O Brasil registrou um forte aquecimento na geração de renda, ancorado pela resiliência do mercado de trabalho e pelos impactos das mudanças demográficas. Em 2025, o rendimento médio mensal real de todas as fontes, descontada a inflação, atingiu o pico histórico de R$ 3.367, representando um crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior.
Além disso, pela primeira vez na série histórica da pesquisa (iniciada em 2012), a parcela da população com algum tipo de rendimento alcançou 67,2%, o que representa 143 milhões de pessoas. O mercado de trabalho protagonizou este avanço, que também teve o seu percentual máximo de abrangência: 47,8% da população possui rendimento atrelado à atividade profissional, sem considerar aposentadoria, benefícios ou outras fontes de rendimento.
A força dessa dinâmica se refletiu no rendimento médio recebido de todos os trabalhos, estimado no valor inédito de R$ 3.560.
De acordo com a análise de Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV/Ibre, o mercado de trabalho teve um “desempenho extraordinário” nos últimos anos, consolidando-se como o principal motor para explicar o aumento da renda domiciliar no país.
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Centro-Oeste tem renda maior que Sul e Sudeste
Uma das transformações apontadas pela pesquisa ocorreu na distribuição regional da riqueza gerada pelo trabalho. Historicamente liderado pelo eixo Sul-Sudeste, o topo do ranking salarial foi assumido de forma consolidada pela Região Centro-Oeste, onde o rendimento habitual do trabalho alcançou R$ 4.133, superando os R$ 4.026 da Região Sul e os R$ 3.958 do Sudeste.
Barbosa Filho aponta que esse fenômeno é um reflexo direto do agronegócio na região nas últimas décadas. Cidades de médio porte no Centro-Oeste, fortemente ligadas ao setor agropecuário, têm criado uma sólida cadeia de negócios que eleva significativamente a remuneração média daquela localidade, invertendo a percepção tradicional de que a maior renda, obrigatoriamente, se encontra nos grandes centros urbanos do Sudeste.

Aposentadorias e programas sociais
Além dos salários, o rendimento de outras fontes (como aluguéis, benefícios e doações) chegou a alcançar 27,1% dos brasileiros. Dentro desse grupo, o envelhecimento populacional tem ditado um ritmo constante de alta na proporção de domicílios que dependem de aposentadorias e pensões.
O analista da PNAD Contínua, Gustavo Fontes, destaca que o percentual de pessoas recebendo aposentadorias e pensões registrou o maior patamar da série histórica, abarcando 13,8% da população, com rendimento médio na casa de R$ 2.697. E isso deve continuar crescendo, segundo Barbosa Filho, já que a população está envelhecendo.
Os programas sociais do governo, por sua vez, mantiveram sua relevância estrutural atendendo a 9,1% da população, um percentual de abrangência estável se comparado a 2024, mas sensivelmente acima do que vigorava no período pré-pandemia (6,3%). O rendimento médio proveniente dessas transferências girou em torno de R$ 870, o que significa um crescimento de mais de 70% quando comparado aos valores nominais e de referência operados antes de 2020.
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Embora esse suporte seja fundamental (sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde o peso da assistência nas rendas locais chega a bater 15,8%), especialistas chamam a atenção para os desafios que vêm no pacote.
Barbosa Filho alerta que o benefício escalou ao longo dos últimos anos a ponto de encostar em patamares próximos a 70% de um salário mínimo. Essa elevação torna complexa a gestão das contas públicas e gera debates sobre o impacto na oferta de trabalho formal em alguns locais do país.
Desigualdade
Apesar do recorde de renda, a desigualdade persiste no país. O Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita variou de 0,504, em 2024, para 0,511 em 2025. Barbosa aponta que, estatisticamente, essa variação representa uma estabilidade, mas dentro do quadro geral do país o dado é perverso porque não indica um avanço em direção à equidade.
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Outros dados que corroboram a desigualdade, divulgados pelo IBGE, apontam que os 10% da população com os maiores rendimentos acumula, sozinha, 40,3% de toda a massa de rendimentos domiciliares do país. Para colocar em perspectiva, essa pequena parcela no topo possui mais dinheiro do que os 70% situados na base da pirâmide. Em média, os mais ricos ganham 13,8 vezes mais do que os 40% com as menores rendas.
“A nossa capacidade de reduzir a desigualdade através de programas de transferência de renda parece ter chegado no seu limite”, avalia o pesquisador do FGV Ibre. Ele argumenta que a política social de assistência foi bem-sucedida ao longo das últimas décadas, mas o seu escopo atual já foi todo absorvido e precificado pelos dados, indicando falta de potência adicional para comprimir a disparidade estrutural.
Projeção para 2026
A projeção do mercado de trabalho para 2026 é de uma acomodação no ritmo acelerado verificado em 2025. A política monetária restritiva, com taxas de juros elevadas, já começa a emitir sinais de esfriamento econômico, destaca Barbosa.
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Mas, ainda estamos longe de um quadro dramático, segundo o pesquisador. A perspectiva é que haverá uma “deterioração suave”, mantendo a maior parte de sua resiliência, sem que o desemprego avance demais.




