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A pintura de Sandra Gamarra Heshiki, exposta no Masp, inicia como uma paisagem clássica, mas revela um espaço expositivo que questiona a representação histórica.
A artista, ao reinterpretar uma obra de Frans Post, destaca a presença de uma urna funerária marajoara, evidenciando culturas ausentes nas narrativas europeias.
Sua exposição, “Réplica”, reflete sobre a descolonização dos museus e a crítica à matriz colonial. Gamarra, que cresceu no Peru sob uma ditadura, fundou o LiMac, uma instituição fictícia que questiona a classificação das coleções em museus europeus.
A mostra inclui cópias de obras consagradas e uma pintura que retrata um ambiente corporativo, simbolizando sua prática de apropriação. A obra exige tempo e atenção do espectador, que se torna parte da experiência, refletindo sobre a nova devoção às imagens na arte contemporânea.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
À primeira vista, a pintura se apresenta como uma paisagem clássica: céu azul, palmeiras que enquadram a cena e pequenas figuras humanas caminhando. Até que, no centro, a imagem se rompe. Surge um retângulo que revela o espaço expositivo do Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Através do vidro do cavalete criado por Lina Bo Bardi, veem-se pessoas em trânsito e duas obras em exibição: uma cerâmica à esquerda e uma pintura figurativa à direita. A pintura sobre o cavalete foi realizada durante a montagem de Réplica, exposição da artista peruana Sandra Gamarra Heshiki em cartaz na instituição.
Ao longo de dez dias, ela dividiu seu tempo entre o acompanhamento da montagem de sua primeira retrospectiva, no primeiro andar do edifício, e o trabalho na reserva técnica. Foi ali que produziu sua reinterpretação de Paisagem com tamanduá (c. 1660), do neerlandês Frans Post, pertencente ao acervo da instituição.
“Da paisagem me interessa o olhar recortado sobre a natureza. Me interessa muito como as lógicas da paisagem europeia se encaixam (quase à força) na paisagem tropical. Me interessa o que ela mostra, mas, sobretudo, o que oculta”, explica a artista ao NeoFeed.
Ao abrir esse rasgo na pintura de Post, Sandra torna visível uma urna funerária em cerâmica marajoara, datada entre 400 e 1400, pertencente à coleção do museu. Um testemunho de povos e culturas ausentes das representações construídas pelos artistas europeus que passaram pelo país.
E, ao inserir o espaço museológico no centro da paisagem colonial, a artista questiona a própria ideia de representação e sugere que aquilo que chamamos de “história” talvez seja apenas a versão mais bem iluminada de uma vitrine — ou uma ficção.
A expografia retoma a lógica cronológica dos museus enciclopédicos, organizando sua produção em núcleos como “pré-colonial”, “colonial”, “pós-independência”, “moderno” e “contemporâneo”. Embora o acervo do Masp não siga essa estrutura — exposto nos cavaletes de vidro que propõem um “emaranhado de tempo”, como dizia Lina Bo Bardi —, o curador Guilherme Giufrida observa que o museu dialoga com esse modelo.
“É muito forte apresentar Réplica em uma instituição com um acervo como o do Masp, porque alguns dos artistas aos quais a Sandra reage estão ali presentes. É o próprio museu se abrindo a uma crítica institucional — não ao Masp em si, mas à ideia de museu, à sua matriz colonial e às formas de classificação”, afirma o curador, em entrevista ao NeoFeed.
Para a artista, apresentar sua mostra em uma das principais instituições da América Latina funciona como uma infiltração, “que pode tensionar nossa memória e o que pensamos como fixo”.
Réplica acontece no ano em que a programação do Masp é dedicada às histórias latino-americanas. Ainda que a instituição se esforce para descolonizar seus conteúdos, Sandra entende que descolonizar um museu talvez seja uma tarefa “impossível”.
“Eu a entendo mais como um estado de alerta, de estar sensível a práticas e lógicas que normalizamos como verdadeiras e naturais e que estruturam o mundo em hierarquias nas quais nossa sociedade, por ser o que é, domina e se beneficia das outras”, ressalta. “À medida que instituições e indivíduos se deem conta dessas tendências, podem se propor a modificá-las.”
Nascida em Lima, no Peru, na década de 1970, em meio a uma ditadura militar e a uma economia fechada, Sandra cresceu cercada por cópias de produtos importados — lógica também presente no universo das artes.
Sem acesso a obras originais de artistas centrais da tradição europeia, sua formação se deu, em grande parte, por meio de reproduções.
Quando se mudou para a Espanha, em 2002, passou a questionar como os museus europeus classificam suas coleções e o espaço concedido às produções latino-americanas. Ao mesmo tempo, voltou o olhar para a precariedade das instituições de arte contemporânea em seu país de origem, que não tinha, por exemplo, um Museu de Arte Contemporânea. Decidiu então criá-lo.
Assim nasceu o LiMac, uma instituição fictícia que tomou forma por meio de cópias realizadas pela própria artista e de um acervo organizado em um site.
Na mostra, o LiMac ganha paredes, uma porta com abertura por sensor e até uma pequena loja que replica o comércio dos camelôs, com mercadorias dispostas sobre lonas plásticas prontas para serem recolhidas rapidamente.
No interior do espaço, aparecem cópias de obras de artistas consagrados que não circulavam no Peru, além de uma pintura de grandes dimensões que retrata um ambiente corporativo repleto de fotocopiadoras, criada a partir de uma fotografia do artista alemão Thomas Demand.
“Hoje, essa pintura pode ser lida como uma espécie de chave para a prática da Sandra, como se ela fosse uma artista-fotocopiadora, alguém que se apropria, copia e fagocita essas imagens”, explica Giufrida. Não por acaso, a mostra se intitula Réplica.
O trabalho de Sandra impressiona pelo virtuosismo da pintura. Logo na entrada, uma vitrine com imagens de vasos dos Andes e da Amazônia — hoje em coleções na Espanha — pode enganar um olhar desatento. O que parecem ser objetos tridimensionais são, na verdade, tinta sobre placas de acrílico.
“Acho que o virtuosismo me dá tempo”, explica a artista. “A sedução pede, em troca, tempo — tempo para se aproximar, para ver. Em tempos em que tudo é feito correndo, a pintura (e não apenas a realista) ainda é um território que exige contenção.”
Tempo que a obra cobra do espectador. É preciso parar, ajustar o olhar, às vezes voltar. Além de desestabilizar aquilo que entendemos como verdadeiro — um Rothko de Sandra pode ser um Rothko? —, nem tudo está no centro. A artista chama a atenção para as bordas, os cantos e os avessos das imagens.
À medida que se avança pela exposição, o visitante passa a integrar a obra. Se, no início, surge apenas como um reflexo parcial, ao final aparece em pinturas em escala real de pessoas diante de obras de arte. Embora não se veja o que observam, é possível reconhecer-se ali, na mesma postura. São o que Sandra chama de “novos peregrinos”.
“As pessoas viajam o mundo para ir às aberturas de bienais e exposições, como em uma peregrinação religiosa”, observa o curador. “É uma nova forma de devoção às imagens.” Não tão diferente de outras pinturas que também exigiram fé em séculos passados.




