O problema não é a guerra. É quando ela entra no seu custo — antes de entrar no preço do seu produto.
Depois de quase dois meses de conflito envolvendo o Irã, o Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um ponto de tensão geopolítica e passou a ser um fator concreto de custo para o agro brasileiro. Não pela soja em Chicago, nem pelas manchetes — mas pelo caminho mais silencioso e mais perigoso: fertilizantes, energia e câmbio. É assim que guerras entram na safra, não pelo talhão, mas pela margem.
O Estreito de Ormuz voltou ao centro do tabuleiro global e, como quase tudo em commodities, o impacto não vem em linha reta — ele vem em cadeia. O primeiro elo é o fertilizante, mas o impacto não é homogêneo entre culturas. Os fluxos mais afetados pela região do Golfo, especialmente nitrogenados como ureia, são muito mais críticos para o milho do que para a soja. Enquanto o milho depende fortemente de nitrogênio, a soja fixa esse nutriente biologicamente, reduzindo sua exposição direta. Isso muda a leitura de risco.
Além disso, o timing joga a favor — por enquanto. Boa parte dos fertilizantes da safrinha 2026 já havia sido adquirida antes da escalada recente do conflito, reduzindo o impacto imediato. Ou seja, o problema não está no retrovisor, está no para-brisa. O risco agora está na safra 2026/27 e, principalmente, na safrinha 2027. Com compras ainda em aberto, o produtor enfrenta fertilizante mais caro, incerteza de oferta e decisões críticas.
O paralelo com a Ucrânia ajuda a calibrar essa leitura. Dois meses após o início da guerra, em 2022, o mundo já vivia um choque pleno: energia, fertilizantes e grãos em alta. Era um choque simétrico — o custo subia, mas o preço agrícola também. Agora, não. O choque atual é mais assimétrico. Até aqui, ele pressiona energia, fertilizantes e logística, sem a mesma resposta nos preços agrícolas. Isso muda a equação: o custo sobe agora e a receita permanece incerta.
Hormuz é energia — e energia é custo em toda a cadeia. Diesel, frete e insumos reagem rapidamente. Ao mesmo tempo, entra o canal financeiro: o câmbio. Mas aqui vale um ajuste importante. Diferente de outros momentos de estresse global, o real se apreciou. Juros elevados e ativos descontados têm atraído capital para o Brasil, sustentando a moeda mesmo em ambiente externo incerto. À primeira vista, parece positivo, mas para o produtor não é tão simples. O real mais forte pressiona o preço da soja em reais, reduzindo a capacidade de compensação frente ao aumento de custos. Ou seja, o custo sobe em dólar, mas o preço do produto, em reais, não acompanha. Essa é uma assimetria pouco intuitiva — e perigosa.
A soja, nesse contexto, parece mais protegida, mas essa proteção é parcial. Fósforo e potássio continuam relevantes, energia e logística pressionam o custo total, e o preço depende de Chicago — não apenas do câmbio. E, principalmente, não há garantia de que a soja suba na mesma velocidade que o custo. Esse é o ponto central do risco: o custo sobe agora, a receita vem depois — e pode não vir na mesma intensidade.
O erro mais comum é olhar cultura por cultura e perder a visão do sistema. O risco não está isolado, está no conjunto da operação. Fertilizante mais caro afeta a próxima safra, o milho futuro pode carregar custo mais alto, o crédito está mais seletivo e o caixa precisa atravessar esse ciclo. É nesse ponto que o risco deixa de ser geopolítico e vira financeiro.
Há ainda uma resposta natural a esse tipo de choque que começa a ganhar espaço: a redução de tecnologia nas próximas safras. Menor aplicação de insumos, ajustes de adubação e cortes em manejo podem aliviar o caixa no curto prazo, mas carregam um risco adicional: comprometer produtividade justamente quando a margem já está pressionada.
Esse cenário exige disciplina. O risco não está no que já foi comprado, mas no que ainda precisa ser decidido. Liquidez volta ao centro porque o custo vem antes da receita.
O mercado já entendeu que o choque começou pelo custo, e o próximo movimento está no crédito. A pressão sobre fertilizantes e energia aumenta a necessidade de capital de giro e torna o financiamento mais caro e seletivo. Mais do que resultado, o que está em jogo agora é permanência. Porque, neste ambiente, para muitos, decisões e gestão de risco deixam de ser diferencial e passam a ser condição de sobrevivência.
Direto da mesa de riscos
Depois de quase dois meses, o conflito deixou de ser militar e virou econômico. Hormuz virou instrumento de negociação — e o mercado já começou a tratar isso como “normal”, mesmo com a disrupção física ainda elevada . Esse descolamento é o risco.
O custo já subiu, o mercado nem tanto. Não há garantia de que os preços agrícolas vão compensar. E mais: o choque pode transbordar para política. Mudanças na mistura de etanol na gasolina ou de biodiesel no diesel entram no radar, alterando demanda por milho, soja e óleo. Não é só custo, é também demanda.
O cenário segue aberto, mas o risco já está claro: custo sobe primeiro, política entra no meio e o preço pode — ou não — ajustar depois. Gestão de risco, aqui, não é prever o conflito, é não depender de um único desfecho.
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Rafael Harada é sócio da Rural Capital. Possui mais de 20 anos na gestão de riscos de commodities e de câmbio.




