No suco de laranja, a persistente tendência global de queda no consumo só não causou mais estragos na safra 2025/26 no Brasil graças aos Estados Unidos e à China.
De acordo com números divulgados pela CitrusBR, associação que reúne as principais indústrias exportadoras, os dois países elevaram bastante suas compras do Brasil. Assim, compensaram parte das quedas na demanda da União Europeia e do Japão — ao encontro da redução de 4% ao ano no consumo global, nas contas do Itaú BBA.
Historicamente a principal compradora do produto brasileiro, a Europa reduziu suas compras na última safra em 10,9%, para 335,2 mil toneladas de FCOJ equivalente. Em receita, a queda foi mais aguda, de 38%, para US$ 1,11 bilhão.
Ainda segundo o relatório, a participação do bloco no volume exportado pelo Brasil recuou de 50% para 45%.
Já o Japão teve a maior retração entre os principais destinos, de 28,6%, para 14,3 mil toneladas de FCOJ equivalente. A receita recuou 45,9%, para US$ 58,9 milhões.
No sentido contrário, os EUA “seguiram em trajetória de crescimento” e elevaram seu share nas vendas brasileiras de 40% na safra passada para 48%, em volume, consolidando-se como o principal destino.
O país importou 355,8 mil toneladas de FCOJ equivalente na safra 2025/26, alta de 16,3%. Mas em receita os embarques recuaram 20,6%, caindo para US$ 1,08 bilhão.
A China também elevou as compras em 26%, para 25,5 mil toneladas de FCOJ equivalente, com a receita subindo 1%, para US$ 70,3 milhões.
Nesse jogo de ganha-perde, o volume exportado pelo Brasil se manteve estável, com leve alta de 0,2%, em 746,9 mil toneladas embarcadas. Já o faturamento caiu 30,4%, o equivalente a mais de US$ 1 bilhão (de US$ 3,42 bilhões para US$ 2,38 bilhões), refletindo o cenário de “forte ajuste nos preços internacionais”.
Natural não congelado “mais resiliente”
No mercado, a tendência de queda na demanda global pelo suco concentrado e congelado é lida como fruto de três fatores principais.
Primeiro, a alta nos preços nos últimos anos graças a problemas na oferta causados pelo clima e pelo greening, a doença que assola o cinturão citrícola. Em segundo lugar, a pauta da saudabilidade, com o suco congelado perdendo espaço, “acusado” de ter excesso de açúcar. E, por último, as pioras em qualidade e sabor nas últimas safras, também ligadas ao clima e ao greening.
“O consumidor viu a laranja mais cara e com qualidade inferior e acabou se afastando ainda mais”, analisou Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, no recente evento Agro em Pauta.
Segundo ele, nem mesmo choques de oferta, como em 2024/25, a segunda pior safra em 36 anos, têm feito frente ao afastamento do consumidor. “A cotação cai em Nova York há 15 meses, mas no varejo tem atingido preços recordes. A queda não vem sendo repassada.”
O Brasil é o maior produtor global de laranja, e exporta 95% do que produz — 80% na forma industrializada, diz Nunes. A mais comum é o suco concentrado e congelado (FCOJ, na sigla em inglês), no qual 80% do conteúdo de água é retirado para baratear o frete, exigindo reposição no destino. Menos comum, existe o não concentrado (NFC, na sigla em inglês), com mais apelo de saudabilidade — mas também mais perecível.
Para uniformizar estatísticas, estoques e precificação e facilitar análises, ambos são reunidos, via conversão aritmética, no conceito de “FCOJ equivalente a 66º Brix”. É essa a métrica que mostra EUA e China parcialmente compensando as quedas de demanda na União Europeia e no Japão na safra 2025/26.
Quando se separa os dois, porém, o que se vê é o suco não concentrado “mostrando maior resiliência”, diz Nunes. Segundo ele, o reconstituído — métrica que sinaliza o FCOJ — recuou 12,4% em volume e 6,9% em receita no Brasil no último ano-safra, enquanto o não concentrado caiu 6,3% em volume e cresceu 6,4% em receita.
O histórico da CitrusBR confirma essa percepção. Considerando dados desde a safra 2013/14 até a recentemente finalizada, o NFC tem um aumento expressivo, de 84%, no volume — em oposição a uma diminuição também expressiva, de 53%, no FCOJ.
Em receita, a diferença é ainda mais significativa: alta de 167% no suco não concentrado, contra uma queda de 14% no concentrado e congelado.
São sinais, diz Nunes, do Itaú BBA, de que o consumidor — principalmente nos EUA — está disposto a pagar mais por um produto fresco e saudável. “Trata-se de um suco percebido como mais próximo do natural, exportado em sua diluição original, sem passar pelo processo de concentração e posterior reidratação característico do FCOJ”, detalhou.
Mas do lado da oferta, produzir NFC não é simples e depende das condições climáticas, completa o analista. “Para produzir esse suco, o setor tem sofrido por conta das chuvas e da qualidade dos frutos de início de safra, que ainda não estão maduros em termos de doçura, por conta do clima mais frio e das chuvas. É um desafio que a indústria terá de superar.”
El Niño pode afetar 2027/28
Segundo Nunes, outro elemento a observar é o El Niño — neste ano previsto para se manifestar de forma “muito forte”.
O risco maior, ele diz, não é de problemas na safra 2026/27, mas na seguinte. “A laranjeira sofre muito com estresses, como calor e chuvas. O desenvolvimento da laranja que vai ser colhida de junho de 2027 a junho de 2028 é forte entre setembro e novembro. Caso tenha El Niño com imprevisibilidade, o risco está na safra 2027/28.”
Isso poderia aliviar as cotações, diz Nunes. “A esperança, que não necessariamente se traduz em margem, porque colheriam menos, é em um cenário de florada ruim e redução de safra no ano seguinte.”
Mas a conta é apertada, ele explica: “Fora dos contratos de longo prazo, no mercado spot, a indústria está operando com margem negativa. E os preços desestimulantes acabam reduzindo a aplicação de fertilizantes, principalmente os fosfatados”.




