O início do El Niño, oficializado no dia 11 de junho, já espalhou chuvas muito acima do normal para esta época do ano pelo Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais no último final de semana.
O acumulado foi digno de verão, ao passar dos 100mm em vários municípios, com pico de 175mm em Campina Verde, no Triângulo Mineiro. Em Mato Grosso do Sul, a chuva forte alcançou parte do nordeste do estado, uma das áreas mais promissoras em produtividade. Por enquanto, é possível afirmar é que a chuva paralisou a colheita e aumentou a umidade dos grãos. Além disso, o vento forte pode ter provocado acamamento em algumas lavouras.
Em São Paulo, a colheita da cana-de-açúcar foi paralisada e com redução da ATR (açúcar total recuperável). No café, a colheita foi interrompida na Mogiana, e a atenção do produtor precisou ser redobrada por conta dos grãos que foram derrubados e que poderiam fermentar. Na laranja, o risco de doenças fúngicas aumentou.
Em Minas Gerais, antes da chuva, a Emater/MG confirmou que pouco mais de 10 mil hectares de café foram afetados pelo granizo em maio. Assim como em São Paulo, o café do Cerrado de Minas Gerais foi o mais afetado pela chuva do último fim de semana, forçando a paralisação da colheita e o monitoramento de grãos que foram derrubados pela chuva.
Por que podemos associar este evento de chuva ao El Niño? Porque ele é um fenômeno “disruptivo”. No período seco, o normal é chover apenas no Sul do Brasil. Mas, se olharmos fins de outonos e invernos de El Niño, perceberemos que o fenômeno leva chuva para áreas que normalmente não registram precipitação. E sua disrupção continua na primavera.
E o que normalmente acontece na primavera do Brasil? A chuva deveria espalhar pelo País, alcançando o centro e norte. O El Niño, porém, não deixa que isso aconteça, mantendo a chuva concentrada sobre a região Sul.
A volta da chuva
Apesar do atual tempo seco no centro e sul do Brasil, a trégua da chuva dura pouco tempo. Entre sexta-feira e sábado, uma frente fria e uma sequência de sistemas de baixa pressão atmosférica causam tempestades desde o oeste e norte do Rio Grande do Sul até o sul de Rondônia, passando pelas regiões de Uruguaiana (RS), Passo Fundo (RS), Chapecó (SC), Cascavel (PR), Dourados (MS), Tangará da Serra (MT) e Vilhena (RO).
Logo na sequência, entre a segunda e a quarta-feira que vem, outra frente fria voltará a espalhar chuva por boa parte das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Estimam-se acumulados de pelo menos 70mm em municípios do Paraná e de São Paulo, mas o risco de tempestades se estende por áreas de café do sul e oeste de Minas Gerais e milho e algodão de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Geadas
No final da próxima semana, a temperatura irá despencar. A expectativa é de temperaturas mínimas negativas e geadas amplas desde o norte do Rio Grande do Sul até o centro do Paraná.
Neste contexto, apenas temperaturas extremamente baixas, a partir de -3°C, causam perdas em trigo em emergência. No Paraná, onde o trigo é instalado mais cedo, apenas 2% da área total está em florescimento. Já as frutíferas em dormência no Rio Grande do Sul e de Santa Catarina se beneficiam das temperaturas mais baixas.
No oeste e norte do Paraná e no sul de São Paulo, temperaturas entre 2°C e 4°C também irão provocar geadas em áreas produtoras. Na cana, há risco de geadas em baixadas e áreas sem vento, enquanto a horticultura pode ser mais impactada pela queda acentuada de temperatura.
Nas áreas de café do sul de Minas Gerais, estimam-se mínimas entre 3°C e 4°C desde Poços de Caldas até Passos. No café, os danos dependem do tempo de exposição a temperaturas inferiores aos 4°C: se esse período durar mais de quatro horas, pode ocorrer necrose em folhas jovens e brotos, além do congelamento em grãos em secagem nos terreiros.
Pelas simulações, no entanto, na maior parte das áreas produtoras, a exposição ao frio danoso será bem menor que as quatro horas. Além disso, com os valores previstos, não há morte de plantas adultas. Ou seja, até podem aparecer informações e imagens de geadas em café mais desprotegido no fim da semana que vem, mas não há expectativa de efeito na safra.




