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Imaflora planeja Fiagro para estimular brincagem de bois no Pará

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O Imaflora tem no forno um Fiagro para fomentar adesões ao Programa Pecuária Sustentável do Pará, o projeto de rastreabilidade do governo paraense.

O objetivo é captar entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões — montante que deverá ser repassado para distribuidoras e revendas financiarem insumos a taxas mais baixas para produtores que comprovarem a colocação de brincos em seus animais.

A ideia é que essas intermediárias usem o convívio e as relações de confiança com os produtores para ajudar a tornar a adesão ao programa mais atrativa — e para escalar a brincagem para médios e pequenos produtores, além dos mais estruturados.

“O produtor com animais brincados vai acessar um pacote de insumos em condições melhores. Queremos incentivar a rastreabilidade porque ela é essencial para monitorar as práticas socioambientais”, explica Marina Guyot, diretora de Clima e Desmatamento Zero do Imaflora.

A ONG especializada em certificação florestal e agrícola é reconhecida como um dos principais players buscando conciliar conservação e desenvolvimento econômico na Amazônia. E a brincagem dos bois é tida como etapa essencial para a rastreabilidade da carne, assegurando que a produção não envolveu desmatamento ilegal.

O Pará foi escolhido para ser o piloto do Fiagro graças ao programa de rastreabilidade que o governo do Estado anunciou em 2023, em parceria com empresas como a JBS, para identificar todo seu rebanho bovino — o segundo maior do País — até 2030. No futuro, o Imaflora visa expandir a iniciativa para outras geografias da pecuária no Brasil.

Estímulo positivo

Segundo Guyot, a escolha pelo Fiagro se deveu à melhor capacidade, na comparação com outros instrumentos, de modular as condicionantes ambientais e de preservação.

Ela destaca a busca do Imaflora por “estímulos positivos” para combater a abertura de novas áreas, em oposição a iniciativas negativas, como restrições de acesso a crédito para quem não comprovar boas práticas.

“Entendemos que é necessária uma abordagem de incentivo, não só de punições, para estimular uma corrida por uma adequação que, de outro modo, o produtor só faria por obrigação.”

A diretora ressalva que o Fiagro ainda está em desenho, com ajuda da consultoria TudoCerto e assessoria jurídica do VBSO Advogados. O coordenador financeiro está em discussão.

Nome e ticket de negociação ainda não foram decididos. Também não há visibilidade, a essa altura, da taxa de juros na venda dos insumos, nem de quantas tranches a distribuição terá ou com quais remunerações. E falta estimar quantos brincos adicionais em bovinos a iniciativa pode gerar.

Por outro lado, a receptividade à ideia tem sido animadora nas conversas preliminares com revendas, segundo a diretora do Imaflora. Com relação ao acompanhamento da conformidade, a ideia inicial é partir de dados públicos. “O Imaflora deve monitorar o fluxo de informações e a confiabilidade do processo”, detalha Guyot.

Da porteira para dentro

Mesmo incipiente, o Fiagro em concepção já se destaca pelas particularidades. A condicionante ambiental conjugada no corpo do veículo financeiro é uma delas.

Também chama a atenção o foco na pecuária “dentro da porteira”. Os Fiagros têm sido mais usados para financiar outras cadeias, como grãos e etanol. Dos 50 listados na B3 atualmente, nenhum tem a pecuária explícita em seu mandato; os que resvalam no setor são os de terras ou os que compram títulos emitidos por frigoríficos.

A ideia, de acordo com Guyot, é preencher as lacunas a tempo de lançar o fundo neste ano — meta que parece factível diante da pujança que a ideia carrega de berço.

O Fiagro é uma das ações do Imaflora bancadas por um grant do Bezos Earth Fund, criado pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, para financiar projetos ambientais. A ONG foi uma das entidades agraciadas em 2023 com um aporte de US$ 16,3 milhões (R$ 83,9 milhões) para combater o desmatamento na Amazônia, parte de um programa mais amplo de transformação de sistemas alimentares.

Outra ação do Imaflora sob o guarda-chuvas do grant já está “na rua”: a certificação Beef on Track (BoT), que usa rastreabilidade para assegurar que a produção não envolveu desmatamento. Nesta semana, o selo anunciou o primeiro envio à China, como noticiou o Reset.

O país asiático — maior comprador da carne brasileira, segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) — assegurou 50 mil toneladas de carne certificada em 2026. O objetivo é ampliar o BoT para 2,1 milhões de toneladas.

Captação

Do lado da captação do Fiagro, a expectativa do Imaflora é prospectar um pool que combine terceiro setor, programas de fomento ambiental e empresas — o retorno estará ligado ao pagamento do crédito pelos produtores.

No setor privado, o foco serão bancos e companhias com passivo ambiental a endereçar, inclusive frigoríficos.

“A ideia é ter cotas que reúnam recursos de filantropia e de instituições que possam usar esse investimento para reportar responsabilidades e compromisso com o avanço da agenda”, diz Guyot. Ela conclui: “Uma lógica financeira, não de doação, pode alavancar volumes maiores”.



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