Bloomberg Línea — O entusiasmo desenfreado em torno da inteligência artificial nos Estados Unidos desperta comparações com o período de otimismo e derrocada das ações de tecnologia no início dos anos 2000, conhecido como “bolha das pontocom”. A avaliação é de Thiago Kapulskis, sócio e gestor do fundo global de tecnologia da São Pedro Capital.
“Como alguém que olha o mercado de ações, acredito cada dia mais que estamos em uma bolha como nos anos 2000″, afirmou o gestor em painel no evento Fórum The AI Economy Brazil, realizado nesta segunda-feira (28) pela Sólides em parceria com a Bloomberg Línea.
A principal tese do gestor é de que os indicadores de negócio observados para distribuir os cheques de financiamento para as startups de IA são completamente diferentes do que eram no último ciclo de “boom” entre as companhias de tecnologia. E essa mudança pode trazer desafios reais de rentabilidade para os negócios que hoje disparam em valuation.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Kapulskis defendeu que muitas dessas startups não mostram a disciplina de modelos de negócio que caracterizou empresas como Google e Amazon em suas fases iniciais. “Não vejo nesse ciclo nenhuma discussão de como essas novas companhias vão ganhar dinheiro daqui a três anos”, disse.
Para o Brasil, isso pode ser um caminho de oportunidade, segundo o gestor. Isso porque a escassez de capital e os maiores desafios de custo podem impor uma disciplina às startups brasileiras que falta às americanas.
“A vantagem de nós brasileiros é que a gente vive num país difícil. Um país de capital caro, onde qualquer um que investe no negócio vai querer saber como a empresa vai ganhar dinheiro”, disse Kapunskis. “Talvez essa seja uma vantagem desse ciclo.”
Competição acirrada
Ainda assim, o cenário é desafiador. Camila Vieira, sócia e diretora para o Brasil da gestora global QED Investors, destacou que pequenas e médias empresas chegam ao ciclo da IA fragilizadas por anos de juros elevados, instabilidade tributária e mudanças regulatórias que consumiram sua capacidade de investimento.
A dinâmica de excesso de capital nos EUA também se torna um desafio de captação para as empresas brasileiras que buscam financiadores globais e precisam competir com startups americanas que saem “de US$ 500 mil para US$ 100 milhões em receita em questão de meses”.
Apesar dos desafios, Vieira enxerga potencial para que negócios disruptivos despontem também no Brasil.
“A Stripe, por exemplo, foi lançada anos depois e hoje se fala muito mais dela do que de PayPal. Talvez uma ‘Stripe brasileira’ esteja bem posicionada no futuro para competir com as americanas”, disse.
Por enquanto, o protagonismo do desenvolvimento em IA tem estado nas mãos do setor financeiro.
Instituições como Itaú, Nubank, Banco do Brasil e Mercado Livre buscam soluções internas sofisticadas de tecnologia, em contraste com a postura mais cautelosa dos grandes bancos americanos.
“Em um final de semana, o Itaú realizou um teste que apresentou desempenho 40% superior ao modelo original. Em uma empresa desse tamanho, é um retorno gigantesco”, afirmou.
“As empresas financeiras brasileiras são compradores extremamente sofisticados [de IA]. Existem muitas boas soluções sendo desenvolvidas, mas ainda se fala pouco sobre isso”.
Henrique Ferreira, sócio da DGF Investimentos – fundo com 25 anos de atuação em tecnologia –, aponta vantagens estruturais do país na frente de energia.
A regulação do setor elétrico e a disponibilidade de energia renovável posicionam o Brasil como candidato a abrigar infraestrutura de computação, um dos principais gargalos do desenvolvimento da IA.
“Na camada de modelos fundacionais, a gente pode desenvolver um papel bastante estratégico em energia”, disse no painel.
Leia também
Fintechs vencedoras têm ‘fortalezas’ em comum, diz cofundador da QED Investors
Citi mira mercado de US$ 5 trilhões com nova ferramenta de IA para a área de wealth




