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Por que a aristocrata Hormel vendeu a Ceratti e desistiu do Brasil

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Depois de quase uma década batendo cabeça, a americana Hormel Foods desistiu do Brasil.

A paulistana Ceratti, marca da mortadela do icônico sanduíche do Mercadão, foi repassada ao grupo Zanchetta, decretando o fim de uma aventura marcada por problemas de gestão.

Quando a Hormel adquiriu a Ceratti por pouco mais de US$ 100 milhões, em 2017, os gringos vislumbravam uma trajetória ascendente no Brasil. A ambição original era construir um negócio bilionário por aqui, mas os planos nunca funcionaram bem, apurou The AgriBiz.

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Em uma tentativa de acelerar o crescimento nos primeiros anos sob controle da Hormel, a Ceratti passou a comercializar produtos no atacarejo — formato de loja em rápido crescimento —, o que se revelou um erro, disse uma fonte que conhece bem o negócio.

Ao buscar canais como Assaí e Atacadão, a Ceratti perdeu margem no pequeno varejo — padarias, sobretudo —, onde estava o coração do negócio. Os comerciantes passaram a comprar diretamente no atacarejo, onde conseguem comprar os mesmos itens a um custo mais acessível.

Essa estratégia exigia mais capital de giro, o que não costuma ser uma boa ideia em tempos de Selic nas alturas. Nos áureos tempos, quando se concentrava no pequeno varejo, a Ceratti recebia dos clientes antes de pagar aos fornecedores. Nas vendas ao atacarejo, o jogo virou.

A abordagem comercial se somou a problemas de ordem tributária. Uma aposta para contornar a substituição tributária se transformou em autuações de centenas de milhões de reais da Secretaria da Fazenda de São Paulo.

Em relatório anual a investidores, a Hormel informou que essas autuações se referiam a um suposto sub-recolhimento de ICMS. Ainda cabem recursos nas esferas administrativa e judicial, mas a situação acendeu mais um alerta das dificuldades da Hormel no Brasil.

Da área comercial à condução tributária, os erros se acumularam de tal forma que a saída se tornou um caminho inevitável para cessar as perdas.

“O Brasil, sem dúvida, tem sido um peso no nosso desempenho”, admitiu John Ghingo, presidente da Hormel, durante teleconferência com analistas em 4 de dezembro do ano passado.

A declaração do executivo era uma resposta à pergunta do analista Ben Theurer, do Barclays, sobre a possível venda da operação brasileira.

“É algo que vocês estariam abertos a colocar à venda, para ter uma história mais limpa no negócio internacional, com foco maior na Ásia?”, questionou Theurer, acrescentando que o Brasil vinha causando “mais dor de cabeça que sorrisos”.

Ao vender a Ceratti para a Zanchetta, a Hormel sinaliza que o caminho será exatamente esse, concentrando os esforços da divisão internacional da companhia na China.

O objetivo da Hormel é focar onde gera caixa (Estados Unidos, especialmente) e cria valor, o que mantém a gigante americana no S&P 500 Dividend Aristocrats, índice das companhias que pagam dividendos crescentes por décadas — no caso da Hormel, há 60 anos consecutivos.

O resgate da Ceratti

Para a Ceratti, a volta de um controlador brasileiro é a chance de recuperar o brilho de outrora, com alguém que conhece as complexidades tributárias e concorrenciais do mercado nacional.

Dono de marcas como Alliz (carne de frango) e Mondelli (carne bovina), o grupo Zanchetta é conhecido como um bom operador.

Exportador, o grupo sediado em Boituva, no interior paulista, acumula créditos de ICMS, o que pode ser um trunfo para fazer frente ao passivo tributário gerado pelas autuações.

Diante dos problemas, não seria surpresa que a Hormel tenha aceitado vender a Ceratti por uma pequena fração do que pagou. O valor da transação, que ainda depende da aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para ser concluída, não foi divulgado.

Procurado por The AgriBiz, o grupo Zanchetta não comentou.



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