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No Pará, a cadeia da palma luta para escalar, mas já muda vidas no campo

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BELÉM, SANTO ANTÔNIO DO TAUÁ, MOJU E TAILÂNDIA (PA) — Francisco Jaime da Silva começou a plantar palma em 2012. No sítio em Tailândia, a 260 quilômetros de Belém, ele e a família trocaram um roçado de subsistência por dez hectares do dendê, como é chamada a palmeira no interior do Pará.

No caso de Silva, que virou fornecedor-referência da Belém Bioenergia Brasil, a BBB, uma das principais indústrias do setor, a lavoura, hoje em 32 hectares, permitiu pagar os estudos da filha “na capital” e vem sustentando as famílias dele, do filho e do genro.

Já na zona rural de Moju, a 130 km de Belém, uma casa ampla e de aparência destoante da remota vila que ocupa é a residência de Leonel Oliveira de Souza, o Léo.

Ele começou com a palma em 2002, e passou por perrengues até pegar o jeito, como diz. Em 2013, foi um dos primeiros membros de uma associação de produtores locais interessados em plantar palma sob orientação da Abrapalma, associação que representa os produtores de palma, criada um ano antes.

Pouco depois, fechou contrato de fornecimento com a Agropalma, outra importante indústria local, que passou a dar suporte técnico. “Na época, muitos vizinhos disseram que íamos virar escravos da empresa, que ela ia tirar tudo de nós.”

Não foi bem assim, diz Léo, que virou referência graças à alta produtividade — ele chegou a falar sobre a palma na COP30, em Belém. Seus dez hectares rendem R$ 10 mil por mês, e passam de R$ 50 mil nos anos bons. Os filhos querem seguir no dendê, como nos outros casos visitados, exceções à regra da difícil sucessão no campo.

A produtora de palma Benedita Nascimento, de Moju, interior do Pará
A produtora de palma Benedita Nascimento, de Moju, interior do Pará | Crédito: Leonardo Mendes da Silva / Abrapalma

Os casos de prosperidade ganham ares de fábula na história de Benedita Nascimento, também em Moju, que se autodenomina “a rainha do dendê”.

Ela também começou em 2002 com dez hectares, mas hoje tem 369 e mira chegar a 400. E ainda que precise acionar o Pronamp — programa de financiamento voltado para médios produtores e com juros mais altos do que os do Pronaf, para agricultura familiar —, ela não reclama: “Tenho R$ 7 milhões em dívida e não perco o sono, porque sei que consigo pagar”.

Crescimento recente

Os produtores são exemplos de uma retomada da palma no Pará, que responde por 95% da produção nacional de óleo de palma, de quase 700 mil toneladas por ano. O Brasil ainda importa cerca de 300 mil toneladas/ano, demandadas principalmente pelas indústrias alimentícia e de cosméticos.

O plantio no estado começou incipiente no final dos anos 1960. Nos anos 1980, uma onda puxada pela criação da Agropalma levou o total plantado a 60 mil hectares.

Nos anos 2010, um programa do governo federal visando a substituição de pastagens fomentou outra leva. Entre 2020 e 2025, veio uma terceira rodada, com novos produtores e expansões de antigos.

Hoje, a palma ocupa 283 mil hectares em 40 municípios no Pará, além de 10 mil hectares em outros estados, segundo a Abrapalma. Pequenos agricultores respondem por 22% da produção, contra 60% dos grandes e 8% dos médios.

Apesar do aumento expressivo, o total ainda é diminuto frente aos principais plantios nacionais; o café, por exemplo, tem mais de 2 milhões de hectares, segundo a Conab.

“É uma cultura relevante no estado, mas ainda pouco conhecida no Brasil”, explica Victor Almeida, presidente da Abrapalma e do conselho da BBB — indicado pela gestora Opportunity, que controla a empresa por meio de um fundo.

Dois fatores jogaram a favor dos que primeiro apostaram no dendê. Um foi o preço: o óleo custava US$ 650 a tonelada na Bolsa de Roterdã antes da pandemia. Em 2021, foi a US$ 1,7 mil, e, depois, estacionou em US$ 1 mil. Segundo Almeida, a atividade gera margem líquida de 30% a 40% aos produtores, e de cerca de 20% nas indústrias.

Também pesou a pauta da saudabilidade: a palma não gera ácidos graxos trans nem gorduras hidrogenadas, como outros óleos vegetais ou animais. E sua estabilidade térmica é ideal para processos na indústria alimentícia, como a pré-fritura de miojo.

A cadeia ainda ostenta um bônus de circularidade, com o reuso, na forma de energia ou nutrição, de quase 100% dos resíduos do esmagamento, como cascas do fruto.

O produtor de palma Francisco Jaime da Silva, de Tailândia, interior do ParáO produtor de palma Francisco Jaime da Silva, de Tailândia, interior do Pará
O produtor de palma Francisco Jaime da Silva, de Tailândia, interior do Pará | Crédito: Leonardo Mendes da Silva / Abrapalma

Gargalos empacam adesões

Em relatório recente, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos afirmou que embora produza 1% do total global, “o Brasil tem significativo potencial de longo prazo, com condições climáticas favoráveis, mão de obra treinada e pastagens degradadas”. São 21 milhões de hectares passíveis de conversão no Pará, segundo o MapBiomas.

Indonésia e Malásia respondem por 85% do óleo vegetal mais produzido no mundo, diz o USDA. No País, ele estima 350 mil hectares e 1,2 milhão de toneladas de óleo até 2030, mas diz que “o crescimento é limitado por custos e acesso a crédito”.

O ritmo poderia mesmo ser maior, diz Almeida. Mas, para isso, é preciso engajar mais produtores. No modelo atual, a BBF (Brasil Biofuels), em recuperação judicial, a Agropalma e a BBB, que juntas detêm 80% da atividade, unem plantio, esmagamento e refino e completam a produção com fornecedores à proporção de 66% própria e 34% de terceiros.

O desenho se repete em indústrias menores, como a ecoTauá, que usa óleo de palma para produzir massa de sabonete para clientes como a Natura — a empresa também planeja lançar uma linha própria.

“Boa parte do aumento recente nos pequenos produtores ainda não gerou colheitas; a tendência é inverter essa proporção nos próximos dez anos”, detalha Almeida.

Para isso, falta ajeitar fundamentos. Um deles é a questão fundiária. A Abrapalma tem atuado junto ao Instituto de Terras do Pará, que desde 2019 liberou 26 mil títulos abrangendo 2 milhões de hectares.

O custo é outro entrave. O plantio demanda R$ 25 mil por hectare — ante R$ 6,5 mil na soja. O limite de crédito no Pronaf, de R$ 250 mil, é visto pelo setor como insuficiente.

A palma é uma cultura perene, que não requer replantio a cada safra e rende por até 30 anos se bem manejada.

Por outro lado, passa a gerar frutos apenas em três anos, e gera rentabilidade só a partir do quinto. A colheita é quinzenal e manual, dificultada pelos mais de três metros que as árvores atingem. E o replantio pode ser necessário após o décimo ano para evitar um declínio na produtividade.

Daí a importância dos consórcios com outras culturas para atravessar os períodos de investimentos. As escolhas mais frequentes são açaí, cupuaçu, cacau, banana e mandioca.

Outro gargalo é que os frutos são perecíveis, devendo ser processados em 24 horas. Por isso, a cadeia exige verticalização e clusters com esmagadoras a distâncias viáveis — de até 120 quilômetros — das lavouras.

A cadeia local critica a competição com o óleo importado, pela fragilidade trabalhista na Ásia. Para contemplar o temor das indústrias alimentícia, química e de cosméticos de faltar matéria-prima, o governo libera 150 mil toneladas por ano em importações sem impostos. “Nossa isenção fiscal fomenta a cadeia na Malásia”, reclama Almeida.

O biodiesel por ora responde por 10% do óleo esmagado no Brasil. “Quando se coloca na conta o mapa das usinas e o preço do frete, ainda não dá para competir com a soja”, diz Almeida. Mas ele acredita que isso mudará nos próximos anos. “Para atingir as metas de biocombustíveis, inclusive SAF, o País vai precisar da palma.”

* O repórter viajou a convite da Abrapalma.



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