Bélicos ou tarifários, os recentes conflitos geopolíticos trouxeram à tona uma importante característica da nova ordem global: o mundo está, novamente, focado em commodities — o que abre grandes oportunidades para o Brasil. A análise é de Marcos Jank, professor e coordenador do Núcleo Insper Agro Global.
Depois de décadas marcadas por uma ampla oferta de matérias-primas, o que acabou até subvalorizando esse tipo de mercadoria, desde 2020 as nações passaram a demandar o controle das commodities — não apenas as agrícolas, devido à maior busca por segurança alimentar, mas também as minerais e energéticas, segundo Jank.
“As commodities hoje têm um valor muito grande, seja pelas novas geopolíticas ou tecnologias. Elas ficaram muito estratégicas”, afirmou Jank em entrevista ao The AgriBiz. “E o Brasil está muito bem-posicionado. Somos o país mais competitivo em várias commodities”, acrescentou.
O especialista abordará as oportunidades e os riscos do mundo em transformação durante uma apresentação no Harvesting Innovation, evento que será realizado pela SP Ventures, em São Paulo, na próxima segunda-feira (22).
Revisitar o passado pode ajudar o Brasil a se posicionar para o futuro. Jank lembra que o sucesso do País no mercado de commodities teve origem nas políticas de Estado da década de 1970.
Iniciativas como a Embrapa, que resultou na expansão da agropecuária para o Cerrado, e o Proálcool, em bioenergia, foram muito bem-sucedidas, posicionando o Brasil como líder em alguns dos maiores mercados de matérias-primas — caso da soja e do açúcar.
“Precisamos iniciar um processo de planejamento estratégico”, defendeu Jank. Parte dessa lição de casa consiste em reduzir as vulnerabilidades do setor, como na alta dependência da importação de fertilizantes e de gargalos na infraestrutura.
“Mas isso não é tudo. A nossa vulnerabilidade também está numa dependência excessiva da China e numa pauta muito concentrada em poucas commodities. Nossas exportações estão concentradas em dez cadeias agroindustriais — deveríamos pensar nisso”.
Nesse contexto, o planejamento estratégico deve contemplar o desenvolvimento de novos mercados, como os de biocombustíveis, no exterior. “O programa de bioenergia foi um fenômeno, mas sempre com uma vocação doméstica. Agora, deveríamos buscar a internacionalização”, disse.
Agregar mais valor à produção agropecuária é outro desafio, o que não significa, necessariamente, estar presente na gôndola com uma marca forte. “Existem muitas oportunidades para adicionar valor e reduzir riscos. Há várias cadeias que ainda não conseguimos desenvolver, como a de pescados e de lácteos”, ressaltou.
A diversificação dos destinos de exportação é igualmente relevante, especialmente para reduzir a dependência da China, que vem fortalecendo os seus esforços em busca de segurança alimentar. Um exemplo dessa estratégia são as salvaguardas adotadas no mercado de carne bovina — medida que afetará as exportações brasileiras no segundo semestre. O país asiático é destino de aproximadamente metade das vendas externas de carne do Brasil.
“Estamos muito expostos. Quase metade do que o Brasil produz, em calorias, é voltado à exportação”, disse Jank, lembrando que esse percentual aumentou de forma relevante nos últimos anos, em resposta, principalmente, à demanda chinesa. No início dos anos 2000, entre 30% e 35% da produção era vendida fora do Brasil. Hoje, esse percentual está em 45%.
Tempestade perfeita
A alta exposição ao mercado externo em um mundo em transformação, sem arbitragem de organismos internacionais, é um dos desafios enfrentados pelos produtores e empresas brasileiras que atuam no agronegócio. “Não é de hoje que estamos falando numa tempestade perfeita, mas acho que agora ela chegou de vez.”
Além de navegar em um mundo mais complexo, Jank listou outros problemas do setor: alta nos custos com fertilizantes e preços de venda pressionados, resultando numa forte deterioração das relações de troca; juros elevados; alto nível de alavancagem; risco cambial, com o real se valorizando; e aumento do risco climático com o super El Niño. “É uma tempestade perfeita que você não consegue olhar o horizonte.”
O início da recuperação, acrescenta, dependerá de uma reação nos preços dos grãos. “A pergunta é: Quando teremos um desequilíbrio entre oferta e demanda que justificará um aumento de preços? Por enquanto, ainda estamos trabalhando no escuro”.




