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MEMÓRIA. Luís Eulálio, que liderou a Fiesp na transição democrática

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Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, o histórico ex-presidente da Fiesp que liderou a renovação geracional da entidade empresarial durante a redemocratização brasileira, morreu ontem em São Paulo. Ele tinha 87 anos.

Herdeiro da Companhia Brasileira de Material Ferroviário (Cobrasma), que se destacou no fornecimento de equipamentos para a indústria ferroviária e de trens para o Metrô de São Paulo, Luís Eulálio foi eleito presidente da Fiesp em 1980 – mesmo ano em que havia assumido o comando da empresa familiar.

Saiu vitorioso liderando um movimento de jovens empresários que eram contrários à reeleição de Theobaldo De Nigris – que tentava seu oitavo mandato consecutivo. Assumiu a presidência da entidade propondo uma repactuação nacional e diálogo com os trabalhadores, em vez de se alinhar à repressão do movimento sindical como fazia boa parte do PIB à época.

Em grande medida, seu discurso de posse permanece assustadoramente atual. Nele, Luís Eulálio afirmou que a Fiesp havia “envelhecido”, e que o País enfrentava “uma nova realidade política, econômica e social que se expressa por uma severa crise” motivada por fatores como “o problema do petróleo … as distorções na distribuição de renda, a desigualdade do crescimento regional, a crescente intervenção do Estado no campo econômico, a deficiência da estrutura da educação, o desafio ecológico, a urbanização acelerada e a necessidade de novas relações entre o capital e o trabalho”.

O Brasil vivia a crise econômica do modelo intervencionista estatal do “Brasil Grande” dos militares, que legou hiperinflação, arrocho salarial e uma dívida externa impagável.

Em Brasília, Luís Eulálio participou dos debates para a transição democrática.

“Tive a oportunidade de viver episódios importantes, em momentos de enormes dificuldades para as empresas e para a própria indústria como um todo, que exigiram de mim paciência e coragem,” disse certa vez. “Lançando um olhar crítico sobre o passado, devo dizer que aprendi com os erros e com os acertos.”

Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho nasceu em São Paulo em 26 de março de 1939. Formou-se em Direito no Largo de São Francisco, onde seu pai foi diretor e professor emérito, e graduou-se em administração de empresas na Universidade de Illinois em 1965.

A Cobrasma foi fundada por seu avô, o banqueiro Gastão Vidigal, em 1944, no auge da Segunda Guerra, quando as ferrovias nacionais ficaram sem acesso a peças e insumos para a manutenção e expansão da malha. Luís Eulálio começou no departamento jurídico da empresa e foi o representante da companhia em entidades empresariais.

Entre 1969 e 1972, participou do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), do Ministério da Indústria e Comércio. Era uma iniciativa para substituição de importações de veículos e peças que havia sido criada em 1961, no Governo Juscelino Kubitschek, como parte do Plano de Metas.

Luís Eulálio cumpriu a promessa de acabar com as reeleições sucessivas na Fiesp, ficando no comando até 1986. Foi sucedido por Mário Amato. No Governo José Sarney, presidiu a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais.

Em 1987, foi envolvido no chamado ‘caso Cobrasma’. A CVM o acusou de haver feito projeções de “caráter enganoso” numa oferta de ações. Os bancos que coordenaram a emissão – Bradesco, Crefisul e BCN – acabaram amargando fortes perdas, porque haviam dado garantia firme para a colocação.

De acordo com Luís Eulálio, o lucro da Cobrasma não alcançou o esperado por causa do fracasso do Plano Cruzado, que teria feito explodir os custos. O processo transcorreu por dois anos; o empresário e a Cobrasma foram absolvidos.

Ele ficou no comando da Cobrasma até 1993. Cinco anos depois, a companhia encerrou suas atividades.

Em 2007, lançou o livro biográfico Histórias de um empresário da época do ‘Brasil Grande’, escrito por Rubens Paulo Gonçalves.

Em 2008, o empresário recebeu o título de presidente emérito da Fiesp. Foi quando o emblemático prédio da entidade, na Avenida Paulista, passou a levar o seu nome: Edifício Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho.

O empresário deixa a esposa, Lygia, três filhos – Luis Eulalio Neto, Silvia e Luis Fernando – e dez netos.




Giuliano Guandalini






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