As chuvas acima do normal em junho retardaram a colheita do café arábica no Brasil, gerando uma pressão altista sobre as cotações da commodity. Combinado aos estoques em baixa e previsões pontuais de geadas, os contratos futuros de café arábica subiram 13,7% na bolsa de Nova York no mês passado.
O acompanhamento da Cooxupé (Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé), a maior produtora e exportadora de arábica no País, aponta a colheita no nível mais lento desde 2021.
Até agora, foi colhido 24,9% na área monitorada, que abrange mais de 370 municípios em Minas Gerais e São Paulo. A essa altura no ano passado, o patamar era de 31,4%, e, na média dos últimos cinco anos, foi de 32,26%.
A situação é mais grave no Cerrado mineiro, onde a colheita está em apenas 16,2%. Em âmbito nacional, o cenário é de 45% até aqui — contra 53% no mesmo momento de 2025, que já tinha sido “um ano mais lento”, situa Leonardo Rossetti, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Segundo os especialistas, o atraso se deve às chuvas. “Junho costuma ser um mês seco, o que é importante para a colheita, mas tivemos vários momentos de chuva atrapalhando colheita, secagem e pós-beneficiamento”, diz Rossetti.
Nesse cenário, toda a cadeia de processos atrasa. “O produtor está com o sequeiro cheio, não consegue terminar de secar, e, por isso, não pode colher, pois precisa despachar o café para o beneficiamento antes de trazer uma nova leva.”
Claudio Delposte, analista sênior do Rabobank, lembra outro problema: a umidade aumenta o risco de fermentação indesejada, gargalo ainda mais crítico em fazendas sem secadores, “resultando em perdas de qualidade em alguns lotes”.
Ele acrescenta que a intensidade das precipitações fugiu do normal, mas pondera que a expectativa é de normalização das condições climáticas nos próximos dias. “A tendência é que a colheita e o processamento ganhem ritmo.”
Mário Ferraz de Araújo, coordenador de Desenvolvimento Técnico na Cooxupé, acrescenta que, além de atrapalhar a colheita e diminuir a oferta de alguns tipos de café, como o cereja descascado e os mais finos, as chuvas “podem induzir floradas desuniformes para o próximo ano”.
Descompasso temporal
No longo prazo, os analistas entendem que o horizonte de preços ainda é baixista, graças à projeção de safra recorde.
As estimativas oscilam entre 75,3 milhões de sacas, na previsão mais arrojada, da StoneX, e 66,7 milhões de sacas, no caso da Conab, mais conservadora — ainda assim, seria o recorde da série histórica do órgão.
A volatilidade em junho foi momentânea, acredita Rossetti. “A gente tem nesse momento um descompasso entre a projeção futura e a realidade de mercado físico no curto prazo, vindo de uma safra mais fraca”, diz Rossetti.
Delposte concorda “O mercado está operando com estoques historicamente baixos. Com o excesso de chuvas, o fluxo de café novo fica mais lento. No terreiro, são necessários, em média, de 10 a 20 dias para uma secagem adequada. Se chove nesse período, o processo se prolonga mais, atrasando a disponibilidade”.
Segundo eles, também colaborou para a recente pressão altista o fato de os produtores estarem capitalizados após os últimos anos de preços em alta. Nesse cenário, eles esperam oportunidades melhores e têm menos urgência para vender.
Para os analistas, a volatilidade pode se manter durante o inverno. Isso porque o Brasil é o maior produtor e exportador no mundo do arábica, o preferido dos maiores mercados, como Estados Unidos, Alemanha e Japão. Por isso, dizem, qualquer solavanco, em especial por questões climáticas, influencia as cotações.
Rossetti, da StoneX, acrescenta outro ingrediente: o risco de geadas. “A gente tem visto indicativos de frentes frias, nada muito alarmante, mas em qualquer projeção de temperaturas mais baixas no Brasil, o mercado reage, pois o trauma de geadas afetando a produção ainda é recente”, diz.
A menção dele é à “grande geada” que afetou a safra 2021/22 e aos eventos em 2025 no Cerrado mineiro “que o mercado não esperava, e assustaram os operadores”.
“A combinação de estoques reduzidos, retenção pelos produtores, clima e movimentação dos fundos pode gerar volatilidade e movimentos mais acentuados”, conclui Delposte, do Rabobank.




