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A instalação “Cosmic Thing”, do artista mexicano Damián Ortega, apresenta um Fusca suspenso no ar, com suas peças flutuando, criando uma ambiguidade entre explosão e recomposição.
Ortega reflete sobre a dissecação analítica e a transgressão agressiva ao desmontar objetos para revelar seus segredos. A obra transforma um carro familiar em algo estranho, permitindo ao público observar tanto o todo quanto os fragmentos.
A exposição “Matéria e Energia” no Masp reúne 35 obras de Ortega, que convidam à reflexão sobre trabalho, consumo e sistemas cotidianos.
O artista, que trabalhou como cartunista político, utiliza humor e observação do cotidiano em sua produção. Sua conexão com o Brasil, onde morou no início dos anos 2000, influenciou seu trabalho e levou à publicação de livros sobre figuras centrais da cultura brasileira.
Ortega valoriza o trabalho manual e a relação com os materiais, mantendo um enfoque humano em sua arte.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Um Fusca pode ter entre três mil e cinco mil peças. Há vídeos na internet ensinando a desmontá-lo e remontá-lo. No Museu de Arte de São Paulo (Masp), porém, o carro não está sendo consertado. Está suspenso no ar.
Na instalação Cosmic Thing, do artista mexicano Damián Ortega, cada parafuso, engrenagem, cabo, farol e fragmento da carroceria flutuam no espaço. O automóvel parece congelado em um instante ambíguo: não se sabe se está explodindo ou se recompondo diante dos olhos do visitante.
“Muitas vezes me perguntei se isso se trata de uma dissecação analítica e até didática ou se é uma explosão. É uma forma mais violenta de transformar um sistema e desmembrá-lo, abri-lo como uma transgressão agressiva — desmontar algo para chegar a conhecer seus segredos ou mecanismos. Acho que são as duas coisas”, conta Ortega ao NeoFeed. “Interessa-me a ideia do jogo e de observar um objeto desmontado, porque essa é uma forma de conhecer aquilo que está oculto.”
A obra transforma um dos objetos mais familiares do século XX em algo estranho. Diante dela, o olhar oscila entre o todo e os fragmentos. É possível reconhecer imediatamente o carro, mas também se perder entre seus milhares de componentes.
“É uma forma didática de entender como uma coisa é montada, construída, e, em última instância, qual é o papel de cada peça no funcionamento do todo”, explica, ao NeoFeed, Yudi Rafael, curador assistente do Masp e um dos responsáveis pela mostra, ao lado de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura.
Matéria e Energia é a primeira exposição panorâmica de Ortega na América do Sul. Reunindo 35 obras produzidas ao longo de mais de três décadas, a mostra convida o público a observar com atenção os objetos que o cercam e, a partir deles, refletir sobre trabalho, consumo, linguagem e os sistemas que organizam a vida cotidiana.
Segundo Rafael, o trabalho de Ortega não oferece respostas prontas. “Ele abre espaço para que o público pense junto e complete os sentidos da obra a partir da própria experiência”, afirma. Essa abertura tem relação direta com a trajetória do artista.
Antes de se dedicar às artes visuais, Ortega trabalhou como cartunista político. O humor, a observação atenta do cotidiano e a disposição para questionar estruturas permanecem presentes em sua produção. Ao percorrer a mostra, não é raro que algumas obras provoquem um sorriso.
É o caso de Picareta Cansada (1997). Na escultura, o cabo da ferramenta se curva até tocar a base, como se estivesse exausta após uma jornada de trabalho. O objeto austero preserva sua identidade, mas adquire uma dimensão humana.
“O humor nos permite entrar em territórios aos quais talvez não conseguiríamos acessar de outra forma, provavelmente por causa da autocensura ou das convenções do que é considerado correto”, ressalta Ortega.
Coisas do Brasil
Se o visitante brasileiro reconhecer algo familiar nas obras de Ortega, isso não acontece por acaso. De acordo com o curador, um dos pontos de partida da exposição foi justamente destacar as conexões construídas pelo artista com o Brasil ao longo das últimas décadas.
Nascido na Cidade do México, em 1967, Ortega morou no Rio de Janeiro no início dos anos 2000, experiência que descreve como o encontro com “um paraíso onde existia uma cultura muito mais desinibida e alegre”.
A mudança estreitou seu contato com a produção artística brasileira e aprofundou seu interesse por nomes como Hélio Oiticica, Lina Bo Bardi, Cildo Meireles e Arthur Bispo do Rosário.
A aproximação ultrapassou o campo das artes visuais. Por meio da Alias Editorial, projeto de edição de livros fundado pelo artista, Ortega publicou obras dedicadas a figuras centrais da cultura brasileira, entre elas Oswald e Mário de Andrade, além de Oiticica, Lina e Bispo.
“Me pareceu indispensável promover o conhecimento e o intercâmbio entre nossos países — ainda que de maneira modesta —, construindo uma ponte entre Brasil e México e, ao mesmo tempo, incentivando, no México, o reconhecimento e o estudo de nossa própria história”, afirma.
Entre os artistas brasileiros que mais o impactaram, Oiticica e Bispo ocupam um lugar especial. Em ambos, Ortega reconheceu algo presente em sua própria produção: a capacidade de transformar objetos comuns em instrumentos de imaginação e conhecimento.
Assim como Oiticica levou capas, tecidos e materiais cotidianos para o campo da arte, Ortega parte de carros, ferramentas, tijolos, alimentos ou resíduos industriais para investigar as relações sociais, econômicas e culturais inscritas nesses objetos.
A influência brasileira também aparece de forma direta em algumas obras presentes na exposição. O título da mostra, Matéria e Energia, deriva de uma série realizada após o artista encontrar exemplares brasileiros da coleção Biblioteca Científica Life — entre eles os volumes A Matéria (1969) e A Energia (1968).
Na mesma época, atento à arquitetura popular das cidades brasileiras, Ortega começou a fotografar pilhas de tijolos acumuladas diante de casas em bairros periféricos, materiais guardados para reformas ou construções ainda por vir. Dessas observações nasceram trabalhos como Matéria em Repouso II (2004), nos quais esse elemento da paisagem urbana se transforma em uma reflexão sobre o tempo e a expectativa de mudança.
Embora suas obras não exibam de forma evidente a gestualidade da mão do artista, o elogio ao trabalho manual percorre sua produção. Em Controller of the Universe (2007), enxadas, facões, serrotes e alicates convergem para um único ponto no espaço.
Já em Harvest (2013), esculturas produzidas com vergalhões de aço, um material rígido, desenham, por meio da sombra, delicadas letras cursivas das vogais “a”, “e”, “i”, “o”, “u”.
“Esse conhecimento e esse respeito pelos materiais são essenciais para meu trabalho. Preocupa-me muito a ideia de que um artista se transforme em um intelectual com recursos econômicos suficientes para mandar executar suas obras por outras pessoas”, aponta Ortega. “Tenho pessoas adoráveis com quem trabalho há muito tempo e com quem compartilho processos de aprendizagem e conversas. Por isso, acredito que continua sendo um trabalho humano, muito humano.”




