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A muralha tecnológica: como a China desafia os EUA e redefine a corrida da IA

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Pequim e Xangai – Logo ao desembarcar na China, o marinheiro de primeira viagem tem um cartão de visitas do que irá encontrar no país. No balcão de imigração, após a entrega do passaporte a um oficial, vozes digitalizadas assumem o comando e conduzem o diálogo no idioma de cada turista.

Mais do que um simples recurso, o exemplo acima ilustra como o país vem se estabelecendo como o principal contraponto às cifras bilionárias investidas pelo mundo ocidental, em particular, os Estados Unidos, em projetos muitas vezes mirabolantes, futurísticos e ainda pouco práticos.

Do índice de mais de 90% de transações feitas por QR Code, via smartphones, à enorme frota de carros elétricos em metrópoles como Pequim e Xangai, a China vem ganhando tração na aplicação de tecnologias como inteligência artificial (IA) no mundo real. E na trilha de volumes substanciais de dados digitais.

“Ao contrário dos EUA, onde a maioria dos líderes é advogado, na China, boa parte é engenheiro”, diz Samuel Liao, diretor da Yingke Law Brasil e diretor regional da empresa chinesa, uma das maiores firmas de advocacia no mundo, na América Latina. “Eles são bem mais focados no que é preciso fazer.”

A convite do Instituto Caldeira e da Invest RS, o NeoFeed visitou hubs de inovação e empresas em Pequim e Xangai durante o mês de maio. E, na passagem de uma semana, teve uma pequena amostra de como o país está desenvolvendo, na prática, essa visão.

Um dos pontos que saltaram aos olhos foi a onipresença de câmeras nas avenidas e prédios das duas cidades. Esses equipamentos embarcam recursos mais triviais, como controle de acesso, até a análise comportamental e a identificação, em milissegundos, de rostos numa multidão.

Um dos nomes por trás desses dispositivos é a Megvii, startup chinesa de visão computacional e reconhecimento facial que atraiu investidores como o Bank of China Group Investment e o Alibaba e foi avaliada em US$ 4 bilhões, tornando-se um dos primeiros unicórnios do país.

Fundada em 2011, por três estudantes da Tsinghua University, a empresa ganhou corpo justamente com a aplicação da IA, em larga escala, no mundo físico, em locais como metrôs, aeroportos, varejos e indústrias. E em áreas como segurança, mobilidade, varejo, logística e cidades inteligentes.

Seus sistemas ajudam a gerenciar, por exemplo, o tráfego e os semáforos, além de detectar acidentes, acúmulos de lixo e fiações com problemas. Em outra frente, a empresa também está por trás de pagamentos com reconhecimento facial e por robôs que automatizam os processos em centros de distribuição.

Da robótica à IA corporativa

Os robôs também foram uma das atrações na visita ao TusPark, ecossistema de inovação da Tsinghua University que foi o berço da Megvii. Nesse caso, porém, o que deu o tom da rápida apresentação foram as danças e golpes de artes marciais de dois modelos numa das diversas salas do hub.

Malabarismos à parte, a robótica é uma das prioridades estratégicas da China, expressa, inclusive, no último Plano Quinquenal divulgado há cerca de dois meses pelo governo local. E em números como o universo de mais de 300 empresas dedicadas a essa vertente no país.

Em março deste ano, em outro movimento que reforça o foco nessa área, a China inaugurou na província de Guangdong a primeira fábrica do mundo na qual uma linha automatizada por robôs é responsável justamente pela produção de robôs humanoides – uma unidade a cada trinta minutos.

A rapidez e a robótica também se destacaram na visita à fábrica de carros elétricos da Xiaomi em Pequim. Na instalação, dominada por cerca de 700 robôs alimentados por IA e com uma taxa de automação de 91%, a empresa produz um veículo a cada 76 segundos.

A “dança” dos robôs no TusPark

Alguns números também chamam a atenção no TusPark, o hub de inovação que conecta a academia com startups, grandes empresas, investidores e o governo, uma engrenagem amplamente adotada no país e que também ajuda a entender como a China avançou rapidamente nos últimos anos nessa arena.

Criado em 1994 com a ideia de levar a tecnologia desenvolvida pela academia ao mercado, esse ecossistema está conectado a uma rede de mais de 300 parques e incubadoras em 80 cidades, de 50 países. E já deu origem a mais de 40 unicórnios e mais de 100 IPOs.

Fundada em 2014, a 4Paradigm foi uma das empresas que saíram do TusPark para tocar a campainha em uma abertura de capital. Nesse caso, em 2023, na Bolsa de Hong Kong, onde a companhia está avaliada atualmente em 14,8 bilhões de dólares de Hong Kong (US$ 1,8 bilhão).

Com uma receita de cerca de US$ 1 bilhão em 2025, a empresa é um dos principais nomes de IA corporativa da China e atende mais de 160 companhias. Entre elas, os cinco bancos estatais locais, além de grupos como BYD, Lenovo, DHL, Pizza Hut, KFC, TCL e Zegna.

A empresa atua em mais de dez indústrias, incluindo finanças. E, com aplicações customizadas desenvolvidas com base nos dados dos próprios clientes, já bastante digitalizados, está bem avançada nessa oferta corporativa, algo que ainda está sendo tateado por rivais americanas como Anthropic e OpenAI.

Entretanto, ao menos no discurso, a tese da 4Paradigm não é competir com essas empresas. E sim, ser uma oferta complementar a esses pares, justamente no plano das aplicações e agentes de IA empresariais, algo que, na visão da companhia, um modelo genérico de IA não é capaz de atender.

Como parte do conceito do “bolo de cinco camadas de IA”, formulado por Jensen Huang, cofundador e CEO da Nvidia, a 4Paradigm defende que as empresas chinesas têm mais vocação para atender as fatias de energia e de aplicações. E, as americanas, as de chips, infraestrutura e de modelos de IA.

O fato é que, discursos e teorias à parte, esses argumentos, até aqui, não convenceram os concorrentes americanos. E, como resultado, a 4Paradigm foi incluída, em 2023, na lista negra comercial dos Estados Unidos. Como alternativa, a startup tem expandido para o sudeste asiático e o Oriente Médio.

O Tigre da IA

Nesse contexto, quem adota um tom menos conciliador na competição com as empresas americanas é a MiniMax, startup que integra o chamado grupo dos “Quatro Tigres da IA” chineses, especializados nos chamados Large Language Models (LLM), os motores por trás da inteligência artificial.

A MiniMax desenvolve modelos capazes de criar conteúdos em formatos como texto, imagens, áudio, vídeo e música. E investe num discurso de que seu portfólio é muito mais barato que o de rivais como a OpenAI, sem perder, porém, a qualidade na comparação com esses e outros concorrentes.

Essa tese teve eco entre investidores. Entre eles, o Alibaba e a Tencent. E também no mercado de capitais. A empresa fez seu IPO em janeiro desse ano, na Bolsa de Hong Kong, quando captou US$ 690 milhões e viu suas ações subirem 55% no primeiro pregão.

Fundada em 2021 e avaliada atualmente em 145,6 bilhões de dólares de Hong Kong (US$ 18,5 bilhões), a companhia, diferentemente de boa parte das suas conterrâneas, já nasceu com aspirações globais. E, hoje, tem uma base de mais de 200 milhões de usuários ativos em mais de 200 países.

A MiniMax tem um paralelo, porém, com outras empresas chinesas. A startup também vem enfrentando problemas além da Grande Muralha. Em um desses imbróglios, a empresa foi processada por estúdios como Disney, Universal e Warner Bros., em um tribunal da Califórnia.

A alegação é de que a empresa teria usado indevidamente os filmes e séries desses estúdios para treinar a Hailuo AI, sua plataforma de criação de vídeos via IA. O que teria envolvido, inclusive, a clonagem e a cópia de personagens famosos de franquias dessas empresas.

No capítulo mais recente dessa saga, um juiz distrital dos Estados Unidos rejeitou os argumentos da MiniMax e deu seguimento ao processo, o que abre portas para possíveis e pesadas sanções para a companhia chinesa.

À parte desse imbróglio, Samuel Liao, o advogado brasileiro, de ascendência taiwanesa, radicado há anos na China, ressalta que é preciso mudar a percepção que o mundo ocidental, em sua maioria, ainda cultiva sobre o país.

“Lá atrás, a China abriu o mercado e deixou investidores externos entrarem, mas fazendo parcerias, sempre com uma empresa local”, diz. “O fato é que eles aprenderam a tecnologia e absorveram esse know-how. E a China não é mais o país que copia. Agora, ela exporta tudo.”

Em números

Alguns dados ajudam a traduzir esse roteiro da China em números. Em 2025, o país registrou um superávit comercial recorde de US$ 1,18 trilhão, alta de 20% sobre 2024. As exportações somaram US$ 3,77 trilhões, uma expansão anual de 5,5%.

Esse último índice foi reportado num contexto no qual a guerra comercial com os Estados Unidos se intensificou e, como alternativa, a China buscou uma maior diversificação de destinos, com maior foco na África e o sudeste asiático.

Como parte dessa cifra, as exportações de bens de alta tecnologia, que incluem robôs e equipamentos de ponta, cresceram 13%. Já as de veículos elétricos, baterias de lítio e produtos fotovoltaicos avançaram 27%.

Outros indicadores, compilados pelo Banco Mundial, também mostram como o país evoluiu nessa arena. Levando-se em conta a exportação de alta tecnologia, a China saltou de um volume de US$ 594,7 bilhões, em 2016, para US$ 825 bilhões, em 2023.

Já o novo plano quinquenal, com os fios condutores do país para o período de 2026 a 2030, reforça a percepção do governo chinês de que a tecnologia será um pilar central no mapa geopolítico e nas disputas com os EUA. Em particular, em áreas como IA, robótica, biotecnologia e infraestrutura digital.

Em um indicativo de como essa orientação irá se refletir em investimentos, a agência Bloomberg informou nesta semana que a China está preparando um plano de 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) para construir data centers de IA em todo o país nos próximos cinco anos.

Como base de comparação, o grupo de big techs americanas formado por Alphabet, Meta, Microsoft e Amazon planeja gastar até US$ 725 bilhões apenas em 2026 com infraestrutura de centros de dados para IA.



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