A americana Pilgrim’s Pride, gigante de carne de frango que foi um esteio para a brasileira JBS nos últimos dois anos, frustrou as expectativas dos analistas no primeiro trimestre, mas isso não impediu um movimento de recuperação das ações nesta quinta-feira.
Pela manhã, os papéis chegaram a subir 4%, apesar dos resultados mais fracos divulgados na quarta-feira à noite. No trimestre, o Ebitda da Pilgrim’s caiu 42%, totalizando US$ 308 milhões, quase 20% abaixo do consenso Bloomberg.
Com isso, a margem ficou em apenas 6,8%, uma diminuição de 5,2 pontos. Nas operações americanas, a margem de lucro operacional perdeu mais de 7 pontos, fechando o trimestre em 4,2%.
O comportamento das ações pode ser explicado por alguns fatores, técnicos e de fundamentos. O bom e velho “caiu no boato, subiu no fato” é um deles. Em abril, as ações da Pilgrim’s acumularam uma desvalorização de quase 19%, já antecipando o resultado mais fraco.
Além disso, o desempenho aquém do esperado reflete uma transição momentânea, e não um problema estrutural de margens. No trimestre, a Pilgrim’s realizou paradas temporárias em diversas plantas para fazer investimentos que permitirão uma mudança de mix em direção a um portfólio de margens mais estáveis.
Entre essas adaptações, está a ampliação da capacidade de porcionamento de desossa de cortes como coxa e sobrecoxa em diversas plantas. Com isso, a companhia reduz a exposição ao “big bird”, uma carne de frango de perfil comoditizado e margens voláteis.
Outra alteração foi a conversão da planta de Russellville, no Alabama, que estava concentrada na produção de “big bird” e passará a produzir case ready (frango em bandejas) e sem antibiótico.
Enquanto fazia essas mudanças, a Pilgrim’s deixou de abater por alguns dias nessas plantas, o que acabou aumentando o peso médio das aves, que ficaram fora do padrão ideal para alguns clientes e precisam ser vendidas mais baratas. Com isso, perde margem.
Questionado por analistas durante a teleconferência de resultados feita pela manhã, o CEO da Pilgrim’s, Fabio Sandri, evitou detalhar o impacto financeiro das paradas temporárias, mas reconheceu que foi “relevante”.
Em relatório a clientes, os analistas do BTG Pactual argumentaram que as paradas temporárias explicam muito mais a queda da margem reportada nos Estados Unidos do que o ciclo do frango — que está em processo de aumento da oferta.
“Claramente, há pressões cíclicas na lucratividade, mas acreditamos que os fatores temporários tiveram um impacto muito maior”, escreveram os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
No Santander, os analistas Guilherme Palhares e Laura Hirata também mencionaram o ambiente mais desafiador para as margens da carne de frango nos Estados Unidos.
Sandri, no entanto, apresentou uma leitura diferente dos analistas. Segundo o CEO da Pilgrim’s, o aumento da oferta de frango nos EUA deve perder força no segundo semestre.
Mesmo com as preocupações no curto prazo, os analistas do Santander reiteraram a confiança na solidez da gigante de carne de frango.
“Continuamos vendo a Pilgrim’s como uma das empresas de proteína mais resilientes em um cenário de tensões geopolíticas, dado seu maior foco no mercado doméstico e sua exposição à proteína mais acessível do mercado”, escreveram.
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Listada na Nasdaq, a Pilgrim’s está avaliada em US$ 7,7 bilhões. No ano, os papéis caem 16,6%.




