Operadora brasileira de turismo, a CVC entregou o seu pior pacote como companhia de capital aberto na quinta-feira, 11 de junho, quando suas ações encerraram o pregão cotadas a R$ 1,32, o que representou uma queda de 7,04% e a menor cotação desde que o grupo abriu capital, em dezembro de 2013.
Um dia depois, os papéis reagiram, fechando o dia em R$ 1,39, com alta de 5,30%, avaliando a companhia em R$ 723,9 milhões. Ainda assim, segundo a Elos Ayta, próximos da mínima histórica anterior, de R$ 1,38, de 30 de dezembro de 2024, quando o valor do grupo era de R$ 725,3 milhões.
Em outros indicadores que só reforçam o momento nada favorável da CVC no mercado de capitais, as ações da empresa acumulam uma queda de 35,6% em 2026. E, em 12 meses, o recuo é mais expressivo, de 44,8%.
“Essa queda está ligada majoritariamente a questões macro”, diz Fabio Mader, CEO da CVC, ao NeoFeed, quando questionado a respeito das razões por trás da marca negativa registrada pela companhia na B3. “Quando começamos o ano, tínhamos outro cenário. E, de repente, entra um fator externo chamado guerra, que mudou completamente o contexto, em questões como a taxa Selic, o que, evidentemente, colocou pressão sobre o nosso resultado.”
Mader reforçou o discurso adotado desde a divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2026, há cerca de um mês, ao atribuir boa parte das turbulências refletidas nos resultados aos impactos do conflito no Oriente Médio, entre outros ingredientes.
A crise enfrentada pela CVC, no entanto, vai muito além dos fatores externos citados pela própria companhia. Embora a guerra no Oriente Médio e a alta da Selic tenham pressionado os resultados, gestores e especialistas ouvidos pelo NeoFeed apontam problemas estruturais mais graves.
O quadro inclui a instabilidade na gestão, com quatro CEOs em sete anos; o modelo “figital”, que deveria integrar canais digitais e físicos, e acabou aumentando custos sem ganhos de eficiência; e a concorrência de agências 100% digitais, como Decolar e Booking, que reduziu o espaço da empresa no mercado.
Somam-se a isso a deterioração financeira, marcada por prejuízos recorrentes, endividamento crescente e forte queima de caixa, fatores que minaram a confiança dos investidores e explicam a queda histórica das ações.
“O mercado de turismo está bombando. Eles falaram que as vendas foram afetadas pela geopolítica, mas ninguém engoliu, uma vez que os competidores cresceram muito no mesmo período. E, na CVC, as vendas relacionadas ao Oriente Médio não passam de 1% do total”, diz um gestor ouvido pelo NeoFeed.
Mader, rebate argumentando que a CVC não tem nenhum “peer perfeito” de comparação na B3. E diz que mesmo as ações da companhia aérea Latam, que poderia ser um proxy mais próximo, estão caindo nos últimos meses. Ele prefere usar como referência as empresas de varejo, onde o grupo também se encaixa.
“No varejo, mesmo as queridinhas da bolsa estão caindo”, afirma Mader. “Se você exclui um núcleo duro da B3, que são cinco, dez empresas, companhias de commodity e as blue chips brasileiras, o resto realmente está num período muito difícil.”
O mesmo gestor, no entanto, acrescenta que “a CVC queima caixa sem parar e, no ritmo atual, em mais quatro meses, vão ter que capitalizar”. “No final, é uma combinação de dívida crescendo, Ebitda caindo, prejuízo e despesas aumentando, enorme queima de caixa e perda de market share e de take rate”, afirma essa fonte.
No primeiro trimestre, a CVC apurou um prejuízo líquido de R$ 72,3 milhões, contra uma perda de R$ 7,4 milhões, um ano antes. A receita líquida cresceu 0,5%, para R$ 377,8 milhões, e o Ebitda ajustado recuou 10,5%, para R$ 93,7 milhões.
Outros indicadores desagradaram o mercado – a divulgação do balanço foi seguida de uma queda de 11,27% na ação. Entre eles, o aumento das despesas operacionais e financeiras, além do avanço do consumo de caixa operacional, que saiu de R$ 53,2 milhões, há um ano, para R$ 121,6 milhões.
Como reflexo, a dívida líquida foi de R$ 241,8 milhões, um acréscimo de R$ 140 milhões frente ao fim de 2025. Enquanto a dívida líquida com recebíveis ficou em R$ 1,52 bilhão, contra R$ 1,26 bilhão na mesma base de comparação. .
CFO da CVC, Felipe Gomes, por sua vez, frisa que, tradicionalmente, o primeiro trimestre já é um mês de maior consumo de caixa no setor, já que as empresas vendem menos e embarcam muitos passageiros. E bate na tecla de que o aumento no preço das passagens, na esteira do conflito, só agravou esse cenário.
Além de destacar que a CVC já começa a ver uma recomposição do caixa com o recebimento das parcelas das férias do início do ano, o CFO pontua que as companhias aéreas da Ásia e do Oriente Médio estão retomando suas capacidades. E descarta, a princípio, a necessidade de uma capitalização.
“Hoje, quando olhamos o que temos a pagar e o que temos em caixa, não temos a necessidade de um follow on”, diz Gomes. “Essa opção poderia ser boa para reestruturar o balanço, mas, com o preço da ação hoje, estamos muito mais focados em reperfilar a dívida que temos dentro de casa.”
Além das negociações para alongar a dívida da operação, a dupla da CVC cita outras medidas adotadas para equacionar a operação. Entre elas, os cortes, feitos há duas semanas, que reduziram os quadros da empresa em 14%, prioritariamente, nos níveis de vice-presidentes, diretores e gerentes gerais.
“Esse era um mandato que eu tinha do board desde o início do ano, quando assumi”, afirma Mader. “E aproveitamos esse momento para fazer essa reestruturação, tornando a empresa mais eficiente, leve e menos burocrática, além de renegociar contratos e trabalhar o capital de giro.”
Danças nas cadeiras
A própria nomeação de Mader como CEO, em janeiro deste ano, sinaliza porém, que os problemas da CVC não estão restritos a fatores externos. Nem a impactos de curto prazo. Em uma troca que não era esperada pelo mercado, ele substituiu Fabio Godinho, que liderava a empresa desde junho de 2023.
Mais do que a surpresa gerada pelo anúncio, a troca no comando só reforçou uma dinâmica que em nada contribui para alimentar a confiança do mercado na operação. Mader é o quarto CEO da CVC em uma janela de sete anos. E, nesse intervalo, não foram poucas as reviravoltas nas orientações do grupo.
“Houve trocas muito frequentes no comando e a empresa foi alternando entre diversas novas estratégias e discursos”, diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital. “E o fato é que, passados esses últimos 4, 5 anos, o resultado não melhora e não muda em nada. E a rentabilidade ainda é muito aquém.”
Entre tantas mudanças, uma das mais relevantes veio com a volta de Guilherme Paulus, o fundador da CVC, como acionista de referência, em 2023. Ele havia deixado a gestão da companhia e vendido sua participação na operação cinco anos antes.
O retorno do empresário, na esteira de um aumento de capital de R$ 226,2 milhões, foi acompanhado da nomeação de Fabio Godinho como CEO. E de um amplo plano de reestruturação, baseado em um discurso de “volta às origens”.
Como parte dessa retomada, a CVC se desfez ou encerrou as operações de uma série de ativos que havia adquirido para atuar também no modelo conhecido no setor como OTA (online travel agency). Entre elas, as marcas Submarino Viagens e Almundo.
O grupo passou a apostar em uma estratégia batizada de figital – a mescla do offline com o digital – com foco em gerar e capturar leads em canais digitais, redirecionados, por sua vez, às franquias da rede, que voltou a investir agressivamente em expansão – foram cerca de 480 lojas abertas nos últimos três anos.
Entretanto, a execução dessa estratégia também é alvo de críticas. “A empresa criou um discurso de que tinha agora um modelo figital, com 50% das vendas das lojas feitas a distância”, diz um outro gestor ouvido pelo NeoFeed.
“Mas, agora, o mercado percebeu que, ou isso não é verdade, ou, se é verdade, só serviu para aumentar a ineficiência, uma vez que eles vendem a distância, mas seguem remunerando o franqueado”, complementa.
De acordo com esse gestor, a CVC jogou fora iniciativas de vendas remotas antes mesmo de lançá-las. Entre elas, um aplicativo que permitia realizar vendas não atreladas aos franqueados da rede. E saiu abrindo lojas e reforçando seu modelo antigo, o que trouxe uma fatura que está sendo cobrada agora.
“Na verdade, no mundo todo, quem está muito bem no turismo são as companhias que foram fundadas como empresas de tecnologia”, diz essa fonte, traçando um paralelo com o setor de varejo e citando nomes como Amazon e Mercado Livre.
“No turismo, no Brasil, temos dois grandes exemplos: Decolar e Booking”, observa o gestor. “São estrangeiras, 100% digitais e dominaram completamente o mercado aqui.”
Nesse cenário, há pouco mais de um mês, o jornalista Lauro Jardim publicou em seu blog em O Globo que a Prosus, controladora da Decolar, estava avaliando uma oferta pública de aquisição (OPA) da CVC, que, na época, negou ter recebido qualquer proposta. O que é reforçado agora por Mader.
“Nós tivemos uma conversa com eles, em setembro do ano passado. Construtiva. Mas foi só uma conversa”, afirma. “De lá para cá, não veio nenhuma proposta na mesa.”
Enquanto isso, Mader defende que a estratégia de expansão das lojas físicas foi um passo correto. E ressalta que, esse avanço foi feito em lojas menores e em cidades do interior do Brasil, nas quais a CVC não tinha presença. E que agora servem como hubs para o atendimento no modelo figital em suas regiões.
“Abrir loja era importante, porque esse aqui é um jogo de escala. No turismo, tamanho é importante”, diz. “Com essa expansão, a CVC voltou a ser do tamanho que era em 2019, o que nos dá uma vantagem para competir com empresas como Trip.com e Expedia”, complementa, citando algumas OTAs.
Mader observa que a operadora segue investindo para aprimorar sua tese de figital. Entre esses passos, está o lançamento, em outubro, de um novo site e aplicativo. Além de iniciativas recentes, como a entrada, há 30 dias, em plataformas de agregadores como Skyscanner, Google Flights e Kayak.
Para Utsch, da Nero Capital, a estreia nessas plataformas e o investimento em novas estratégias para competir com as agências de viagens online sinaliza, mais uma vez, uma mudança no discurso que agrava a percepção de riscos do mercado sobre o grupo.
“Eles sempre falaram muito que as OTAs não iam dominar todo o mercado e que a CVC tinha o seu lugar. E, nesse momento, soa um pouco estranho começar a fazer isso”, diz Utsch. “Enfim, é todo um contexto que culmina com essa queda da ação depois de muitos anos entregando resultados muito ruins.”




