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A primeira luz do dia inspira novas esculturas e uma coleção de joias de Iole de Freitas

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A artista Iole de Freitas, aos 80 anos, observa o amanhecer de sua varanda em Laranjeiras, Rio de Janeiro, e se inspira para criar a série de esculturas “Noturnos”, exposta na galeria Raquel Arnaud.

Utilizando aço inoxidável, Iole camufla o brilho do metal com areia e tinta fosca, refletindo as nuances do amanhecer.

Suas esculturas de parede variam em movimento e cor, representando a transição entre noite e dia. Além disso, apresenta as esculturas “Mantos”, feitas de papel glassine, que exploram a leveza e a tensão.

A artista, que começou sua trajetória nas artes visuais nos anos 1970, busca congelar movimento e cor em suas obras.

Recentemente, colaborou com ourives da H.Stern para criar uma coleção de joias, celebrando seus 80 anos. Iole continua a inovar, afirmando que sua arte é uma linguagem voltada para o outro, e não uma autoexpressão.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Há alguns anos, a artista Iole de Freitas acorda antes do nascer do sol. Senta-se em sua varanda, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e observa a noite dar lugar ao dia. “Eu descortino um amanhecer inacreditável”, conta, em entrevista ao NeoFeed.

“Fico perseguindo esses momentos, aguardando, com ansiedade, a duração. É uma relação temporal. Estou no noturno, na falta de luz, esperando, a cada madrugada, se a luz virá às 4h40 ou às 5h20. Essa observação me mantém em estado de expectativa.”

Aos 80 anos recém-completados, Iole não deixa de se deslumbrar. Vê, na escuridão, o céu se abrir em tons de violetas aos magentas, passando pelos laranjas intensos, num movimento contínuo até que a luz tome o dia por completo. A partir dessa observação, a artista criou a série Noturnos, apresentada na galeria Raquel Arnaud, em São Paulo, até 30 de maio.

As esculturas são feitas de aço inoxidável, material com o qual trabalha há décadas. Com ele, cria formas flamejantes, conferindo às chapas vibração e leveza. Porém, não explora o brilho do metal; ela o camufla. Pinta cada parte da escultura com areia e tinta fosca, em tons captados do amanhecer visto de sua janela.

“O amanhecer se repete todos os dias, mas nunca da mesma forma. A luz surge primeiro na linha do horizonte. É ali que a estrutura se revela. Dela nascem ondas de cor distintas, sempre as mesmas, com mínimas diferenças”, explica.

Em Noturnos, esse princípio se desdobra nas esculturas de parede. As esculturas partem de uma mesma lógica, mas cada uma encontra seu próprio movimento e sua própria variação de cor.

É preciso observar de perto para notar que, assim como o céu varia conforme a incidência da luz, Iole colore cada curva com um tom distinto, compondo, em cada peça, uma transição entre noite e dia — algumas mais violetas, outras mais quentes.

Junto a essa nova série, Iole apresenta também as esculturas Mantos, feitas em papel glassine — um material translúcido, leve e resistente. As esculturas exploram uma tensão semelhante à das peças em aço inoxidável.

No metal, a artista extrai leveza e vibração de um material rígido. Enquanto, no papel, parte de algo aparentemente frágil para afirmar sua sustentação. Com um soprador de ar, ela deu a ele “o sopro da vida. O papel, agora, está vivo. Veja: ele respira”, escreveu o curador Eucanaã Ferraz, em ocasião da exposição Fazer o Ar, em 2025, no Paço Imperial, quando apresentou os Mantos.

Iole cria textura e volume ao inflar o material com dobras e amassados, que depois colore com uma mistura de cola e areia — desta vez, em branco e vermelho. Nos dois conjuntos, a artista produz ao mesmo tempo movimento e suspensão, como se fixasse um instante decisivo em que luz e vento passam, reordenando tudo o que antes parecia estático.

Cor e tempo

Congelar o movimento e as cores é um gesto presente desde o início da trajetória de Iole. Nascida em Belo Horizonte, em 1945, ela se aproximou da arte por meio da dança, já no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a família. A experiência com o corpo em movimento marcou profundamente seu pensamento.

Foi nos anos 1970, durante uma temporada em Milão, que se deu sua entrada nas artes visuais. Ali, começou a usar o próprio corpo como matéria. Ainda sob forte influência da dança, fazia registros em foto e vídeo de suas ações. Esses registros, realizados em Super 8 e Kodachrome, já apresentam uma variação cromática que oscila entre tons azulados e alaranjados.

Não deixa de haver uma rima distante entre os trabalhos recentes e os primeiros feitos em película. No filme, o grão confere à imagem uma vibração própria; nas esculturas, a areia dá corpo à cor.

Com aço inoxidável, Iole cria formas flamejantes, conferindo às chapas vibração e leveza (Foto: João Cazzaniga)

A pulseira em aço e ouro amarelo com diamantes ilustra à perfeição as joias-esculturas de Iole (Foto: Divulgação/HStern)

“O amanhecer se repete todos os dias, mas nunca da mesma forma”, diz Iole (Foto: João Cazzaniga)

No início, Iole resistiu ao uso de pedras, mas percebeu que discretos brilhantes, como nesse anel, não afetariam a poética de seu trabalho (Foto: Divulgação/HStern)

As obras de Iole foram se agigantando e passaram também a se projetar no plano aéreo das instituições (Foto: João Cazzaniga)

Iole transpôs para as joias a leveza e fluidez de sua arte, como neste colar (Foto: Divulgação/HStern)

A artista cria textura e volume ao inflar o papel glassine com dobras e amassados (Foto: João Cazzaniga)

Se, nas instalações, a obra se expande à escala da arquitetura, na joalheria Iole estabelece uma medida íntima, como nesses brincos (Foto: Divulgação/HStern)

Ao longo das décadas, Iole passou a materializar o movimento, criando esculturas feitas com arame, tubos e tecidos. Formas que parecem emergir do corpo e se expandir pelo espaço.

As obras de Iole foram se agigantando e passaram também a se projetar no plano aéreo das instituições. Placas de policarbonato e hastes de aço inoxidável, que ela chama de flecha, atravessavam os ambientes, ancorando-se nas paredes e instaurando uma tensão à lógica arquitetônica que as continham.

Torcidas, as superfícies transparentes se suspendem em pleno gesto, evocando um grand jeté, como se fixassem no ar um movimento em curso. Em 2007, na Documenta 12, em Kassel — uma das mostras mais importantes do mundo —, esse vocabulário ganhou escala e intensidade, ocupando todo um andar e fachada do Friedrichsplatz, edifício onde aconteceu a mostra.

Obras para vestir

É dessa pesquisa que os ourives da HStern partiram para desenvolver, em colaboração com a artista, a coleção HStern + Iole de Freitas. Se, nas instalações, a obra se expande à escala da arquitetura, aqui ela estabelece uma medida íntima, da orelha, do pescoço, das mãos.

“Foi deslumbrante acompanhar a confecção, porque, se eu faço torções com chapas de seis metros por dois, os ourives trabalham com chapas de três centímetros por um. E eu fui observando como eles conseguiram realizar”, lembra a artista.

O processo levou dois anos. “Combinamos que a matéria-prima incluiria o aço — um material com o qual eles nunca haviam trabalhado. Não é exatamente o mesmo aço que uso nos meus tubos, mas um aço de altíssima qualidade”, conta. Iole ficou resistente apenas ao uso de pedras nas peças.

Mas logo percebeu que os discretos brilhantes cravados em suas flechas não afetariam a poética de seu trabalho. “Foi algo muito peculiar; eu tive uma grande alegria de ver a artesania admirável dos ourives, que trabalham na marca há mais de 30 anos”, diz.

Tanto as joias quanto a mostra na galeria Raquel Arnaud coincidem com a celebração dos 80 anos de Iole. Em dezembro, ela reuniu amigos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para comemorar seu aniversário e dançou a noite toda.

Antes de cada exposição, pergunta-se o que se quer fazer. E o festejo lhe deu energia para realizar esses trabalhos novos que anunciam a aurora. “O fato plástico é invenção, não autoexpressão. É linguagem. Eu faço para o outro, em relação ao outro”, diz.

Sem interesse em se repetir, continua inventando. “Vou inventar, mantendo uma coerência, um lastro com a poética do meu trabalho. Aos 80, observo muito mais as coisas.”



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