Os estabelecimentos de saúde brasileiros estão usando inteligência artificial para tarefas operacionais, como a organização de processos clínicos e administrativos. De acordo com a 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, em 2025, 18% deles já utilizavam a tecnologia, porcentual que chegou a 31% nos estabelecimentos com mais de 50 leitos e a 25% nos privados, contra 11% dos públicos. Entre os serviços de apoio diagnóstico e terapêutico (SADT), o montante é de 29%.
A adoção de IA está acima de tecnologias robóticas — 5% das entidades afirmaram utilizá-la — e internet das coisas (IoT) com 9% usando. Os dados foram divulgados, nesta terça-feira (12/5) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).
Entre os estabelecimentos que já utilizam inteligência artificial, os modelos com IA generativa são os mais adotados, presentes em 76% dos estabelecimentos. Na sequência aparece a mineração de texto (52%) e a automação de processos (48%). A principal aplicação da IA está relacionada à organização de processos clínicos e administrativos, seguida por melhoria na segurança digital (36%) e aumento da eficiência dos tratamentos (32%).
Para a edição de 2025 houve uma mudança metodológica, com a ampliação do escopo de investigação sobre big data e IA para todos os estabelecimentos com computador, e não apenas para aqueles com área de TI, como fôra realizado até 2024.
Em nota à imprensa, Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), explicou que, nos últimos anos, observaram uma rápida disseminação das tecnologias de IA e por isso tornou-se importante ampliar a investigação para compreender como essas tecnologias vêm sendo incorporadas pelo conjunto dos estabelecimentos de saúde.
No entanto, apesar do crescimento contínuo, a adoção de IA ainda enfrenta obstáculos significativos: nos hospitais com mais de 50 leitos, os principais desafios apontados pelos gestores são os custos elevados (63%), a falta de priorização institucional (56%) e as limitações relacionadas a dados e capacitação (51%). Já nos SADT, prevalecem fatores como falta de interesse (60%), ausência de prioridade (64%) e preocupações com privacidade de dados (50%).
Esses resultados indicam que a adoção da IA depende não apenas da infraestrutura tecnológica, mas também de capacidades institucionais, da governança de dados e reconhecimento estratégico dessa inovação. Luciana Portilho, coordenadora de projetos de pesquisas do Cetic.br, diz que o avanço do uso da inteligência artificial na saúde exige profissionais qualificados para que essa tecnologia seja aplicada de forma segura e responsável.
Além disso, Portilho aponta que a consolidação de diretrizes e marcos regulatórios é fundamental para sustentar a adoção ética da IA em um setor que lida com informações sensíveis e impacta diretamente no cuidado com os pacientes.
A pesquisa também revelou um uso ainda restrito de big data no setor. Somente 9% dos estabelecimentos realizaram análises com apoio dessa tecnologia em 2025, com maior incidência em estabelecimentos privados (11%) e em hospitais de maior porte (com mais de 50 leitos) (30%). As análises concentram-se, principalmente, em dados gerados pelas próprias instituições, como prontuários e registros administrativos.
Interoperabilidade como desafio
A troca de dados de saúde entre diferentes estabelecimentos ainda representa um desafio, segundo a pesquisa. Embora a digitalização avance no setor, com 92% dos estabelecimentos utilizando sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes, menos da metade (44%) dos estabelecimentos possuem sistemas que permitam o envio ou recebimento de encaminhamentos eletrônicos, sendo que há uma maior incidência no setor público (64%) do que no privado (28%).
Ainda, 41% dos estabelecimentos podem enviar ou receber relatório sobre assistência prestada ao paciente (55% dos públicos e 29% dos privados), e 37% podem enviar ou receber resultados de exames laboratoriais (47% dos públicos e 29% dos privados).
Nesse contexto, pela primeira vez a TIC Saúde investigou a integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) do Ministério da Saúde, considerada estratégica para a interoperabilidade e a continuidade do cuidado em saúde. Os dados indicam que 44% dos estabelecimentos estão conectados à rede, com maior presença nas UBS (72%) e no setor público (64%).
“A interoperabilidade entre os sistemas de saúde pode contribuir para ampliar a eficiência dos serviços e melhorar a experiência do paciente, ao facilitar o compartilhamento seguro de informações clínicas entre diferentes estabelecimentos”, explica Portilho.
A conectividade tem impulsionado significativamente a saúde. A expansão do acesso à Internet, a ampliação das conexões via cabo e fibra ótica, e o aumento das velocidades tem contribuído para o melhor funcionamento dos serviços de saúde, viabilizando o uso de sistemas eletrônicos, a comunicação entre profissionais e a oferta de novos serviços.
Em 2025, serviços online disponibilizados aos pacientes, como a visualização de resultados de exames, foram oferecidos por 39% dos estabelecimentos, o agendamento de consultas por 34% e o de exames por 32%. O maior avanço ocorreu na interação online com a equipe de saúde, que saltou de 16% em 2023 para 35% em 2025, evidenciando uma maior adoção de canais digitais de comunicação com pacientes.
A oferta desses serviços varia conforme o tipo de estabelecimento, com maior presença em SADT para visualização de resultados de exames (72%), e nas UBS para interação com equipes (42%).
Entre os serviços de telessaúde, em 2025, a teleconsultoria foi a modalidade mais difundida (36%), seguida por teleconsulta (28%), telediagnóstico (27%) e telemonitoramento (20%). Todos esses serviços apresentaram crescimento em relação aos anos anteriores, o que indica uma expansão gradual do atendimento remoto e uma maior integração entre profissionais de saúde.
Segurança da informação e proteção de dados
A segurança da informação e a proteção de dados mostram-se como áreas de atenção nos estabelecimentos de saúde, com 42% deles possuindo uma política formal de segurança, sendo que a adesão é maior no setor privado (54%) em comparação com o público (28%).
Quase metade dos estabelecimentos de saúde (47%) realizou treinamentos em segurança da informação para os funcionários. No entanto, a implementação de medidas mais robustas relacionadas à LGPD ainda é reduzida; enquanto campanhas de conscientização são a prática mais comum (46%), ações estruturadas, como a definição de um encarregado de dados ou planos de resposta a incidentes, são adotadas por apenas cerca de 30% dos estabelecimentos.




