A separação da Raízen em duas companhias, uma dedicada à distribuição de combustíveis e outra aos negócios de açúcar e bioenergia, criou uma dúvida sobre a viabilidade das usinas do grupo. Afinal, a operação agroindustrial da maior fabricante de açúcar do planeta para em pé sozinha?
Em teleconferência com analistas nesta terça-feira, os executivos da Raízen foram muito questionados sobre o futuro da Raízen Energia — nome da divisão que ficará com as 24 usinas sucroalcooleiras de que o grupo ainda dispõe.
O receio dos analistas está amparado nas projeções de longo prazo feitas pela própria empresa.
A companhia admite que vai queimar caixa pelo menos até a safra 2028/2029. A volta ao azul, prevista para 2030, depende de dois fatores: ganhos de produtividade — que exigem acertos de gestão e clima favorável — e uma recuperação substancial dos preços de açúcar e etanol, variável sobre a qual a Raízen não tem controle.
O negócio de açúcar e bioenergia precisa de uma alta da ordem de 30% nas cotações do etanol, com o litro do hidratado saindo dos atuais R$ 2,25 para perto de R$ 3,00, e de uma recuperação semelhante do açúcar no mercado internacional, ultrapassando os 19 centavos de dólar por libra-peso a partir da safra 2030/31.
“A Raízen Energia depende de uma série de fatores externos, que enxergamos como otimistas, para gerar caixa. Como pensar o spin-off nesse cenário, em que nasce uma empresa que não parece resiliente para o ciclo de commodities?”, questionou Matheus Enfeldt, analista do UBS.
Lorival Luz, diretor financeiro e responsável pela reestruturação da Raízen, reconheceu que os primeiros anos do negócio de açúcar e bioenergia serão mais apertados, mas argumentou que o plano de recuperação extrajudicial foi desenhado pela companhia para absorver esses solavancos. “É um plano ácido nos primeiros dois anos”, disse.
A acidez dos primeiros anos na operação de açúcar e etanol fez com que a Raízen deixasse mais dívida alocada no negócio de distribuição de combustíveis, conforme o plano de recuperação extrajudicial que conta com a adesão de mais de 80% dos credores.
Além disso, os recursos da venda das operações na Argentina — pouco mais de R$ 7 bilhões — serão destinados à Raízen Energia. Com isso, a divisão que abarca as usinas será uma companhia menos alavancada logo após a separação dos ativos de distribuição de combustíveis.
Nas contas da companhia, a Raízen Energia nascerá com um índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) de 2,2 vezes, ao passo que a Raízen Combustíveis chegaria ao mercado com 4,8 vezes.
Diferentemente do que ocorre com o negócio sucroalcooleiro, a operação de distribuição de combustíveis pode começar a nova fase mais alavancada porque vive um bom momento operacional, o que deve ajudar a atrair um investidor para o negócio.
Nas usinas, a retomada será necessariamente mais lenta. Em razão disso, a Raízen desenhou um plano de pagamento das dívidas com prazo mais alargado. Na teleconferência, Luz lembrou que as dívidas da Raízen Energia só começarão a vencer a partir do sexto ano após a homologação do plano de recuperação extrajudicial.
A Raízen Energia também conta com uma fonte de monetização adicional que não faz parte das projeções: a venda de mais usinas, disse o executivo.
Sem pressa, a companhia pretende se desfazer de mais ativos sucroalcooleiros. As usinas que podem ser vendidas somam algo entre 10 e 15 milhões de toneladas de cana, volume similar ao de grupos do porte de Coruripe.
“Na última safra, já vendemos ou desmobilizamos quase 20 milhões de toneladas de capacidade de moagem. Vamos continuar nessa jornada”, disse Nelson Gomes, CEO da Raízen, em resposta à analista Isabela Simonato, do BofA (Bank of America).
Ao diminuir de tamanho, a Raízen quer voltar a ser uma referência, algo que se perdeu em meio à escalada de endividamento dos últimos anos. “Precisamos buscar o tamanho ótimo para que a companhia seja o competidor mais eficiente do mercado, como um dia já fomos”, resumiu Gomes.




