Donald Trump perdeu uma batalha em fevereiro, quando a Suprema Corte julgou como ilegal seu tarifaço anunciado há um ano – mas o Presidente dos EUA não desistiu da guerra comercial.
O United States Trade Representative (USTR) – um órgão subordinado à Casa Branca – abriu no ano passado uma série de investigações sobre possíveis práticas irregulares de parceiros comerciais, e o Brasil é o alvo de algumas delas.
A decisão deve sair até julho e, na opinião do diplomata Marcos Troyjo – ex-secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais – o Governo Lula tem sido omisso na defesa dos interesses dos exportadores nacionais.
Para o economista e cientista político, a grande motivação do Governo é o confronto com os EUA para obter ganhos de popularidade, na tentativa de reviver “o efeito político-eleitoral” do ano passado.
“O que torna a situação mais sensível é que o Brasil está abraçando uma narrativa de confrontação perigosa,” Troyjo afirmou ao Brazil Journal.
“Não consigo me lembrar de um momento em que as duas maiores economias do continente, que são também as duas maiores democracias do Ocidente, estivessem tão distantes,” disse Troyjo, que acaba de ser nomeado para o conselho da United Nations Foundation.
A seguir, os principais trechos da conversa.
Houve sinais de reaproximação do Governo Lula com o Governo Trump no ano passado, mas o Brasil continua sob a ameaça de uma retaliação motivada por investigações do USTR. As conversas não evoluíram?
Não consigo me lembrar de um momento em que as duas maiores economias do continente, que são também as duas maiores democracias do Ocidente, estivessem tão distantes.
Me parece que, agora, a grande motivação do Governo brasileiro é utilizar essa situação que se aproxima, com o resultado da investigação do representante comercial dos EUA, para reviver o efeito político-eleitoral do ano passado.
O Presidente da República estava claramente numa trajetória cadente de janeiro até julho e, a partir de agosto, conseguiu de certa forma reverter a tendência de queda, para isso assumindo uma postura que ajuda muito pouco os interesses reais da economia brasileira – mas que, do ponto de vista político-eleitoral, pode render frutos.
Como essa atitude poderá se refletir na decisão que será emitida em breve pelas investigações do USTR?
A Suprema Corte decidiu no começo do ano que as tarifas impostas por Trump em abril do ano passado, invocadas ao abrigo de uma lei chamada IEEPA (International Emergency Economic Powers Act), só podem ter duração limitada. A manutenção delas requer aprovação do Congresso, um caminho que Trump não deverá buscar – por uma série de razões, entre elas as eleições de midterms, em novembro.
O que Trump tem à mão, neste momento, são investigações com base na Seção 301 do Trade Act.

Então, o que deveríamos estar fazendo neste momento? Deveríamos estar atuando nos bastidores, instruindo os nossos diplomatas em Washington, deveríamos estar enviando missões.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse recentemente que espera que a investigação do USTR não seja um “mero teatro” para justificar a imposição de tarifas. A decisão, ao fim, será política?
Basta ficar 24 horas em Washington para perceber que há muita eletricidade política no ar. É impossível dissociar política e geopolítica de medidas comerciais. Se a guerra é a continuação da política por outros meios, como afirmou Von Clausewitz, a geopolítica também é a política por outros meios.
Então, existem obviamente elementos políticos – e esses elementos são orientados por objetivos econômicos.
Mas o fato é que, em diversos setores, somos muito mais protecionistas do que os americanos. Há ainda disputas específicas – por exemplo, no que diz respeito à tecnologia de transferências bancárias. Outro caso é a barreira brasileira contra o etanol importado, que já poderia ter sido derrubada há anos, mas que, aos olhos dos americanos, permanece por causa do lobby de produtores do Nordeste.
O que torna a situação mais sensível é que o Brasil está abraçando uma narrativa de confrontação perigosa. Isso porque o Governo tem na memória que conseguiu reverter uma trajetória de queda de popularidade quando assumiu essa retórica no ano passado.
Mas os exportadores brasileiros que têm no mercado dos EUA o principal destino para as suas mercadorias de maior valor agregado poderão pagar um preço enorme.
Se olharmos para os números do comércio entre os países, nunca nos últimos cem anos os EUA tiveram uma participação tão pequena em nossas exportações. Caiu a um dígito.
Os EUA têm um PIB de US$ 31 trilhões. Mesmo com todo o protecionismo recente, ainda importam 12% do PIB – cerca de US$ 3,7 tri. Quanto o Brasil está ocupando dessa fatia? Menos de 1%. [Em 2025, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 37,7 bilhões, contra US$ 40,4 bilhões em 2024.]
Quais os setores que poderão ser poupados de um aumento de tarifa? Aqueles mais relevantes para a economia americana?
Em alguns casos, os compradores americanos não têm alternativas para determinados produtos que são fornecidos por produtores brasileiros.
Não estou só falando de café, suco de laranja e aeronaves. Estou falando também de carne bovina, mobiliário, derivados de madeira, determinados itens para composição de motores. Não é simples fazer a substituição de produtos que fazem parte de elos de uma cadeia produtiva longa.

Nesse caso, uma das ações que o Governo brasileiro poderia facilitar essa negociação – mas são as empresas que estão tendo que se virar, formar coalizões setoriais.
Se não houver um maior empenho diplomático, quais as consequências possíveis para o comércio entre os países?
Um efeito é o da diversificação geográfica dos produtores brasileiros, que podem descolar parte de suas operações para outros países que tenham acesso mais vantajoso aos EUA – como o Paraguai, que hoje tem ótimas relações com o Governo Trump.
Isso está acontecendo. Há empresas de proteína, por exemplo, com operações na Argentina e em outras jurisdições. As plantas no Brasil ficam destinadas à China e ao mercado interno, enquanto o frigorífico pode vender para os EUA a partir da Argentina ou do Uruguai.
Outro efeito negativo é que os EUA, em termos de investimento direito, ainda são o ator dominante, apesar de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil. Qual o incentivo dessa situação para um investidor americano? Ficar com o freio de mão puxado, olhar outras oportunidades, diminuir o peso específico do fator Brasil no portfólio de alocação do sujeito.
Com quem deveria ser a interlocução brasileira?
Não se pode centrar tudo num interlocutor só. É importante distribuir – e utilizar também os canais de representação política em Washington, que são muito comuns do ecossistema da capital americana.
Voltando à questão geopolítica, qual o poder de barganha em uma negociação com os EUA? As reservas de terras raras podem, por exemplo, ser usadas como uma ‘moeda de troca’?
As terras raras podem sim ser usadas. Veja o que fez a China.
Quando os EUA chegaram a ameaçar com tarifas de 145%, os chineses comunicaram, na mesa de negociação, que iriam impor restrição de exportações de materiais críticos. Isso puxou o tapete dos americanos. Eles perderam o chão.
Desde então, uma prioridade absoluta da política comercial e industrial dos EUA é assegurar parcerias com fornecedores alternativos em relação à China.
Estive recentemente em uma conferência onde havia muitos líderes africanos. Eles falaram, abertamente, que os americanos, depois de terem os relegado por anos e anos, agora voltaram com tudo, com interesse renovado.
Querem saber de cobalto, de cobre, querem saber das opções que eles podem ter em relação à China.
A China é o país onde há mais reservas comprovadas de minerais críticos. E quem está em segundo lugar, numa posição que é maior do que os estoques somados de outros cinco países na sequência, é o Brasil.
Trump falou, durante o encontro da Assembleia da ONU em setembro, que rolou uma química com Lula. Ele errou de ciência. Não rolou química, rolou uma geologia.
Há outros setores que o Brasil poderia usar estrategicamente.
Recentemente, a Goldman Sachs publicou um texto sobre a ascensão dos países geopoliticamente pendulares – aqueles poucos que podem, por conta das suas características, extrair vantagens seja da China, seja dos EUA. O Brasil é um deles, mas não está exercendo isso.
Fazemos um jogo ingênuo, achando que existe uma solidariedade entre potências do Sul, quando na realidade os chineses estão apenas defendendo seus próprios interesses – e o Brasil, que é um ator superimportante, fica atuando como se estivesse na condução de um centro acadêmico.




