Depois de anos de negociações políticas, disputas entre setores e intensos debates técnicos no Congresso Nacional, a Reforma Tributária entrou oficialmente em sua fase de implementação em 2026. Para especialistas reunidos nesta quarta-feira (6), na sede da Aberje, em São Paulo, o desafio mais complexo começa agora: comunicar essas mudanças para empresas, consumidores e toda a sociedade.
O consenso entre economistas e especialistas em tributação e comunicação foi claro: aprovar a reforma foi difícil, mas tornar o novo sistema compreensível para o país pode ser ainda mais complicado.
O debate, promovido pela Aberje em parceria com o InfoMoney, reuniu representantes do mercado, da academia e da comunicação corporativa para discutir os impactos da reforma sobre empresas, setores e cadeias produtivas, destacando o papel estratégico da comunicação nesse processo de transição.
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Da negociação política ao impacto no dia a dia
A percepção é que a reforma deixou o terreno abstrato das negociações e entrou na realidade operacional das empresas e do consumo.
“Quando a gente discutia a reforma, falávamos em grandes blocos. Ninguém entrava no detalhe da nota fiscal enquanto a reforma estava sendo aprovada”, afirmou Vanessa Canado, professora sênior e coordenadora do Núcleo de Tributação do Insper e ex-assessora especial do Ministério da Economia.
Agora, segundo ela, o cenário é outro. “Quanto mais detalhes, mais difícil. A implementação, do ponto de vista geral, é mais complexa do que o próprio processo político”, disse.
Em sua avaliação, um dos principais desafios dessa nova fase será transformar uma mudança altamente técnica em informação compreensível para empresas, consumidores e trabalhadores.

O período de transição também apareceu como um dos principais fatores de insegurança. Para Rodolfo Margato, vice-presidente de Pesquisa Econômica da XP Investimentos, a reforma já superou uma etapa delicada do ponto de vista político, mas ainda precisa ser traduzida em efeitos concretos para os agentes econômicos.
“Por isso, a comunicação será o maior desafio, especialmente durante o período de transição, que vai até 2032 e ainda é nebuloso, exigindo estudos específicos para setores e empresas”, afirmou.
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Segundo ele, há uma percepção de que a implementação seguirá adiante sem retrocessos relevantes, mesmo em caso de mudança de governo.
“O problema está menos na continuidade da reforma e mais na capacidade de adaptação dos envolvidos. E, neste momento, a comunicação se torna o grande desafio para todos os agentes afetados”, disse.

Transparência x ruídos
O debate mostrou ainda que a Reforma Tributária deixou de ser um tema restrito às áreas fiscal e financeira das empresas.
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Com a criação do IVA dual, formado pela CBS federal e pelo IBS de estados e municípios, a tendência é de maior transparência sobre a carga tributária incidente sobre bens e serviços, com tributos aparecendo de forma mais clara nas notas fiscais, inclusive para o consumidor final.
“Vamos conseguir ver efetivamente quanto estamos pagando de imposto”, afirmou Vanessa Canado. Na prática, isso tende a alterar não apenas processos internos das empresas, mas também sua relação com consumidores, fornecedores e investidores.
Para o CEO do InfoMoney, Rodrigo Flores, essa reforma será a maior revolução tributária do país e trará grandes desafios, que causarão ansiedade pela falta de segurança. “Por isso, a informação confiável será fundamental nesse sentido”, disse.
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“Passada a fase da discussão entre técnicos, políticos, contadores e tributaristas, precisamos falar da reforma, que vai levar tempo para ser implementada e que vai redesenhar a forma como se cobra imposto no Brasil”, afirmou o economista-chefe da Aberje, Leonardo Müller.
É nesse contexto que a comunicação corporativa ganha protagonismo. A avaliação dos debatedores é que as empresas agora precisarão explicar melhor as mudanças de preços, a revisão de contratos, a alteração de custos, as adaptações operacionais e até os impactos sobre produtos e serviços em um ambiente ainda cercado de dúvidas e disputas entre narrativas.
Segundo os organizadores do evento, a reforma representa uma “transição institucional” com potencial para alterar critérios de competitividade e até dinâmicas reputacionais das companhias. O papel da comunicação deixa de ser apenas institucional e passa a envolver gestão de risco e alinhamento estratégico, justamente para evitar desinformação durante o longo período de transição.
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Como a implementação será gradual e envolverá a convivência entre sistemas antigos e novos por vários anos, especialistas avaliam que a falta de clareza pode gerar ruídos tanto dentro das empresas quanto na relação com o mercado. A preocupação aumenta porque muitos setores ainda tentam calcular os efeitos reais da reforma sobre preços, margens e competitividade.
“Nesse cenário, as empresas devem buscar maior eficiência, especialmente porque o novo sistema elimina um monte de tributos que exigiam que as corporações mantivessem departamentos gigantescos para garantir a conformidade”, explica Margato. Essas reduções de custos, somadas ao uso de Inteligência Artificial (IA), devem dar aos setores fiscais maior produtividade e eficácia, levando a reduções de custos que impactarão seus produtos finais, na opinião do especialista.
Para os especialistas, a discussão reforçou uma percepção crescente no mercado: a Reforma Tributária deixou de ser apenas uma pauta legislativa e se tornou um desafio operacional, econômico — e agora também de comunicação —, que exigirá transformar um sistema complexo em algo inteligível para quem paga imposto, produz, vende e consome.




