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a visão de negócios da vinícola Rio Manso, de MG

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Bloomberg Línea — O primeiro vinho produzido pela vinícola Rio Manso ficou pronto no ano passado, mas a casa decidiu não colocar a bebida à venda.

A safra ficou parada no estoque por dois anos e não tem previsão de ir ao mercado depois que os quatro sócios e a equipe técnica avaliaram que o produto ainda não estava no patamar de qualidade que justificaria associá-lo à marca em construção em Jacutinga, no sul de Minas Gerais, na divisa com São Paulo.

A primeira garrafa de vinho da marca, da safra seguinte, só vai chegar ao mercado no lançamento oficial da vinícola, neste mês de maio, depois que a qualidade esperada foi alcançada.

“Do ponto de vista de business, é uma decisão difícil. Você está lá com o dinheiro parado no estoque, mas tomar a decisão de não vender foi correta, porque a gente está nesse negócio por longo prazo e só queremos entrar com um produto realmente muito bom”, disse Plínio Battesini Pereira, executivo da DHL e um dos quatro sócios do projeto (que inclui empresários de varejo e familiares dele), em entrevista à Bloomberg Línea.

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A Rio Manso compõe uma onda de vinícolas que se instalaram na Serra da Mantiqueira nos últimos anos, em uma região que hoje concentra mais de 70 projetos em raio de 30 km de Espírito Santo do Pinhal, cidade paulista perto da divisa com Minas Gerais.

Algumas estimativas do mercado indicam que o conjunto desses empreendimentos já soma mais de R$ 1 bilhão em investimentos, número que o empresário considera subestimado por capturar apenas o aporte inicial e ignorar o custo de manutenção até a primeira receita.

A tese de investir em vinho num país com Selic a 14,50% ao ano exige paciência incomum. Pereira decompõe o ciclo do negócio em fatias de tempo que somadas tornam o desafio concreto. São cerca de dois anos para preparar a terra e instalar irrigação, postes e arames; mais dois ou três anos para a primeira safra após o plantio; e ao menos um ano de vinificação até a garrafa estar pronta.

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“Estamos falando de seis anos de um negócio onde tem muito investimento e na prática nenhum retorno imediato”, disse o executivo.

O custo de implantação de um hectare de vinhedo está hoje em cerca de R$ 500 mil, segundo ele. A Rio Manso plantou 11 hectares em uma propriedade de 82 e tem capacidade média de produção de 65 mil garrafas por ano.

A matemática do varejo também não fecha. “Se você tentar vender vinho em rede de supermercado e esse fosse o seu único canal de vendas, a conta não fecharia”, afirmou Plínio. A rentabilidade depende da venda na propriedade, onde a carga tributária é menor e não há intermediários consumindo margem.

O business plan da Rio Manso se apoia em três fontes de receita que devem operar em conjunto. A primeira é o próprio vinho, com posicionamento premium ancorado em qualidade técnica. A segunda é a valorização imobiliária. Os sócios compraram a terra em 2019 e, segundo informações de uma corretora de imóveis rurais da região mencionadas pela CEO do projeto, Aline Mabel, o preço do hectare na área subiu cerca de dez vezes nesse intervalo.

A terceira perna é o turismo. A vinícola está construindo restaurante, salão de eventos e wine bar, com inauguração prevista para outubro deste ano. Um projeto de hotelaria deve começar a sair do papel ainda em 2026.

Mabel, doutora em viticultura pela UFRGS, projeta que a região vai consolidar-se como principal polo de enoturismo do Brasil em cinco anos.

Plínio relata uma conversa com um produtor do Rio Grande do Sul que ajuda a explicar a aposta paulista. O gaúcho lhe disse que a região nova nasce com um ativo que a Serra Gaúcha jamais terá, a distância curta até São Paulo. A propriedade fica a cerca de 250 km da capital paulista, o maior mercado consumidor de vinho da América Latina.

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Vinícolas argentinas como a Catena Zapata, em Mendoza, recebem entre 60% e 70% de visitantes brasileiros, segundo Pereira, e parcela expressiva é de paulistas. A tese da Rio Manso é capturar esse fluxo sem o custo do voo internacional.

Para atrair este público, a Rio Manso aposta na criação de uma identidade própria para a região que começou a fazer vinhos há menos de duas décadas.

‘Não queremos ser réplica da Toscana’: a visão de negócios da vinícola Rio Manso em MG

Os rótulos inaugurais da vinícola foram batizados com referências à fauna da Mata Atlântica preservada na propriedade. Visita do Lobo, Voo do Tucano, Olhar da Onça. Foi com este último, um corte das uvas syrah, cabernet franc e viognier, que a vinícola conquistou medalha de ouro no Vinalies Internationales 2026, antes mesmo do lançamento comercial.

“A gente tem uma identidade, a gente não precisa ser uma réplica da Toscana, até porque a gente seria uma péssima réplica”, afirmou Pereira.

O comentário responde a uma expressão que se tornou comum ao se referir à nova região produtora de vinho entre SP e MG, chamada por muitos de “Toscana brasileira”. “A Toscana está lá fazendo vinho há mais de mil anos. Não vamos seguir o mesmo modelo”, disse Pereira.

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Para os executivos, a região mostra sinais de inflexão. Pousadas que antes operavam só de sexta a domingo agora têm ocupação contínua. Vinícolas que abriam apenas no fim de semana passaram a receber visitantes a partir das quintas-feiras.

“A região está se transformando em um ritmo mais rápido, mais acelerado do que a gente imaginou”, disse Pereira.

O executivo reconhece que parte dos mais de 70 projetos na região não vai sobreviver ao ciclo longo. “Quem não se estruturou para aguentar esse longo prazo até começar a ter algum retorno, vai ficar pelo caminho”, afirmou. Mas relativiza o risco de bolha. Mendoza tem mais de mil vinícolas, disse, e a Mantiqueira ainda está longe disso.

Apesar de mencionar os custos de implantação da vinícola, Pereira evitou falar sobre o investimento total do grupo no projeto – estimado em R$ 20 milhões por pessoas do mercado ouvidas pela Bloomberg Línea. Segundo ele, falar dos números minimizaria o tamanho da aposta real no projeto para um prazo de décadas.

O break-even da Rio Manso pode chegar em 2027 ou 2028, disse. O retorno integral do investimento, entretanto, só em algum momento da próxima década.

“Se a gente conseguir realizar o projeto como pensamos, com foco na qualidade do vinho e da recepção de visitantes, o retorno é consequência”, disse Plínio sobre a entrega de bons vinhos e uma experiência de qualidade ao consumidor e para o visitante que for à região.

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