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Apiwe Nxusani-Mawela, fundadora da Tolokazi Brewery, é a primeira mulher negra a comandar uma cervejaria na África do Sul, um país onde a produção de cerveja era historicamente dominada por mulheres.
A Tolokazi, criada em 2019, tem um quadro totalmente feminino e utiliza ingredientes locais, como sorgo maltado e lúpulos nativos, em suas receitas.
Apiwe, que se formou em microbiologia e genética, começou sua carreira na South African Breweries e se especializou em produção de cerveja em Londres.
Ela busca tornar a indústria mais inclusiva e treinar outras mulheres, promovendo uma nova geração de mestres cervejeiros.
Apiwe acredita que a África do Sul está passando por uma revolução industrial e que o continente deve se afirmar no comércio global, valorizando suas tradições e ingredientes únicos.
A Tolokazi visa criar uma identidade própria para as cervejas africanas, semelhante ao que já ocorre no Brasil.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Se alguém lhe disser que a indústria cervejeira, em seus primórdios, era dominada por mulheres, você acreditaria? Provavelmente, não. Se hoje a presença feminina só costuma ser lembrada pelas campanhas publicitárias, houve um tempo em que elas estavam no centro da produção da bebida.
Em diferentes sociedades da Antiguidade, fabricar cerveja era uma atividade associada ao universo feminino. Produzida a partir dos mesmos cereais e leveduras utilizados no preparo do pão, a bebida era vista como um alimento e, portanto, uma extensão natural das tarefas domésticas. Assim, as mulheres se tornaram as primeiras mestres cervejeiras da história — muito antes de a atividade se transformar, a partir da Idade Moderna, em um setor predominantemente masculino.
Nas últimas décadas, porém, esse cenário começou a mudar. Impulsionado pelo crescimento do mercado de cervejas artesanais, a retomada do protagonismo feminino tem ganhado força em diferentes partes do mundo.
Uma das vozes mais influentes desse movimento vem da África do Sul: Apiwe Nxusani-Mawela, 42 anos, fundadora em 2019 da Tolokazi Brewery. No décimo maior produtor de cerveja do mundo, ela faz história ao se tornar a primeira mulher negra a comandar uma cervejaria.
“O título de ‘primeira mulher negra a ter uma cervejaria’ não é algo que me dê orgulho”, diz ela, em conversa com o NeoFeed. “Não há nada de extraordinário nisso.” A distinção, porém, ganha peso em uma sociedade e um setor ainda fortemente marcados por uma profunda desigualdade de gênero.
Nascida em Butterworth, um vilarejo no leste do país, filha de pais professores, Apiwe cresceu vendo a família produzir cerveja em casa. Essa tradição, transmitida entre gerações, está na origem da empresa.
Todo o quadro da Tolokazi é feminino e suas receitas incorporam insumos locais como sorgo maltado e lúpulos nativos, como o African Queen, além de ingredientes como o arbusto rooibos, a fruta marula e a flor hibisco. A proposta aparece em quatro rótulos da marca, entre eles, a Sorghum Pilsner, inspirada na cerveja tradicional umqombothi — bebida ancestral feita de milho e sorgo.
O fim do apartheid e a descoberta da ciência
Apiew tinha dez anos quando o apartheid chegou ao fim, em 1994. Com isso, ela teve acesso a escolas melhores. “O nível de educação era totalmente diferente”, conta. No ensino médio, ela descobriu a paixão pela ciência. “Minha jornada para a produção de cerveja não começou exatamente pela cerveja”, lembra a empresária. “Foi mais pelo interesse científico e pela descoberta.”
Sua formação combina ciência e mercado. Graduada em microbiologia e genética pela Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, ela ampliou sua trajetória acadêmica com uma pós-graduação em administração de empresas e cursos voltados à liderança.
Depois de formada, trabalhou por cerca de seis anos na South African Breweries. Fundada em 1895, na capital sul-africana, a SAB hoje pertence à AB InBev e responde por quase 35% de toda a cerveja produzida no país.
“Foi lá que me apaixonei pela arte da produção cervejeira”, diz. Apiwe então decidiu estudar para fabricar a própria bebida.
Em Londres, ela se especializou no Institute of Brewing and Distilling. Voltou para casa com a certificação de mestre cervejeira, uma das credenciais mais influentes do setor, e se lançou no empreendedorismo. Assim nasceu a Tolokazi.
“Tentar entrar nesses espaços era muito difícil quando comecei. E, mesmo hoje, continuo a lutar para tornar a indústria mais inclusiva e aberta a qualquer pessoa”, diz a empresária.
Desde 2019, Apiwe nota uma mudança significativa no mercado, causada em parte pela abertura dos consumidores a novos sabores, além do aumento da tecnologia na produção — o que, segundo ela, facilita a inclusão.
“Antes, as pessoas eram muito rígidas: ‘Se eu bebo uma marca específica, é só aquela que eu bebo’. Agora, você vê muito mais gente disposta a experimentar coisas novas”, analisa. “E também, todo mundo está abraçando a tecnologia. Acho que as redes sociais são uma das maiores mudanças dos últimos anos.”
Em defesa da autonomia africana
Para ela, a África do Sul está vivendo uma grande revolução industrial, o que, em muitos sentidos, é positivo. Com a inteligência artificial e as novas técnicas, em questão de minutos é possível saber se o produto é seguro para consumo ou se está pronto para ser comercializado.
Isso permite que as empresas reajam mais rapidamente, melhorando a qualidade das bebidas, aumentando a confiança dos consumidores na qualidade e, consequentemente, nos produtores.
“Por isso faço treinamentos e tento abrir caminho para outras mulheres, para que elas aprendam também — inclusive com os meus próprios erros e com os erros das pessoas que vieram antes de nós”, afirma a empreendedora. “Para tornar a entrada no setor mais fácil para a próxima geração.”
Nesse cenário, Apiwe busca mais do que expandir a Tolokazi: ela quer consolidar uma nova geração de mulheres no universo da cerveja. Ao mesmo tempo, vê na marca uma forma de ampliar a narrativa africana, valorizando ingredientes, tradições e o que o continente pode oferecer ao mundo.
“Todos estão olhando para a África como um novo polo de crescimento. “Como nós podemos participar do comércio global?”, provoca Apiwe. “Não podemos esperar que a Europa ou os Estados Unidos liderem tudo.”
Durante três anos, as cervejas da Tolokazi foram comercializadas no Reino Unido, sobretudo a imigrantes. “Vendíamos como uma espécie de ‘saudade de casa’”, lembra. Atualmente, por causa de um processo de reestruturação das exportações, a empresa está apenas na África do Sul.
Apiwe esteve em São Paulo para participar da feira internacional de tecnologia cervejeira, a Brasil Brau 2026, realizada entre 9 e 11 de junho. Ela vê no Brasil um exemplo de como a cerveja pode ganhar identidade própria — com a Catharina Sour como símbolo dessa inovação:
“Quando alguém vier para a África, deveria encontrar algo único nas nossas bebidas, algo que expresse quem somos e de onde viemos, assim como vejo acontecer no Brasil. É isso que a Tolokazi busca construir”.




