A perda de um animal de estimação costuma ser silenciosa para quem observa de fora, mas profundamente marcante para quem vive esse vínculo no dia a dia.
Em um cenário em que os pets ocupam, cada vez mais, o lugar de membros da família, o luto por esses companheiros também ganha novas formas de expressão, mais visíveis, simbólicas e, sobretudo, acolhedoras.
É nesse contexto que iniciativas inovadoras têm surgido, unindo tecnologia e afeto para transformar saudade em algo concreto.
PETs em três dimensões
Uma das apostas é a criação de réplicas em 3D de animais já falecidos, oferecendo aos tutores uma forma de manter viva a memória de seus bichinhos.
Mais do que um produto personalizado, a proposta se conecta diretamente com o processo emocional de quem enfrenta a perda.
Quando a dor ganha forma
O projeto do empresário Pedro Lucas Reis nasceu de uma experiência pessoal e, aos poucos, se transformou em negócio.
Ao iG, ele conta que a ideia surgiu a partir de um gesto simples, mas carregado de significado:
“O início do projeto foi de uma vontade pessoal de reproduzir um cachorro que já havia falecido, e dar de presente para os donos, usamos algumas imagens para recriar em 3d e depois fizemos a parte de pós produção com pintura e acabamento pra chegar no resultado final.”
A partir dessa iniciativa, ele percebeu que havia uma demanda crescente por esse tipo de homenagem e que o diferencial estava justamente no valor afetivo envolvido.
Como as réplicas em 3D são produzidas
O processo combina tecnologia e trabalho manual, buscando o máximo de fidelidade possível.
Cada peça leva, em média, de 6 a 10 dias para ficar pronta após o envio das fotos, que são o primeiro passo, e essenciais, para o resultado final.
““Usamos as imagens reais para recriar o cachorro em 3D e depois colocamos a peça pra imprimir, pós fazemos o acabamento manual e pintura para ficar o mais próximo possível do real. Pelas imagens de registro do próprio dono, quanto mais fotos de ângulos diferentes melhor será a reprodução final da peça”.
A ideia é expandir as vendas em lojas de pets e pela internet, no perfil @x1noBrasil do Instagram.
O luto que nem sempre é reconhecido
Apesar de comum, a dor pela perda de um pet ainda é, muitas vezes, minimizada socialmente. A psicóloga especialista em luto, Natália Aguilar, explica que esse sofrimento é legítimo e comparável à perda de um familiar.
“A perda de um pet pode desencadear um luto semelhante à perda de um familiar, muito porque as novas configurações familiares, atualmente, incluem o pet dentro do contexto familiar. Ou seja, o pet é um membro da família.”
Segundo ela, a intensidade da dor está diretamente ligada ao vínculo construído.
Esse laço, marcado por presença constante e afeto, torna a ausência ainda mais significativa. Diante dessa dor, objetos simbólicos podem desempenhar um papel importante no processo de elaboração do luto.
A psicóloga explica que a materialização da lembrança ajuda a tornar a perda mais compreensível.
““Essas réplicas e esses objetos afetivos podem, sim, funcionar como mediadores da saudade. Ter um objeto concreto é poder pegá-lo para se lembrar, para se permitir sentir saudade”.
Mais do que isso, esses objetos funcionam como uma ponte entre o que foi vivido e o que permanece na memória.
Memória, despedida e equilíbrio
Em um cenário em que os pets ocupam, cada vez mais, o lugar de membros da família, o luto por esses companheiros também ganha novas formas de expressão, mais visíveis, simbólicas e, sobretudo, acolhedoras. pic.twitter.com/CoVLYktco6
— iG (@iG) April 30, 2026
Ao contrário do que se pode imaginar, manter elementos ligados ao pet não impede o processo de despedida e pode, inclusive, facilitá-lo, ela lembra.
O ponto central, segundo a especialista, está na forma como esse objeto é inserido na vida da pessoa. Ela explica que o problema não está no objeto em si, mas no lugar psíquico que ele ocupa. Quando saudável, ele ajuda a organizar emoções e manter uma continuidade simbólica do vínculo.
Ainda assim, é importante observar os limites. O luto precisa permitir movimento e reconstrução.
O apego deixa de ser saudável quando impede a pessoa de seguir vivendo. Isso significa que, com o tempo, a pessoa deve conseguir transitar entre a dor e a retomada da vida.
O luto saudável sempre envolve esse movimento entre essas duas polaridades: a perda e a restauração da vida.
Um retrato das relações atuais
O crescimento de iniciativas como essa reflete mudanças profundas na forma como os animais são vistos na sociedade contemporânea.
“Os pets passaram a ocupar um lugar central nas relações afetivas contemporâneas”.
Mais do que companhia, eles são reconhecidos como parte da família. Não é apenas sobre a homenagem em si, mas sobre validar a dor e a importância desse vínculo”.
Um mercado movido pela saudade
A procura pelo serviço revela uma tendência crescente: a necessidade de manter viva a memória dos pets após a perda. Segundo o empresário, a maioria das encomendas está ligada a esse momento delicado.
“Os feedbacks dos clientes são a melhor parte, algumas clientes choram ao receber o produto por ser algo muito emocional”.
Hoje, o negócio produz réplicas de diferentes animais, embora cães e gatos ainda sejam os mais procurados. As peças são oferecidas em três tamanhos, 10, 15 e 20 centímetros, com valores que variam, em média, de R$ 250 a R$ 520, dependendo do nível de detalhamento, tempo de produção e acabamento.


















