O agronegócio brasileiro atravessa um momento de pressão crescente, resultado da combinação entre fatores externos, dificuldades internas e aumento do custo financeiro. O cenário já afeta diretamente o produtor rural e começa a se refletir nos resultados das instituições financeiras, como o Banco do Brasil.
Durante debate da Abramilho, a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina afirmou que o setor vive uma conjuntura complexa, marcada por crises internacionais e entraves domésticos. Segundo ela, a guerra na Ucrânia impactou o mercado global de fertilizantes, enquanto os conflitos no Oriente Médio ampliaram os problemas logísticos e encareceram o transporte. No Brasil, o principal desafio está no custo do crédito. “Pegar dinheiro a 18% ou 22% é uma insanidade”, afirmou.
A ex-ministra também defendeu mudanças no Plano Safra, argumentando que o modelo atual já não acompanha o tamanho da produção brasileira nem as necessidades do campo. Ela destacou ainda a importância do seguro rural diante do aumento dos riscos climáticos. “O seguro rural é fundamental para o produtor brasileiro”, declarou.
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A preocupação com juros elevados e endividamento também foi reconhecida pelo ministro da Agricultura, André de Paula. Segundo ele, o tema tem sido recorrente nas conversas com representantes do setor. “Queremos juros que possam caber no bolso do produtor rural e uma preocupação permanente com o endividamento do produtor”, disse. Apesar das dificuldades, afirmou que seguirá defendendo o agro.
Os efeitos desse cenário já aparecem nos números do sistema financeiro. O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 54% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado foi pressionado principalmente pelo aumento da inadimplência no crédito rural.
A carteira de crédito ao agronegócio do banco soma R$ 418,4 bilhões, mas o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu para 6,22%, avanço de 3,5 pontos percentuais em 12 meses. O aumento dos atrasos obrigou a instituição a elevar as provisões para perdas, que chegaram a R$ 16,8 bilhões.
O movimento reflete as dificuldades enfrentadas pelos produtores desde a quebra da safra de soja em 2024, após o recorde registrado no ano anterior. O cenário levou ao crescimento de recuperações judiciais no campo ao longo de 2024 e 2025 e agravou o nível de endividamento rural.
Diante desse quadro, o Banco do Brasil revisou para baixo sua projeção de lucro para 2026 e adotou medidas como renegociação de dívidas e reforço na cobrança. O programa de regularização já repactuou R$ 37,9 bilhões em operações, atendendo mais de 25 mil produtores.
Além das dificuldades no campo, o ambiente econômico também contribui para a pressão sobre o setor. A recente alta do dólar, que voltou a superar os R$ 5, e a queda da bolsa refletem um cenário de incertezas, com impacto direto nos custos de produção e no acesso ao crédito.
Com juros elevados, clima adverso, custos mais altos e maior risco financeiro, o produtor rural enfrenta um ciclo desafiador, que exige ajustes nas políticas de crédito e instrumentos de proteção para garantir a continuidade da produção.
Fonte: EBC




