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O dilema da agricultura regenerativa: gera valor, mas não tem preço

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A contribuição da agricultura regenerativa para a resiliência climática e aumento da produtividade está cada vez mais evidente no campo e nas pesquisas. Mas o valor dessas práticas ainda está longe de ser precificado pelo mercado, o que acaba sendo um obstáculo para que elas ganhem escala.

Durante o Harvesting Innovation, evento promovido pela SP Ventures na segunda-feira, em São Paulo, representantes de produtores rurais, da indústria de alimentos e do setor financeiro apontaram a remuneração, a regulação e os instrumentos de medição como os principais gargalos para a expansão da agricultura regenerativa.

“Está cada vez mais evidente que não é mais uma questão técnica. As práticas regenerativas estão comprovadas pela ciência. Escalar é muito mais uma questão econômico-financeira, de política pública e de regulamentação”, disse Paulo Hora, superintendente executivo de seguros e resseguro no agronegócio da Brasilseg, uma empresa BB Seguros. “A questão é como trazer as iniciativas fragmentadas para um conceito de gestão integrada de risco entre todos os agentes. É um desafio grande”, acrescentou.

A produtora Dulce Chiochetta, sócia da Morena Agro e Sementes, apontou a necessidade de corresponsabilidade em toda a cadeia para uma produção mais sustentável.

“O produtor é o agente, é quem vai fazer essa transformação. Mas a indústria, o varejo, as seguradoras, as políticas públicas, os investidores, todos eles podem participar dessa transformação para que ela fique mais viável e atrativa”, disse a sócia da Morena Agro, que atua na produção de soja, milho e na pecuária (em sistema integrado com lavoura e floresta e semiconfinamento), em Campo Novo do Parecis (MT).

Para a gerente de sustentabilidade da Unilever, Juliana Abreu, a falta de padronização na mensuração dos impactos das práticas regenerativas e os seus custos, ainda elevados, são obstáculos a serem superados para atingir escala e até viabilizar a remuneração aos produtores.

“Hoje, temos muitas já startups, ferramentas de monitoramento, mas o custo de análises, principalmente a análise de carbono ainda é muito alto. É uma barreira para democratizar as análises para os produtores”, disse.

Segundo Dulce, da Morena Agro, a única iniciativa que paga um prêmio pelas práticas regenerativas do grupo é a da soja responsável (RTRS). “Uma das únicas certificações que a gente realmente está vendo o reconhecimento do nosso trabalho e um valor, ainda muito tímido”, afirmou.

Mas a falta de uma remuneração diferenciada não desestimulou a produtora a investir em agricultura regenerativa. “Para nós, que estamos produzindo há quase quatro décadas, o maior valor é ter certeza da longevidade do nosso negócio”, disse. “É um ganho que, às vezes, você não consegue medir em dinheiro. Mas é um ganho que melhora o teu negócio e é isso que vem acontecendo com a gente”.

O exemplo da SLC

A visão é compartilhada por Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola. A maior empresa agrícola do País recebe um ágio pelo algodão produzido em fazendas certificadas por práticas regenerativas, assim como a soja RTRS.

“Mas esse talvez seja o item menos importante. O mais importante é como eu trabalho o meu sistema de produção. O foco é ter um sistema de produção sustentável, e a agricultura regenerativa fortalece isso. Esse é o primeiro pilar da nossa tese”, disse Pavinato nesta terça-feira durante o World AgriTech Summit, em São Paulo.

O segundo pilar que fortalece as práticas sustentáveis é a maior eficiência no uso dos recursos naturais e de insumos, como o de fertilizantes. “Assim, reduzimos a necessidade de expansão de área e evito o desmatamento”, disse.

Hoje, a SLC tem dez fazendas certificadas pela adoção de práticas regenerativas que somam mais de 300 mil hectares. “Temos trabalhado para consolidar cada vez mais esse sistema e ser eficientes economicamente”, afirmou.



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