Quem convive com um cachorro ou gato já viveu situações que parecem desafiar qualquer explicação. Basta mencionar a palavra “passear” para o cachorro correr até a porta, ou perguntar “cadê a bolinha?” para vê-lo iniciar uma busca imediata.
Mas será que os pets realmente entendem o que dizemos ou apenas associam determinados sons a momentos da rotina?
A ciência mostra que eles fazem muito mais do que simplesmente associar palavras a determinadas situações. Kelly Kuhn, veterinária da Petlove, explica que os pets conseguem processar informações de forma mais complexa do que se imaginava.
Os cães entendem mais do que parece
Durante muito tempo, acreditou-se que os cães apenas relacionavam determinadas palavras a recompensas ou situações do dia a dia. Hoje, pesquisas mostram que esse processo é bem mais elaborado.
Estudos com ressonância magnética funcional (fMRI) revelam que os cães utilizam o hemisfério esquerdo do cérebro para interpretar o significado das palavras e o hemisfério direito para analisar a entonação da voz. Ou seja, conseguem diferenciar o que está sendo dito da forma como a mensagem é transmitida.
Outra pesquisa, publicada na revista científica Current Biology, utilizou eletroencefalograma (EEG) para acompanhar a atividade cerebral dos cães.
Durante o experimento, os pesquisadores pronunciavam palavras conhecidas, como “bola”, mas apresentavam um objeto diferente. O cérebro dos animais reagia com o chamado efeito N400, o mesmo observado em humanos quando uma informação não corresponde ao que era esperado.
Como eles aprendem tantas palavras?
O aprendizado começa por associação, repetição e reforço positivo. Sempre que uma palavra antecede uma experiência agradável, como um passeio ou a hora da alimentação, o cérebro cria conexões que tornam aquele som familiar.
Com o tempo, o próprio nome do animal passa a funcionar como um sinal de que a atenção do tutor está voltada para ele.
Além disso, alguns cães conseguem aprender palavras novas por um mecanismo conhecido como “fast mapping”. Na prática, se estiverem diante de vários brinquedos conhecidos e apenas um desconhecido, conseguem deduzir que um nome inédito se refere justamente ao objeto novo.
Palavras e tom de voz
Embora gestos, horários e cheiros ajudem os animais a interpretar a situação, eles não dependem apenas desses elementos para compreender a comunicação.
Na prática, isso significa que palavras familiares podem ser reconhecidas mesmo quando são ditas em um contexto diferente do habitual, embora os sinais do ambiente reforcem essa interpretação.
Mas não é só o significado das palavras que influencia a resposta dos pets. A forma como elas são pronunciadas também tem um papel importante para chamar a atenção e transmitir uma intenção.
Os cães costumam responder melhor quando os tutores utilizam uma voz mais aguda e carinhosa. Já os gatos também reagem a esse tipo de entonação, principalmente quando ela vem de alguém com quem possuem vínculo.
Além disso, cães e gatos conseguem perceber as emoções das pessoas pela voz. Sons mais suaves costumam transmitir segurança e afeto, enquanto tons graves e secos podem ser interpretados como sinais de alerta.
Cães e gatos entendem da mesma forma?
Apesar das semelhanças, existem diferenças importantes entre as duas espécies.
Segundo Kelly, isso não significa que uma seja mais inteligente que a outra, mas que cada uma evoluiu de maneira diferente ao longo da domesticação.
Enquanto os cães foram selecionados durante milhares de anos para cooperar com os humanos, tornando-se especialistas em interpretar gestos e comandos, os gatos desenvolveram uma comunicação mais independente.
Ainda assim, eles reconhecem o próprio nome com facilidade.
Algumas raças aprendem mais rápido
A genética também influencia a facilidade de aprendizado. Raças como Border Collie, Poodle, Pastor Alemão, Golden Retriever e Pastor Belga Malinois costumam aprender comandos em poucas repetições por terem sido desenvolvidas para trabalhar em parceria com as pessoas.
Algumas pesquisas apontam, inclusive, que determinados cães, principalmente Border Collies e Labradores, conseguem memorizar o nome de dezenas de brinquedos, apresentando uma capacidade de aprendizagem comparável à de uma criança de aproximadamente 18 meses.
Ainda assim, Kelly destaca que a predisposição genética não é suficiente. Treinamento, estímulo e constância continuam sendo fundamentais para o desenvolvimento dessa habilidade.
Apesar dessa capacidade de aprendizado, os animais não interpretam a fala humana exatamente como nós. Eles não compreendem regras gramaticais ou a ordem das palavras dentro de uma frase, mas conseguem identificar termos importantes para entender a mensagem.
Se o tutor disser uma frase longa como “O que você acha de irmos ao parque passear agora?”, por exemplo, o cão provavelmente irá reconhecer palavras-chave como “parque” e “passear”, utilizando essas informações para interpretar a situação. Por isso, a repetição e a consistência são essenciais no processo de comunicação.
Segundo a veterinária, alternar constantemente expressões como “vamos passear”, “vamos sair” ou “vamos para a rua” para indicar a mesma atividade pode dificultar o aprendizado, já que o animal precisa criar novas associações para cada comando.
As pesquisas mostram que a relação entre humanos e pets envolve uma comunicação mais sofisticada do que muitos imaginam. Além das palavras, os animais interpretam tons de voz, emoções e outros sinais presentes na interação com seus tutores.




