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Cooperativas transformam descarte em renda e inclusão, mas cobram reconheci…

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A reciclagem é uma das ferramentas mais importantes para reduzir os impactos ambientais causados pelo excesso de resíduos e proteger a saúde da população. Quando materiais recicláveis deixam de ir para aterros, rios e ruas, diminuem os riscos de contaminação do solo e da água, a proliferação de doenças e a emissão de gases que contribuem para as mudanças climáticas.

Mas existe outro aspecto pouco lembrado: há pessoas cuidando do lixo que a maioria da população não quer ou não consegue cuidar, garantindo que ele tenha um destino adequado. O caminhão passa, a sacola vai embora, e a maioria segue o dia sem pensar muito no assunto. Mas para onde vai tudo aquilo que descartamos? Quem separa? Quem decide o que pode ganhar uma nova vida e o que seguirá para um aterro sanitário?

Foi para responder a essas perguntas que gestores, consultores e agentes de desenvolvimento de todo o país participaram, nesta semana, da Jornada Desafio Pimp, promovida pelo Sebrae em São Paulo. A imersão levou o grupo para dentro de cooperativas de reciclagem para conhecer experiências que possam inspirar e fortalecer projetos em seus estados e municípios, além de revelar para grande parte da população o trabalho diário dos catadores e catadoras que transformam resíduos em renda, inclusão social e impacto ambiental positivo.

Sede da cooperativa Viver Bem | Foto: Tulio Vidal

Quando o reciclável vira rejeito

Na Cooperativa Viver Bem, fundada em 2004, chegam mensalmente entre 250 e 300 toneladas de resíduos. Mas nem tudo que entra consegue ser reciclado. Cerca de 160 toneladas são efetivamente aproveitadas. O restante acaba descartado por contaminação ou separação inadequada. Isso significa que até 43% do material recebido pode acabar seguindo para aterros sanitários.

Ao caminhar pelo galpão, o visitante encontra um cenário de movimento constante. Enquanto a esteira transporta uma sucessão de resíduos, cooperados trabalham lado a lado separando papelão, plástico, vidro, alumínio e embalagens dos mais diversos tipos. O processo exige atenção, experiência e conhecimento técnico para identificar, classificar e destinar corretamente cada material antes que ele siga para prensagem e comercialização.

Para a presidente da Viver Bem, Tereza Montenegro, um dos principais desafios para o fortalecimento das cooperativas está no acesso à assessoria técnica e à formação continuada das lideranças. “Deveria haver assessoria técnica desde o berço das cooperativas. Nem todas contam com pessoas que têm formação ou informação para gerir o negócio, liderar equipes, negociar vendas ou lidar com a operação do dia a dia. Muitas surgem, mas não conseguem sobreviver.” Segundo ela, além dos investimentos em infraestrutura, é fundamental ampliar iniciativas de capacitação em cooperativismo e gestão para garantir a sustentabilidade dos empreendimentos.

A cooperativa também enfrenta gargalos operacionais comuns ao setor. Entre eles estão o recebimento de embalagens sem separação adequada e sem limpeza prévia, as dificuldades relacionadas à reciclagem de isopor e a necessidade de modernização de equipamentos.

Apesar dos desafios, a Viver Bem se destaca por iniciativas inovadoras. A cooperativa atua em projetos de logística reversa com empresas como Natura, O Boticário e Havaianas, trabalha com créditos de reciclagem certificados e desenvolve ações relacionadas à certificação de carbono, sendo referência nacional em rastreabilidade dos resíduos.

Foto: Tulio Vidal

Trabalho que transforma vidas

Quem acompanha a esteira diariamente conhece de perto os desafios da atividade. Geane Fonseca de Souza trabalha na cooperativa há pouco mais de dois anos. Antes, atuava como auxiliar de serviços gerais. A mudança permitiu conciliar melhor a rotina profissional com a vida familiar. “Hoje consigo acompanhar mais a minha família e organizar melhor minha rotina com meus filhos. E gosto do que faço porque sei que estou contribuindo para o meio ambiente.”

Ao lado dela está Isabel de Fátima, que há 15 anos trabalha na triagem dos materiais que chegam à cooperativa.

Quando o lixo vai parar na rua, ele entope bueiros, rios e córregos. Aqui a gente consegue reaproveitar muita coisa e evitar esses problemas.

Isabel Fátima, cooperada

As duas ajudam a dar destino a materiais que poderiam acabar descartados de forma inadequada e reforçam a percepção de que a reciclagem depende tanto da estrutura das cooperativas quanto das escolhas feitas dentro de casa.

Debaixo de um viaduto, uma história que ajudou a mudar o Brasil

A poucos quilômetros dali, outra parada da jornada chamou a atenção dos participantes. Fundada em 1989, a Coopamare é considerada a cooperativa de catadores mais antiga do Brasil. Instalada sob o Viaduto Paulo VI, no bairro de Pinheiros, processa cerca de 100 toneladas de materiais recicláveis por mês e se tornou referência nacional para o movimento dos catadores.

Walison Borges conhece essa história de perto. Ainda adolescente, ele encontrou na cooperativa uma oportunidade de transformação. “Eu vivi muita coisa ruim quando era mais novo. A cooperativa me deu uma oportunidade e eu agarrei. Já fui presidente, tesoureiro e continuo aqui porque acredito nesse trabalho.”

Hoje, um dos principais desafios apontados por ele é a baixa qualidade dos resíduos recebidos. “A coleta seletiva é difícil porque muitas famílias não separam corretamente os resíduos. Quando tudo chega misturado, aumenta o trabalho e diminui o aproveitamento dos materiais.”

A cooperativa também enfrenta uma batalha pela permanência no espaço que ocupa há quase quatro décadas. A campanha nacional #CoopamareFica mobiliza organizações, apoiadores e representantes do setor em defesa da permanência da cooperativa no local.

Foto: Tulio Vidal

O olhar de quem viveu a experiência

Para quem participou da imersão, a visita às cooperativas trouxe aprendizados que dificilmente seriam obtidos em uma sala de aula. Roberta Marca, consultora do Sebrae Mato Grosso do Sul, afirma que a experiência mudou sua percepção sobre o trabalho dos catadores. “A gente sabe que é um trabalho difícil, mas não imagina o quanto. Quando você veste a camisa e vai para a rua, sente o peso do carrinho, o esforço físico e até a forma como as pessoas enxergam os catadores. É uma experiência que muda o olhar.”

A consultora Itamara Kennerly, do Sebrae Amazonas, destaca a importância da gestão para a sustentabilidade das cooperativas e o potencial da troca de experiências entre diferentes realidades do país.

Foi muito enriquecedor conhecer iniciativas que já deram certo e entender como elas podem ser adaptadas para outros contextos. A gente percebe que não basta coletar e separar materiais. Existe toda uma estrutura de gestão, organização e liderança que precisa funcionar para que a cooperativa seja sustentável. Ver isso na prática amplia nossa visão e nos ajuda a pensar em soluções mais completas para os territórios onde atuamos.

Itamara Kennerly, consultora do Sebrae/AM

A troca de experiências também chamou a atenção de Walter Souza, chefe da Divisão de Saneamento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. “Muitos desafios são semelhantes em diferentes estados. Acredito ser fundamental a integração entre cooperativas, consultores e poder público para acelerar soluções e gerar impactos maiores do que iniciativas isoladas.”

Foto: Tulio Vidal

O valor de quem recicla

Apesar da importância ambiental, econômica e social da atividade, representantes do setor defendem que os catadores ainda recebem pouco reconhecimento pelo serviço que prestam às cidades. Para Marilane Poeckel, coordenadora financeira da Coomcat, cooperativa com atuação em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, é preciso avançar na valorização profissional da categoria.

O catador não pode ser remunerado apenas pela venda do material. O resíduo tem valor social, econômico e ambiental. É preciso reconhecer e remunerar o serviço ambiental prestado por esses trabalhadores.

Marilane Poeckel, coordenadora financeira da Coomcat

A avaliação é compartilhada por Laura Bahia, educadora ambiental e comunicadora do Movimento Pimp My Carroça. “Os catadores fazem diariamente um trabalho que beneficia toda a população. Separar corretamente os materiais é uma forma de respeito com esses profissionais e com o meio ambiente.”

Segundo ela, muitos dos problemas enfrentados pelas cooperativas poderiam ser reduzidos com atitudes simples da população, como não misturar recicláveis com restos de comida, papel higiênico ou materiais cortantes.

A mudança começa dentro de casa

Depois de visitar cooperativas, conversar com catadores e acompanhar a rotina da reciclagem, os participantes da jornada entenderam que reciclagem não começa no caminhão da coleta seletiva. Ela começa na cozinha, na área de serviço, no escritório e em cada lugar onde produzimos resíduos.

Lavar rapidamente embalagens, separar recicláveis dos resíduos orgânicos e descartar corretamente materiais cortantes são atitudes simples que podem ajudar a aumentar o aproveitamento dos materiais, reduzir o volume enviado aos aterros sanitários e gerar mais renda para quem vive da reciclagem.

O lixo não desaparece quando sai de casa. Ele percorre uma cadeia que envolve catadores, cooperativas, empresas, indústrias e poder público, gerando benefícios sociais e ambientais. Embora a reciclagem dependa de vários atores, separar corretamente os resíduos em casa ajuda a ampliar o reaproveitamento de materiais, reduzir o envio aos aterros e valorizar o trabalho dos catadores.



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