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Por que o boom do etanol de milho está só começando

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Todos os caminhos levam ao etanol — pelo menos quando o assunto é descarbonização nos transportes. E, a depender da demanda, o boom do etanol de milho está só começando. A visão foi compartilhada pelos líderes de FS, 3tentos e Vibra durante o AGRO 360º, evento realizado na semana passada por uma parceria entre The AgriBiz e Brazil Journal.

Especialmente no atual contexto geopolítico, em que a garantia de oferta e os preços dos combustíveis fósseis têm sido colocados à prova, três características do etanol ganham evidência: custo competitivo, diversificação de suprimento e sustentabilidade, disse Rafael Abud, CEO da FS. “É uma molécula que tem capacidade, mais do que comprovada, de ser misturada para diversos usos”.

Além do consumo no transporte terrestre, que é mais consolidado, o etanol tende a ser demandado nos próximos anos para mobilidade marítima, combustível de aviação, fins industriais e para a geração de energia termoelétrica. “Se todos esses mercados acontecerem, ou uma fração deles, isso vai permitir um ciclo longo de investimentos em capacidade produtiva”, afirmou Abud durante o evento.

“Assim como todos os setores, o etanol de milho nem sempre vai andar a 100 [km] por hora — às vezes vai andar a 80 ou a 70. Mas de forma alguma vai parar ou desacelerar”, disse João Marcelo Dumoncel, CEO da 3tentos, ao ser questionado sobre a queda nas margens do setor, que nesta safra convive com um excesso de oferta do biocombustível.

“Hoje, para sustentar margens adequadas no setor, você precisa de escala, acesso à logística, capacidade de originação e capacidade de comercialização adequada dos coprodutos, que são os DDGs e o óleo de milho”, disse Abud.

O desafio do hidratado

Para atravessar esse momento desafiador no curto prazo, os executivos apontaram o aumento do consumo do hidratado como saída, especialmente nas regiões onde ele ainda é incipiente, como o nordeste e o norte do País.

Para que isso ocorra, alguns problemas precisam ser endereçados, como a questão tributária e uma barreira cultural que ainda impede uma expansão mais pronunciada do consumo de etanol, afirmaram os executivos de FS e 3tentos.

O desafio, no entanto, não é só dos produtores, mas também dos distribuidores de combustíveis. A Vibra, que tem um grande legado na rede de distribuição no norte e no nordeste, tem buscado tornar os custos mais competitivos com operações de cabotagem, contou Tomás Cardoso, diretor de supply chain e trading da companhia.

“Dessa forma, você consegue encaixar os fluxos de etanol junto com os fluxos de derivados”, explicou. A ideia é combinar o fluxo de derivados de petróleo do Nordeste para a metade sul do País, pela costa brasileira, com a subida de biocombustíveis pelo Porto de Santos, que recebe o etanol ou o biodiesel por meio de dutos e ferrovias.

Seguindo a mesma lógica, a companhia vem acessando o Arco Norte, utilizado tanto para levar os derivados do Nordeste para o Norte do País como para trazer o etanol de regiões em expansão na produção, como o Mato Grosso, para as áreas mais ao norte do País.

“É nesse jogo logístico que a gente facilita e reduz os custos de distribuição de combustíveis pelo País”, disse Cardoso. “E os biocombustíveis têm um diferencial fantástico, pois eles encaixam na nossa infraestrutura hoje de transporte de líquidos. São os mesmos modais, as mesmas formas de transmissão, os tanques, que acabam encaixando nesse sistema e combinam os fluxos de derivados junto com os biocombustíveis”, acrescentou.

Os mercados do futuro

Uma das apostas mais promissoras para o aumento na demanda por etanol é o SAF, o combustível sustentável de aviação, em razão das metas de descarbonização impostas às companhias aéreas. Pela perspectiva de aumento na oferta de etanol de milho, que é produzido com o cereal de segunda safra e, portanto, tem uma pegada menor de carbono, o Brasil é um forte candidato a ter papel de destaque nesse mercado.

Principal acionista da FS, o grupo americano Summit Agricultural Group anunciou recentemente que vai investir US$ 2 bilhões para construir uma planta de SAF em Paulínia (SP) — a primeira em grande escala no mundo.

“A visão para isso é que em 2030, ou um pouco depois de 2030, a demanda regulatória para o SAF, da forma que está posta hoje, vai ser muito superior à oferta que está sendo desenvolvida nesse momento”, afirmou Abud. Hoje, toda a produção de SAF é feita a partir de óleos vegetais, que tem uma oferta relativamente limitada.

“O etanol entra como alternativa complementar para dar escala a esse mercado. E o Brasil é o lugar mais competitivo que tem para produzir”, explicou. Como a produção do SAF é mais cara que o combustível fóssil, a escala dos projetos, a sua proximidade à matéria-prima e custos de energia mais baixos são imperativos para tornar o SAF mais competitivo com o equivalente fóssil. “Por isso, a lógica de trazer o projeto para o Brasil.”

O papel da FS nesse projeto, no entanto, será apenas de fornecedora de etanol de baixo carbono à sua empresa-irmã. Mas a JetBio, como foi batizada a produtora de SAF da Summit, também vai originar etanol de cana, etanol de segunda geração (E2G), etanol de trigo, além do biocombustível feito a partir do milho. “Tem alguns projetos de SAF que estão no forno que devem entrar em operação até 2030 e usar o etanol como matéria-prima”, disse Abud.

Os executivos ressaltaram, no entanto, que existem incertezas em relação à regulamentação, ainda em desenvolvimento em todo o mundo.

No Brasil, a Lei Combustível do Futuro prevê o início do mandato de descarbonização do setor de aviação civil em 2027, com meta de redução em 1%. Para tornar isso possível, a Vibra vem trabalhando desde 2024, tornando-se a primeira distribuidora certificada pelo ISCC CORSIA — estrutura de certificação para SAF reconhecida pela Organização de Aviação Civil Internacional.

Em 2025, a Vibra trouxe o primeiro lote de querosene de aviação sustentável para o Brasil e, desde o final do ano, vem abastecendo dois voos por dia na Bahia com combustível de aviação sustentável misturado a 10% no querosene fóssil.

“Todo esse esforço vem por trás de entender a logística deste combustível, o cuidado com segurança desses combustíveis, como é que funciona o processo de mistura e como é que a gente faz ele chegar no consumidor final”, disse Cardoso. “Agora, a expectativa é entender como é que vai ser essa regulamentação do mandato a partir de 2027.”



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