Bloomberg Línea — A Pague Menos (PGMN3) já recebeu ofertas para comprar as operações de farmácia que grandes redes de supermercado do país montaram dentro de suas lojas ao longo dos últimos anos e disse não a todas.
A recusa contraria a expectativa que cercou a sanção da Lei 15.357, em março, resultado de mais de uma década de pressão do setor supermercadista no Congresso.
Essas farmácias operam em desenho mais leve do que o exigido pela nova regulamentação, e o faturamento médio por loja é baixo demais para o investimento.
Nenhuma grande rede de drogaria assumiu esses ativos até o momento, nem para comprar, nem para operar em nome do supermercado, afirma o CFO da Pague Menos, Luiz Novais, à Bloomberg Línea. Os nomes das redes que fizeram propostas não foram revelados.
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O setor supermercadista esperava poder vender remédios na gôndola. O texto sancionado foi mais restritivo: exige ambiente fisicamente separado das demais áreas, caixa próprio e um farmacêutico responsável durante todo o horário de funcionamento.
O que a regra permite, na prática, é uma drogaria inteira dentro do supermercado, em formato mais caro e mais complexo do que o que algumas redes alimentares já operavam.
Para Novais, esse desenho não destrava o negócio. A dipirona não fica na gôndola, e o cliente precisa entrar em uma segunda loja dentro da primeira para comprá-la.
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Na avaliação do CFO, a experiência tem muito atrito e perde apelo para o consumidor. A leitura interna da Pague Menos é que a aprovação da lei foi até favorável, porque encerrou um debate de mais de uma década com termos restritivos suficientes para manter alta a barreira de entrada.
A mesma Lei 15.357 autorizou farmácias a contratar plataformas de comércio eletrônico para logística e entrega, e a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), que reúne as 29 maiores redes do setor, entregou em abril à Anvisa um dossiê com indícios de irregularidades em marketplaces.
Em nota, o CEO Sergio Mena Barreto diz que a lei autoriza apenas logística e entrega, nunca intermediação. A agência prepara uma proposta para substituir a RDC 44/2009, norma considerada defasada para a venda de remédios online.
Mercado de R$ 241,6 milhões
O mercado em disputa é volumoso. O varejo farmacêutico brasileiro movimentou R$ 241,6 bilhões em 2025, alta de 11,3% sobre o ano anterior, segundo a IQVIA, multinacional americana de dados e análises do setor de saúde.
A Close-Up International, consultoria que audita o varejo farmacêutico, projeta crescimento de 8,5% ao ano até 2027, puxado pelas canetas emagrecedoras da classe GLP-1 e pelo canal digital.
Para os supermercados que ainda decidirem entrar, o convênio com uma rede de drogaria licenciada é o caminho mais provável, na avaliação da Peers Consulting + Technology, feita à Bloomberg Línea.
O diretor executivo da consultoria, Admar Corrêa, define a escolha entre operar com estrutura própria ou via licenciamento como um dilema entre capturar margem e absorver complexidade regulatória.
“Redes de grande porte tendem a verticalizar para otimizar dados de CRM [histórico e perfil de compras do cliente], enquanto médios varejistas encontram no convênio a agilidade necessária para não perder a janela de oportunidade”.
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No formato próprio, a Peers estima que o supermercado captura margem bruta de 30% a 35% em Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), categoria que inclui analgésicos, antiácidos e antigripais.
O custo fixo é alto: um farmacêutico dedicado sai por algo entre R$ 12 mil e R$ 18 mil por mês com encargos, sem contar o investimento em climatização e segurança.
No convênio com uma rede já licenciada, o supermercado abre mão de margem em troca de risco menor. Para Corrêa, redes alimentares de grande porte devem operar elas mesmas, para ficar com os dados do cliente, enquanto as médias tendem ao convênio para não perder a janela.
Do lado dos meios de pagamento, a leitura sobre a entrada dos supermercados é mais otimista. Em nota à reportagem, Ariane Bete, diretora comercial da DM, gestora independente de cartões de loja (private label) do país, com mais de 18 milhões de cartões emitidos, vê dois ganhos para o varejista alimentar que decidir abrir uma farmácia.
“Ao integrar o setor farmacêutico à operação, o supermercado amplia o tempo de permanência do cliente na loja e aumenta as chances de compras adicionais”, diz.
O segundo ganho é financeiro: redes que já emitem cartões próprios podem oferecer ao consumidor a opção de parcelar o medicamento no mesmo crédito que usa para a feira, sem precisar de um novo meio de pagamento.
A leitura dos analistas de mercado sobre o setor segue positiva. Em relatório de maio, o JPMorgan apontou que as vendas do varejo farmacêutico ao consumidor cresceram 14% em abril ante o mesmo mês de 2025, com a taxa acumulada de 12 meses em 14,6%.
Para o banco, a Pague Menos, classificada como underweight (equivalente a venda) na carteira do JPMorgan, está bem posicionada para capturar a expansão das canetas emagrecedoras da classe GLP-1, exposição que também sustenta a tese para a RD Saúde (RADL3), recomendada como overweight (equivalente a compra).
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