Os desafios para a compra de insumos já são assunto dito e repetido em 2026. Agora, começa a aparecer também a perspectiva de uma ampla restrição na oferta de sementes de soja para a safra 2026/27.
“O setor de sementes tem uma restrição que não é equalizável, porque a área plantada não reduz no Brasil. Não tem como [o produtor] plantar menos semente porque tem menor produtividade e não tem como pagar as contas. Nossa demanda não muda”, disse o CFO da Boa Safra, Felipe Marques, a jornalistas nesta quarta-feira.
Ainda é difícil projetar como vai ficar o balanço de oferta e demanda com exatidão, mas a empresa, líder no mercado sementes de soja, já nota que algumas variedades estarão em falta no mercado para a próxima safra.
A restrição de oferta é uma consequência dos eventos climáticos do início deste ano. Houve excesso de chuvas na época da colheita da soja no Centro-Oeste, trazendo impactos para a qualidade do grão — e consequentemente, da semente.
Essa é uma das razões, inclusive, pelas quais Marques não acredita que o volume de sementes pirata tenha um aumento exponencial neste ano. O preço das sementes de soja, inclusive, tende a aumentar, dada a restrição de oferta.
“Todo mundo teria interesse em tentar reduzir custo, mas acredito que não foi possível fazer isso dado o evento climático adverso”, ressaltou.
A sementeira dos irmãos Colpo não passou ilesa por esse evento, mas conseguiu compensar uma menor produtividade com aumento de 50 mil hectares em área neste ano, chegando em 320 mil hectares plantados.
Da área colhida dentro do primeiro trimestre, Marques afirmou que “muitos campos foram descartados” por causa do excesso de chuvas. Ainda existe uma parte da colheita a ser medida dentro do segundo trimestre, que tem perspectivas mais otimistas.
Com um estoque alto de matéria-prima, a Boa Safra foi mais criteriosa no recebimento. Diferentemente do ano passado, a empresa já descartou de largada as sementes que não atendiam ao seu padrão de qualidade. Em 2025, a empresa chegou a internalizar uma quantidade muito grande de sementes, com algumas sendo descartadas posteriormente.
“Como tinha muito mais campo contratado, tivemos a opção de seguir esse caminho. Quando você entra com semente [fora do padrão] gera custos de frete, industrialização e depois acaba vendendo como grão”, explica Marques.
Essa estratégia é defendida como um ponto forte da companhia, num ano no qual a Boa Safra observa que a concorrência — ainda muito machucada financeiramente — não conseguiu fazer expansões de área na mesma proporção da sementeira dos Colpo.
E a demanda?
O argumento de que a companhia irá ao mercado em 2026 com uma oferta robusta em busca de uma demanda similar à do ano passado se mostrou também na carteira de pedidos fechados do primeiro trimestre.
A Boa Safra, usualmente, fatura a maior parte dos pedidos no terceiro e quarto trimestres, o que traz pouca visibilidade do resultado do ano a partir da receita dos dois primeiros trimestres. Contudo, é no período de janeiro a junho que a empresa tira a maior parte dos pedidos — o que traz alguma sensibilidade sobre o humor de mercado.
No período de janeiro a março, a sementeira chegou a R$ 1,5 bilhão em pedidos, refletindo um aumento de R$ 100 milhões em relação ao mesmo período de 2025.
“Estamos bem satisfeitos com esse número, apesar de toda a crise, as dificuldades que o setor tem enfrentado”, ressaltou Marino Colpo, CEO da Boa Safra.
Para fazer uma carteira de pedidos maior, mesmo com as restrições de crédito que dominam o setor e o aperto de margem do lado do produtor, Colpo ressalta um alto índice de recompra por parte das revendas com quem a Boa Safra se relaciona.
Nas estimativas da empresa, em um universo de 1.200 revendas no País, a Boa Safra já vende para mais de 900 — dificultando novas adições de volume a partir de novos clientes.
“Esse ano, vamos fazer algo muito próximo do ano passado, porque a capacidade de produção é a mesma. Entramos o ano sem essa pressão e necessidade de vender tão mais em relação ao ano anterior. Facilita você vender mais para o mesmo, no fim do dia”, explicou Colpo.
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No trimestre, a Boa Safra zerou a posição que tinha no SNAG11, fiagro da Suno inaugurado com títulos de dívida da empresa dos irmãos Colpo.
Segundo Marques, o movimento de redução da exposição já vinha acontecendo mês a mês e restavam cerca de 3% das cotas do fundo nas mãos da Boa Safra, vendidas no follow-on realizado recentemente.
A Boa Safra se desfez das cotas, entre outros motivos, porque ao longo do tempo o fundo foi crescendo e diversificando o risco ao alocar dinheiro em títulos de dívida de outras empresas.
“Não faz sentido, para a gente, ter exposição a ativos de outros investimentos do agro, que são uma decisão do gestor do fundo”, afirmou o CFO.




