Há um dado que deveria provocar mais incômodo do que provoca. Enquanto o financiamento climático global (prometido) gira em torno de US$ 1,3 trilhão, os investimentos em armamentos ultrapassam os U$ 2,5 trilhões, e os subsídios a combustíveis fósseis somam cerca de US$ 7 trilhões por ano. O mundo não está com falta de dinheiro para enfrentar a crise climática; falta vontade de direcioná-lo corretamente.
E essa distorção tem um custo muito concreto para o Brasil.
O agronegócio brasileiro reúne condições que poucos países conseguem combinar: alta produtividade, diversidade de biomas, matriz energética limpa e um potencial imenso de sequestro de carbono.
Quando bem manejada, a agricultura tropical não é apenas fornecedora de alimentos, fibras e energia. É uma das respostas mais eficazes que o mundo tem para a descarbonização. Mas reconhecer esse papel exige que o financiamento climático chegue até quem produz. E aí está o nó.
Os instrumentos existem. Green bonds, linhas de crédito sustentáveis, fundos ESG, mecanismos de blended finance, fundos multilaterais como o Green Climate Fund — o cardápio de finanças verdes é extenso e cresce a cada COP.
O Programa Eco Invest Brasil, por exemplo, já superou R$ 127 bilhões mobilizados apenas em 2025, sendo quase R$ 40 bilhões para o agro (Caminho Verde e Biocombustíveis). O Plano Safra com ABC+ / RenovaAgro mostram que é possível direcionar crédito com critérios ambientais em escala nacional. As ferramentas estão postas.
O problema está entre o instrumento e o produtor.
Certificações custosas, burocracia que pressupõe grandes estruturas corporativas, exigências de MRV que foram desenhadas para outras realidades — tudo isso cria um funil que deixa de fora exatamente quem mais teria a ganhar e a oferecer.
Uma lavoura de soja em média no Brasil tem cerca de 200 hectares. Certificar um projeto de carbono pode custar um milhão de dólares. A conta não fecha, e o produtor fica de fora de um mercado que, em tese, existe para recompensá-lo.
Pequenos e médios produtores respondem por parcela significativa da produção de alimentos no País. Se o financiamento climático não consegue chegar até eles, não estamos falando somente de uma limitação técnica. Estamos falando de uma falha estrutural que precisa ser corrigida com a mesma urgência com que falamos de metas de emissões.
O que falta não é diagnóstico. É articulação. Capital segue confiança, e confiança se constrói com clareza regulatória, métricas consistentes de impacto e projetos estruturados que investidores internacionais consigam avaliar e acompanhar.
A consolidação da taxonomia verde, a regulação do mercado de carbono e o fortalecimento dos mecanismos de MRV não são temas técnicos secundários — são as condições de entrada para que o Brasil acesse, em escala, os recursos que já estão disponíveis no mundo.
No Instituto Equilíbrio, trabalhamos exatamente nessa costura. Conectar setor produtivo e setor financeiro, apoiar a estruturação de projetos com capacidade de atrair capital externo, defender a inclusão de pequenos e médios produtores nas linhas de crédito verde e contribuir para que o Brasil se posicione como destinatário prioritário do financiamento climático global — não por retórica, mas por capacidade de entrega.
O Brasil tem soluções reais para o clima e para a segurança alimentar global. O que não pode acontecer é continuar sendo subfinanciado enquanto demonstra, na prática, que é possível produzir mais com menor impacto ambiental. O dinheiro está no mundo. O desafio agora é garantir que ele chegue ao campo.
Eduardo Bastos é CEO do Instituto Equilíbrio.




