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Por que especialistas estão divididos com startup que vai gerar energia solar após o pôr do sol

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A FCC dos EUA autorizou a Reflect Orbital a testar um satélite, o Eärendil-1, que refletirá luz solar à Terra à noite, visando fornecer energia solar sob demanda. O satélite, que será lançado a 640 km de altitude, usará um espelho de 18 metros de diâmetro para iluminar uma área de cinco quilômetros. Se bem-sucedido, a empresa planeja lançar até 6.000 satélites até 2030. A Reflect Orbital já recebeu investimentos significativos, incluindo US$ 6,5 milhões da Sequoia Capital.

No entanto, a iniciativa enfrenta oposição de astrônomos e cientistas, que alertam sobre a poluição luminosa, impactos nos ritmos circadianos e interferências nas observações astronômicas. Apesar das preocupações, a FCC defendeu a tecnologia como potencialmente revolucionária, ignorando as advertências sobre os riscos ambientais e sociais associados.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

A recente decisão da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos de autorizar a startup Reflect Orbital a testar um satélite que usaria um espelho para refletir a luz solar de volta à Terra após o anoitecer abriu um debate polêmico envolvendo cientistas dos EUA e da Europa.

A startup, da Califórnia, planeja lançar seu satélite de teste, denominado Eärendil-1, ainda este ano. O modelo de negócio seria uma espécie de “iFood do Sol” – o objetivo é oferecer energia solar sob demanda durante a noite na Terra, para alimentar fazendas solares, iluminar equipes de resgate e até ruas de cidades.

O satélite, uma vez no espaço a 640 quilômetros de altitude, desdobraria um espelho quadrado com quase 18 metros de diâmetro que refletiria a luz solar para iluminar uma área circular de cerca de cinco quilômetros de diâmetro na superfície terrestre.

Se o teste der certo, a Reflect Orbital espera lançar 1.000 satélites maiores até o final de 2028 e outros 5.000 até 2030. Os maiores espelhos planejados terão quase 55 metros de largura, refletindo tanta luz quanto 100 luas cheias.

Durante uma das rodadas de apresentação da startup a investidores, Ben Nowack, cofundador e diretor executivo da Reflect Orbital, afirmou que a empresa cobraria cerca de US$ 5.000 por hora pela luz de um único espelho, caso o cliente assinasse um contrato anual de pelo menos 1.000 horas.

A iluminação para eventos pontuais e emergenciais, que pode exigir diversos satélites e maior esforço de coordenação, seria mais cara. Para usinas solares, ele prevê a divisão da receita proveniente da eletricidade gerada pelas horas adicionais de luz.

Nowack acredita que os satélites da Reflect Orbital podem acelerar projetos de construção, permitindo que as equipes trabalhem com mais segurança durante a noite. Ele também sustenta que os agricultores poderiam cultivar mais alimentos por hectare.

A possibilidade de a startup gerar energia solar após o pôr do sol – e resolver o problema de intermitência do segmento renovável, na verdade já contemplado recentemente com a introdução de baterias de armazenamento (BESS) em larga escala – atraiu a Sequoia Capital, uma das mais influentes e tradicionais firmas de venture capital do mundo.

A Sequoia aportou US$ 6,5 milhões na Reflect Orbital durante a rodada seed anunciada em setembro de 2024. Esse investimento marcou o primeiro movimento da Sequoia no setor espacial desde o apoio à SpaceX, e contou também com participação de Starship Ventures e de empreendedores de destaque no ecossistema de tecnologia e inovação, como Baiju Bhatt, Keller Rinaudo Cliffton e Keenan Wyrobek.

Posteriormente, em maio de 2025, a Reflect Orbital levantou US$ 20 milhões em Série A, liderada pela Lux Capital, com nova participação da Sequoia Capital e da Starship Ventures.

Ritmo circadiano

A aprovação da FCC ocorreu apesar de uma onda de oposição de astrônomos, especialistas em vida selvagem e cientistas de outras áreas.

O argumento central é que a luz dos espelhos poderia distrair pilotos de avião, prejudicar observações astronômicas e interferir nos ritmos circadianos – os ciclos de luz e escuridão que ajudam pessoas, animais e plantas a saberem quando acordar e dormir, florescer ou migrar.

Em uma carta enviada à FCC no mês passado, a Sociedade Astronômica Americana afirmou que a iniciativa “não pode ser considerada como servindo ao interesse público” e, na verdade, desperdiçaria o dinheiro dos contribuintes, prejudicando o trabalho de instalações astronômicas financiadas pelo governo federal, além de trazer riscos incalculáveis para pessoas e animais selvagens.

“É evidente que as atividades propostas pela Reflect Orbital terão um impacto no meio ambiente da Terra, incluindo na saúde humana, na agricultura e na vida selvagem, além da astronomia”, escreveu Roohi Dalal, diretora de políticas públicas da sociedade.

O Observatório Europeu do Sul (ESO) foi outro instituto científico a se posicionar contra o empreendimento. Um estudo realizado pelo ESO e publicado no mês passado na revista Astronomy & Astrophysics avaliou até que ponto as constelações de satélites de grande porte e muito brilhantes podem um dia afetar as observações astronômicas ao clarear o céu noturno.

A conclusão é que, mesmo quando não apontam diretamente para o observador com seus espelhos, a luz dispersa pelos satélites da Reflect Orbital faria com que aparecessem no céu como milhares de Vênus, visível a olho nu.

“Seja em Auvergne, na França, no Saara ou no deserto do Atacama, no Chile, o céu deixaria de ser puro e pareceria com o que se observa nos arredores de uma cidade”, afirmou o astrônomo Olivier Hainaut, autor do estudo do ESO.

No paper, Hainaut adverte para o crescente número de satélites em órbita da Terra – cerca de 14 mil, entre eles, 6 mil satélites da Starlink, da SpaceX.

A empresa do bilionário Elon Musk dentro da SpaceX oferece internet banda larga via satélites de órbita baixa (LEO), com foco em alta velocidade, baixa latência e cobertura global — inclusive em áreas onde operadoras tradicionais não chegam. A Starlink é hoje o maior sistema de satélites do mundo e Musk pretende colocar em órbita mais um milhão de satélites voltados a centros de dados espaciais.

O estudo do ESO, que teve colaboração da Royal Astronomical Society do Reino Unido e da União Astronômica Internacional, também serviu de base para um informe apresentado à FCC.

O órgão federal americano, porém, não se comoveu com as advertências dos cientistas. “O satélite de demonstração da Reflect Orbital é um exemplo de uma tecnologia potencialmente revolucionária”, afirmou a comissão em sua decisão de concessão da licença.

A aprovação segue outras decisões controversas de Brendan Carr, presidente da FCC, o órgão que emite as licenças necessárias para o lançamento de satélites. Ele tem sido um grande defensor da indústria espacial, apoiando os planos da SpaceX e da Amazon de lançar milhares de satélites para conectividade de internet via satélite.

Carr também tomou medidas recentes para flexibilizar as regulamentações para empresas de telecomunicações e mídia, descrevendo a FCC como “grande demais e autoritária em suas regras”.

A decisão da FCC espelha o que prega Carr – a posição geral do governo federal dos EUA é que as atividades no espaço não estão sujeitas a regulamentações e avaliações ambientais, que se aplicam apenas à Terra.

“Mesmo que a comissão tivesse autoridade para revisar e condicionar essas operações (o que não tem), é improvável que esses danos ocorram”, afirmou a FCC no comunicado autorizando o teste do satélite da Reflect Orbital.



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