| Mobile Time Latinoamérica | As redes privadas industriais baseadas em tecnologias como 4G, 5G e edge computing estão ganhando maior relevância no México. Especialistas no tema concordaram que esse impulso é resultado da necessidade de automação, baixa latência e processamento de dados em tempo real, no âmbito do Conecta Latam, evento realizado na Cidade do México.
De acordo com os especialistas, os setores com maior demanda são manufatura, logística, mineração, energia, portos e turismo. Nesse sentido, Isaías Alegría, diretor-geral da VIVARO TELECOM, destacou que “qualquer indústria que necessite conectividade em dispositivos itinerantes dentro de um espaço físico delimitado é candidata a redes privativas”.
Segundo estimativas da GlobalData, espera-se que o mercado global de redes privativas alcance US$ 13,31 bilhões em 2029, com uma taxa composta de crescimento anual próxima de 30%, conforme dados compartilhados durante o evento. No México, o valor passaria de US$ 28 milhões em 2025 para US$ 50 milhões em 2029, com crescimento estimado de 15,2% ao ano.
Flexibilização do espectro e novos modelos regulatórios
Diante da demanda por redes privativas industriais, a Comissão Reguladora de Telecomunicações (CRT) avança rumo a um modelo de maior flexibilização do acesso ao espectro radioelétrico. O objetivo é facilitar a implementação dessas redes por meio de modelos mais ágeis de atribuição e uso.
“Na legislação anterior, o espectro de uso privado só podia ser atribuído por meio de licitação pública, o que limitava sua adoção. Agora, as concessões podem ser feitas mediante solicitação das partes”, explicou Ricardo Castañeda, diretor de Política Regulatória da CRT, durante sua participação no painel.
Nesse contexto, ele detalhou que existem dois principais modelos: a “rede privativa pura”, na qual uma empresa utiliza o espectro para seu próprio processo produtivo, e um modelo de provisão de capacidade, em que um terceiro atua como intermediário e oferece conectividade a diferentes indústrias.
Também estão previstas licitações sob demanda, nas quais os interessados poderão definir seus próprios polígonos de cobertura, em vez de se adequarem a regiões predefinidas pelo regulador.
Além disso, foi mencionada a possibilidade de modelos do tipo sandbox regulatório para testar casos de uso antes de ajustes na regulamentação, assim como mecanismos mais flexíveis de atribuição de espectro.
Em paralelo, Castañeda afirmou que a CRT analisa ajustes no uso de faixas como 2,3 GHz e 3,5 GHz, cujo serviço foi redefinido como “provisão de capacidade para redes de radiocomunicações inteligentes”, o que abre espaço para modelos de uso mais flexíveis e localizados.
Arquiteturas híbridas e edge computing
No campo tecnológico, os participantes concordaram que as redes privativas não dependem de uma única tecnologia, mas de arquiteturas híbridas.
Virginia Vázquez Valderrama, gerente sênior de Estratégia Técnica de IoT e Redes Privativas (B2B) da América Móvil, explicou que essas soluções integram múltiplas camadas tecnológicas.
“Não estamos falando de uma solução única, mas de um portfólio de tecnologias que operam de forma coordenada (…) Podemos combinar 4G, 5G privativo para casos críticos em que a baixa latência é indispensável; Wi-Fi para ambientes indoor de alta capacidade; fibra como espinha dorsal; e satélites para áreas remotas”, explicou.
Para a especialista, o principal valor do 5G em redes privadas está na capacidade de oferecer latências inferiores a 10 milissegundos, o que viabiliza aplicações como veículos autônomos (AGVs), drones em armazéns e sistemas de visão computacional em tempo real.
A essas tecnologias soma-se o edge computing. Segundo Edwin Tello, presidente da Associação Colombiana de Data Centers (ACOLDC), isso implica uma mudança estrutural na arquitetura das redes privadas.
“Um dado que chega tarde simplesmente já não serve. O valor não está em transportar dados, mas em processá-los no momento exato em que geram impacto”, afirmou.
Nesse sentido, ele acrescentou que cerca de 70% dos dados serão processados fora dos data centers tradicionais e mais próximos do ponto onde são gerados, o que transforma as redes privativas em plataformas de processamento distribuído.
Para o especialista, quando todas essas tecnologias convergem, já é possível falar de uma definição moderna de rede privada — “não como a conhecíamos antes, como uma rede vinculada a uma única tecnologia”.
No México, adoção é impulsionada por necessidades operacionais
Isaías Alegría destacou que qualquer indústria com dispositivos móveis dentro de um ambiente controlado é candidata à adoção de redes privativas industriais.
“Qualquer indústria que precise de conectividade em dispositivos itinerantes dentro de um espaço físico delimitado é candidata a redes privativas”, reforçou.
Entre os principais casos de uso, ele citou drones para inventário em armazéns, sistemas de visão computacional para controle de qualidade e supermercados inteligentes com ajustes de preços em tempo real.
No entanto, a adoção dessas redes ocorre sobretudo por necessidades operacionais, e não por decisões puramente tecnológicas.
“A questão das redes privativas é que nem todas as empresas as conhecem — elas simplesmente precisam delas para funcionar”, afirmou.
Francisco Lara, especialista em Inovação Tecnológica da IZZI, destacou que as empresas que mais têm se beneficiado dessas redes pertencem aos setores de energia, distribuição e mobilidade — ambientes em que a conectividade é crítica para melhorar produtividade e segurança.
Outro setor com forte impulso na adoção é o de manufatura.
“Do total das exportações nacionais, cerca de 92% corresponde ao setor manufatureiro”, destacou Castañeda, ao enfatizar a necessidade de infraestrutura avançada de conectividade.
O regulador também lembrou que a CRT já participou de testes piloto de redes privativas. “Tivemos um exemplo de rede experimental para oferecer experiências via conectividade 5G para o turismo em uma região turística do sudeste do país”, concluiu.
Imagem principal: Aline Sarmiento/Mobile Time




