação)

Em um diálogo que conecta Marília às paisagens da Ilha do Príncipe Eduardo, Tatiane reflete sobre o papel das mulheres na literatura, o rigor da pesquisa científica e o orgulho de representar a ciência brasileira no exterior.

***

Marília Notícia – Você é fruto da escola pública em Marília, tendo passado pelo Antonio de Baptista. Antes de chegarmos ao Canadá, como foi o seu despertar para as Letras? Onde você nasceu e como a cidade moldou a leitora que, mais tarde, se tornaria pesquisadora internacional?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Nasci e cresci em Marília, onde estudei na Escola Estadual Professor Antonio de Baptista. Ali, tive professoras de Língua Portuguesa extraordinárias, e uma delas foi responsável pelo meu primeiro encontro com a literatura. Recordo-me de um dia em que a professora Gislaine levou alguns livros da biblioteca para a sala de aula. Aqueles que terminassem determinada atividade poderiam escolher um exemplar da pilha para ler.

Optei por ‘Reinações de Narizinho’, de Monteiro Lobato. Pude levá-lo para casa e, em menos de uma semana, já havia terminado a leitura. Logo procurei outras obras do autor e, quando dei por mim, a sede pela leitura literária já era insaciável. A partir de então, meus pais, Maria do Carmo e Dorival, passaram a me presentear com livros e meus professores também me emprestavam alguns exemplares.

Aos poucos, a leitura transformou-se em algo mais profundo: na necessidade de escrever. Foi nesse momento que percebi que não bastava apenas viver nas histórias dos outros – eu precisava criar a minha própria. Dessa necessidade, nasceu meu primeiro romance, intitulado ‘Prospecto’, que viria a ser publicado em 2016.

Instituto L. M. Montgomery Institute, sediado na University of Prince Edward Island, em Charlottetown (Foto: Divulgação)

Com o tempo, a paixão pela literatura transformou-se em um desejo igualmente intenso de estudá-la, compreendê-la e situá-la no mundo. Foi assim que escolhi cursar Letras. Aquilo que havia começado como encantamento tornou-se trabalho: ler, criar e viver a literatura passou a constituir o cerne da minha vida profissional.

Minha trajetória é profundamente marcada por professoras que enxergaram em mim potencial. Entre elas, guardo com especial gratidão às professoras do Baptista e minha orientadora no mestrado e doutorado, professora doutora Eliane Galvão. Foram elas que, com generosidade e confiança, ajudaram a moldar minha formação e me deram o impulso necessário para voar.

Talvez seja essa a maior potência da educação: transformar destinos e ampliar horizontes antes inimagináveis. Se hoje atuo como pesquisadora no Exterior, é porque, um dia, dentro de uma escola pública de Marília, alguém colocou livros nas mãos de uma menina e acreditou que poderiam mudar o rumo de sua história. E, de fato, mudaram.

Marília Notícia – Em 2016, você lançou ‘Prospecto’. Pelos cálculos, era muito jovem. O que aquela publicação significou e como esse início pavimentou o caminho até o doutorado?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Comecei a escrever muito cedo, por volta dos 13 anos, e publiquei ‘Prospecto’ quando tinha 16. O lançamento na Bienal do Livro de São Paulo ocorreu no ano seguinte, aos 17 anos. Aquele momento representou a concretização de algo que, até então, parecia apenas um sonho distante. Pela primeira vez, aquilo que havia imaginado ganhava forma no mundo – no formato de um livro. Esse momento me trouxe uma certeza: a de que a literatura poderia ser não apenas uma paixão, mas um caminho possível.

Mariliense cruzou as fronteiras para beber direto da fonte da literatura canadense (Foto: Divulgação)

De certa forma, ‘Prospecto’ foi o primeiro gesto consciente nessa trajetória nas Letras. Hoje, no doutorado, o rigor acadêmico exige método, pesquisa e análise crítica, mas a origem de tudo ainda está naquele impulso inicial de criação – naquela adolescente que escrevia porque precisava transformar a imaginação, os sentimentos e pensamentos – ou se transformar – em palavras.

Talvez a pesquisa na área de Letras nasça do mesmo lugar que a escrita criativa: da necessidade humana de compreender e significar o mundo pela linguagem.

Marília Notícia – Como a obra de Lucy Maud Montgomery entrou na sua vida e se tornou objeto de pesquisa?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Meu encontro com a obra de Lucy Maud Montgomery aconteceu inicialmente como muitos leitores contemporâneos – por meio da adaptação audiovisual ‘Anne with an “E”’, série produzida pela emissora canadense CBC e distribuída mundialmente pelo serviço de streaming Netflix.

Encantada pelas personagens e o universo apresentados no seriado, busquei o romance original da autora, ‘Anne de Green Gables’. Muitas vezes, um livro muda o rumo de uma vida. No meu caso, essa transformação começou no instante em que abri aquele. Durante a graduação, tive de realizar um trabalho de análise de uma obra literária pertencente aos acervos do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e optei justamente por esse romance. Minha professora, e também minha orientadora, percebeu o potencial daquela análise e sugeriu que fosse transformado em artigo científico. Este acabou por se converter em um pré-projeto de mestrado e, posteriormente, de doutorado.

Obra de Lucy Maud Montgomery entrou na vida da mariliense e se tornou objeto de pesquisa (Foto: Divulgação)

Assim, aquilo que começou como curiosidade tornou-se objeto de estudo. Apesar da grande popularidade de ‘Anne de Green Gables’ entre leitores brasileiros, ainda há poucos estudos acadêmicos em nosso país dedicados à produção literária de Montgomery. Suas obras, por integrarem o subsistema da literatura juvenil e por serem de autoria feminina, costumam ser marginalizadas, inclusive pela crítica literária. Percebi, então, que havia ali um campo fértil de investigação. Desde então, tenho buscado contribuir para que essa produção seja resgatada, revisada e revelada em suas potencialidades de sentido.

Marília Notícia – O que a obra de Montgomery oferece de universal e como esse diálogo Brasil-Canadá enriquece a crítica literária?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – O Brasil possui, de fato, um vasto conjunto de escritoras que ainda merecem maior atenção crítica. Estudar Lucy Maud Montgomery, no entanto, não significa afastar-se dessa realidade, mas sim ampliar o campo de reflexão. A produção de Montgomery aborda questões inerentes à humanidade: os processos de formação na infância e adolescência, as relações entre imaginação e realidade, e entre indivíduo e sociedade, a construção da identidade e a busca por pertencimento e aceitação em uma comunidade. Talvez por isso – entre outros fatores – a obra ‘Anne de Green Gables’ tenha conquistado leitores em diferentes países, incluindo o Brasil.

Durante minha pesquisa de Mestrado, identifiquei mais de trinta edições do romance publicadas em português em nosso país. Esse número revela não apenas a vitalidade da obra, mas também o interesse contínuo dos leitores brasileiros pela narrativa – algo que, inclusive, surpreende os pesquisadores canadenses.

Ao analisar a obra de Montgomery, é possível refletir sobre nossas próprias tradições literárias e sobre como a literatura escrita por mulheres circula, é legitimada e se consolida em diferentes contextos culturais. Esse diálogo internacional acaba por enriquecer não apenas os estudos sobre Montgomery, mas também a própria crítica literária brasileira.

Marília Notícia – Como tem sido a experiência de pesquisa no Canadá?

Riqueza literária auxiliou doutoranda no processo (Foto: Divulgação)

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Estar no Canadá para estudar Lucy Maud Montgomery é, de certa forma, aproximar-se dos espaços que moldaram a sua produção. A autora nasceu e viveu por muitos anos na Ilha do Príncipe Eduardo e ambientou ali a maior parte de seus romances. Mesmo separada por mais de um século da escritora, consigo compreender por que esse ambiente foi tão significativo em sua trajetória pessoal e profissional.

A Ilha do Príncipe Eduardo tornou-se conhecida, em grande medida, pela sua relação com Montgomery. Diversos museus e parques nacionais foram construídos nas regiões onde ela viveu. Entre eles, destacam-se: a casa de Annie e John Campbell, tios de Montgomery, que supostamente serviu de inspiração para a criação de Green Gables, e foi transformada no museu The Anne of Green Gables Museum; a residência onde cresceu com os avós maternos, intitulada ‘The Macneill Homestead’; e o ‘Lucy Maud Montgomery Birthplace’, onde nasceu.

Esses locais movimentam o turismo no estado: milhares de visitantes vêm conhecer a “terra de Anne” e os locais mencionados em suas obras. Além disso, há estátuas de Montgomery espalhadas pela Ilha, assim como lojas que vendem souvenirs de suas personagens (como a The Anne of Green Gables Store). Estar aqui, portanto, é viver como Montgomery ou uma de suas protagonistas; é vivenciar o universo que permeava sua imaginação.

No âmbito acadêmico, o principal centro de estudos sobre Montgomery é o instituto L. M. Montgomery Institute, sediado na University of Prince Edward Island, em Charlottetown. Fundado em 1993, com fomentos provenientes do Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá), o Instituto tem contribuído para a consolidação e continuidade de um campo de estudos voltado à vida e à obra da escritora canadense. É nele que tenho atuado, o que me possibilita acesso às “coleções especiais”, que incluem: primeiras edições, diários, correspondências, fotografias e cartões postais, entre outros. Também me permite o levantamento de sua fortuna crítica.

Acessar esses materiais é essencial para o desenvolvimento de minha pesquisa, tendo em vista sua indisponibilidade no Brasil. No mais, ser uma pesquisadora brasileira olhando para uma autora considerada um “símbolo” canadense possibilita novas perspectivas. O olhar estrangeiro, em certo sentido, desloca a análise e permite formular perguntas que, às vezes, não surgem com tanta força no próprio contexto nacional.

Marília Notícia – Como você percebe o clima social e acadêmico no Canadá?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Sim, o Canadá é frequentemente percebido como um país estável. No cotidiano das cidades e da universidade, esta estabilidade é bastante perceptível. As tensões geopolíticas relacionadas aos Estados Unidos nem sempre se refletem diretamente na vida diária da população. No entanto, em debates acadêmicos, a proximidade com os Estados Unidos sempre surge como um tema importante e preocupante.

O Canadá, historicamente, construiu parte de sua identidade cultural em diálogo – e, por vezes, em contraste – com o país vizinho, bem como com o Império Britânico. Questões como a soberania cultural, a circulação de produtos culturais norte-americanos, as políticas de imigração e o multiculturalismo frequentemente são levantadas e problematizadas.

Montgomery oferece diálogo Brasil-Canadá e enriquece a crítica literária (Foto: Divulgação)

No âmbito acadêmico em que tenho vivenciado, o clima predominante é de abertura à imigração e à colaboração internacional. O Canadá mantém cooperação com pesquisadores de diferentes países, o que torna o ambiente intelectual bastante plural, receptivo e significativo.

Marília Notícia – Há interesse pela literatura brasileira no Canadá?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Há curiosidade pela Literatura Brasileira, embora, muitas vezes, ela ainda seja conhecida principalmente por meio de autores canônicos, sobretudo Machado de Assis e Clarice Lispector. No entanto, há um interesse crescente, principalmente entre pesquisadores, em conhecer produções contemporâneas e em ampliar o repertório de autores estudados.

Tenho buscado difundir um pouco mais nossa produção literária e tenho notado respostas favoráveis. Nesse sentido, pesquisadores brasileiros que circulam internacionalmente acabam atuando como mediadores culturais, apresentando novas obras e fomentando debates.

Marília Notícia – Que mensagem sua trajetória deixa para a pesquisa em Letras no Brasil?

Uepi no Canadá (Foto: Divulgação)

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Quando olho para trás, para as salas de aula da escola pública em que estudei, percebo com clareza o poder transformador da educação. Minha trajetória é resultado do trabalho de professores comprometidos, de políticas públicas de acesso à educação, de programas de fomento à pesquisa, e de uma rede de pessoas que acreditaram que o conhecimento pode ampliar horizontes.

Desde cedo, compreendi que o estudo representava a possibilidade de construir um futuro melhor. Por isso, sempre procurei dedicar-me intensamente à leitura, à escrita, à pesquisa e à busca do conhecimento – um esforço que continua a orientar minha vida acadêmica. Sou a primeira pessoa da minha família materna a ingressar na pós-graduação e a viajar ao exterior. Meus avós sequer sabiam ler ou escrever.

Talvez por isso sempre tenha valorizado a oportunidade de estudar – em certa medida, também em memória deles. Ainda assim, ser pesquisadora no Brasil é um caminho marcado por inúmeros desafios. Há incertezas relacionadas à renovação e ao reajuste de bolsas de estudos, e ao financiamento de projetos, o que gera instabilidade financeira.

Muitas vezes, é necessário abrir mão de vínculos empregatícios para se dedicar integralmente à pesquisa. E a pesquisa, por si só, não é percebida ou reconhecida como trabalho pela sociedade, o que dificulta a inserção no mercado de trabalho após a conclusão do doutorado. Por isso, fazer pesquisa exige, também, persistência diante de um cenário em que a produção de conhecimento nem sempre recebe o reconhecimento ou o investimento que merece.

Se há uma mensagem que essa experiência deixa, é a de que investir na educação pública e na pesquisa acadêmica significa investir no futuro. Incentivos à leitura, às bibliotecas, à escola e à pesquisa representam, em última instância, caminhos que podem transformar vidas.

Além disso, geram produção e democratização do conhecimento, desenvolvimento social e ampliação da qualidade de vida. É preciso valorizar a importância da pesquisa, inclusive a do professor-pesquisador, no mercado de trabalho. E viva a educação! Viva a ciência!

Marília Notícia – Quem foi Lucy Maud Montgomery e qual sua relevância?

Tatiane Rodrigues Lopes dos Santos – Lucy Maud Montgomery nasceu em 1874, na antiga cidade de Clifton e atual New London, na Ilha do Príncipe Eduardo, e faleceu em 1942, em Toronto. Ela escreveu e publicou vinte romances, uma autobiografia, uma coletânea de poesia, aproximadamente 450 poemas, cerca de 500 contos e mais de 5.000 páginas de diários sob o ortônimo “L. M. Montgomery”.

Ela atuou como professora e jornalista até a publicação de seu romance de estreia, o best-seller ‘Anne of Green Gables’, em 1908, traduzido para o português como ‘Anne de Green Gables’. Apesar deste ser seu trabalho mais conhecido, cabe destacar os romances ‘Emily de Lua Nova’ (Emily of New Moon) e ‘Jane de Lantern Hill’ (Jane of Lantern Hill).

A produção literária de Montgomery alcançou reconhecimento internacional, cativando leitores de diferentes países, faixas etárias e épocas. No Canadá, é considerada um marco no cânone nacional. Desse modo, suas obras continuam sendo amplamente lidas, estudadas e celebradas em diversas partes do mundo, inclusive em países como o Japão e a Suíça, onde a recepção de sua produção é particularmente expressiva.

Em certa medida, também tenho buscado contribuir para a difusão da autora no contexto brasileiro. É justamente essa permanência e a capacidade de dialogar com leitores de diferentes épocas e culturas que tornam a produção de Montgomery um objeto de estudo tão interessante e instigante para a pesquisa acadêmica.





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