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Por que a saída de um país da Opep pode redesenhar o mercado global de petróleo

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Os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram sua saída da Opep, a partir de 1º de maio, surpreendendo os mercados de energia e enfraquecendo o cartel, que perde seu terceiro maior produtor. A decisão, que visa atender à crescente demanda global de energia, pode levar a preços mais baixos e maior volatilidade no mercado de petróleo. A saída dos EAU representa uma perda de 15% da capacidade de produção da Opep e um golpe para a Arábia Saudita, que depende do controle do cartel.

Além disso, a relação dos EAU com as monarquias do Golfo pode ser afetada, enquanto sua aproximação com os EUA se intensifica, com conversas sobre segurança e apoio financeiro. Os Emirados buscam aumentar sua influência geopolítica, sinalizando que desejam garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, tornando-se um ator relevante nas negociações regionais.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Em meio ao impasse na guerra no Irã, que mantém fechado o Estreito de Ormuz – por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo –, os Emirados Árabes Unidos (EAU) surpreenderam os já abalados mercados globais de energia ao anunciarem na terça-feira, 28 de abril, sua saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), grupo formado por alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo.

A saída do emirado do cartel, que passa a vigorar a partir de 1º de maio, representa um duro golpe para a Opep, que perde seu terceiro maior produtor e vê enfraquecer seu maior objetivo ao ser criada em 1960 – controlar a oferta de petróleo no mercado global para influenciar o preço da commodity.

A decisão, porém, não deve impactar o mercado no curto prazo, por causa do bloqueio do Estreito de Ormuz, com o preço do barril sendo negociado em US$ 105 na terça, 28, 30% a mais do que no início da guerra.

“A expectativa é que a saída dos EAU da Opep pode levar a preços mais baixos do petróleo, mas também a uma maior volatilidade no mercado nas próximas décadas”, adverte David Oxley, economista-chefe para clima e commodities da Capital Economics.

Sem os Emirados Árabes Unidos, a Opep passa a ter 11 países membros e a Opep+ reúne outros 12 países aliados, totalizando 23 países. Juntas, essas duas estruturas respondem por cerca de 40% da produção mundial de petróleo, sendo a maior parte (30%) da Opep.

Ao fazer o anúncio, o governo do emirado afirmou que sua decisão ajudará o país a atender à crescente demanda global de energia a longo prazo. Os Emirados Árabes Unidos produziam cerca de 3 milhões de barris de petróleo por dia até o início da guerra. O país investiu muito no aumento de sua capacidade de produção e há tempos desejava bombear mais petróleo.

Com a saída dos Emirados Árabes Unidos, a Opep perde cerca de 15% de sua capacidade de produção e um de seus membros mais relevantes. Por isso analistas definem o anúncio dos EAU como o começo do fim do cartel.

A decisão do governo de Abu Dhabi representou ainda um golpe ao líder de fato da Opep, a Arábia Saudita – que depende do controle de produção do cartel para manter rentável sua produção diária, de 9 milhões de barris de petróleo, e agora precisa assimilar a maior deserção da história da Opep.

Os sauditas e os Emirados Árabes Unidos já vinham se desentendendo antes mesmo da guerra atual, com disputas sobre metas de produção, política regional e direção estratégica que se arrastam há anos.

Mudança geopolítica

Outros efeitos são esperados, incluindo na relação do emirado com as monarquias vizinhas do Golfo Pérsico, que vinham atuando em bloco, e na correlação de forças políticas no Oriente Médio, com eventual impacto na geopolítica global.

Chamou a atenção o anúncio do emirado ter sido feito no mesmo dia em que a Arábia Saudita sediaria uma reunião extraordinária do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC).

Formado por seis países árabes localizados na Península Arábica (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Bahrein e Omã), o bloco compartilha características estratégicas importantes: grandes reservas de petróleo e gás, sistemas políticos semelhantes (monarquias), proximidade geográfica e interesses comuns em segurança regional.

Foi o primeiro encontro do GCC desde o início da guerra no Irã e a atuação do Conselho ao longo do conflito tem sido alvo de críticas dos Emirados Árabes Unidos, que consideram a reação do grupo insuficiente.

A resposta do governo dos Estados Unidos tem sido diferente. O Secretário de Estado, Marco Rubio, manteve conversações diretas sobre segurança com o governo do emirado, expandindo rapidamente sua presença militar na Base Aérea de Al Dhafra, em Abu Dhabi.

Essa aproximação militar EAU-EUA se deu juntamente com o gesto americano de oferecer linhas de swap cambial de US$ 20 bilhões ao governo do emirado, ajuda semelhante feita à Argentina recentemente.

A ajuda seria valiosa: a Adnoc, a gigante de petróleo do emirado, expandiu sua capacidade de produção para atingir 5 milhões de barris por dia até 2027, bem acima da cota que a Opep havia atribuído ao país.

Pesquisadores do Instituto Baker estimaram, em 2023, que a produção irrestrita poderia gerar para os Emirados Árabes Unidos mais de US$ 50 bilhões em receitas anuais adicionais. O presidente Trump, que há muito acusa a Opep de “explorar o resto do mundo” e vincula explicitamente a proteção militar americana aos estados do Golfo à política de preços do petróleo, agora conquistou sua vitória mais concreta contra o cartel.

Na prática, os Emirados Árabes Unidos estão indo além de romper com a Opep. Da política externa à estratégia militar e ao planejamento energético, o país onde quase 90% da população é composta por expatriados tem se destacado com um modelo baseado em velocidade e resultados, priorizando ganhos rápidos e tangíveis em detrimento da burocracia tradicional.

O emirado alinhou-se aos mercados globais e às tendências emergentes, concentrando-se em iniciativas impulsionadas por inteligência artificial e tecnologia de ponta para acelerar essa trajetória.

Em janeiro de 2022, os Emirados Árabes Unidos mudaram o seu fim de semana de sexta-feira e sábado para sábado e domingo, alinhando-se com os ritmos de Londres, Nova York e Hong Kong, e orientando-se para o comércio global em vez das convenções regionais.

A economia do emirado é uma das mais diversificadas do Oriente Médio. Além do petróleo e gás, a cidade de Dubai se tornou um dos destinos turísticos mais visitados do mundo. Emirates e Etihad transformaram o país em um centro global de conexões aéreas.

Dubai e Abu Dhabi têm zonas financeiras internacionais com regimes regulatórios próprios, atraindo bancos e gestoras globais. Tudo isso justifica que o país detenha uma das rendas per capita mais elevadas do mundo, de US$ 54.214 em 2026, segundo o FMI.

Agora, ao deixar a Opep, o governo do emirado também espera dar um salto de influência geopolítica na região, sinalizando que espera que qualquer acordo de paz entre os EUA e o Irã garanta explicitamente a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz, inserindo-se, na prática, como um ator com poder de veto nas negociações de cessar-fogo.

Ou seja, os Emirados Árabes Unidos não são mais apenas um membro da Opep ou um aliado do Golfo. São um parceiro integral na estratégia regional de Washington, com toda a influência que isso acarreta.



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