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ARTIGO: O crédito sustentou o varejo. Agora cobra seu preço

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O varejo brasileiro enfrenta um cenário desafiador com juros altos, refletindo uma mudança estrutural nos critérios que sustentaram seu crescimento na última década. O setor, que antes se apoiava na expansão da oferta, promoções e amplo acesso ao crédito, agora lida com a pressão do custo do dinheiro, que afeta tanto famílias quanto empresas.

A taxa Selic em 14,25% e o rotativo do cartão de crédito acima de 300% ao ano tornam o consumo financiado mais caro e menos eficiente. No setor de tecnologia, o aumento de preços e a desaceleração nas vendas evidenciam a cautela do consumidor. As empresas enfrentam margens pressionadas e a necessidade de gerar caixa consistentemente.

O crédito, antes visto como acessório, agora é fundamental para a operação do varejo, influenciando decisões financeiras e a execução do negócio. O futuro do varejo premiará a eficiência e a rentabilidade, em vez do crescimento apenas em volume.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

O varejo brasileiro opera hoje sob um patamar de juros que costuma ser tratado apenas como mais uma fase difícil da economia. Essa leitura, porém, é insuficiente, já que o que está em curso não se resume a uma desaceleração conjuntural, mas revela uma mudança mais profunda nos critérios que sustentaram o crescimento do setor ao longo da última década.

Durante anos, boa parte do varejo se apoiou em três vetores relativamente previsíveis: expansão de oferta, uso intensivo de promoção e amplo acesso ao crédito. Em segmentos de maior ticket médio, como tecnologia, móveis e eletrodomésticos, essa combinação foi especialmente relevante, pois permitiu ampliar mercado, antecipar consumo e sustentar volumes elevados de vendas.

No Brasil, o crédito exerce papel ainda mais central do que em outras economias, marcadas por renda comprimida e elevada sensibilidade ao orçamento das famílias, sendo o parcelamento o principal viabilizador de demandas que dificilmente ocorreriam à vista. Quando esse mecanismo se expande, o consumo acelera, mas quando se retrai, parte relevante do mercado perde tração.

Os números recentes ajudam a ilustrar esse movimento. Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o custo do dinheiro segue pressionando famílias e empresas. Ao mesmo tempo, dados do Banco Central mostram que o rotativo do cartão de crédito permanece acima de 300% ao ano, evidenciando como parte relevante do consumo financiado se tornou mais cara e menos eficiente.

No setor de tecnologia, a mudança é ainda mais evidente. Estimativas da IDC indicam que o preço médio dos smartphones vendidos no Brasil subiu cerca de 80% nos últimos anos, ao mesmo tempo em que o volume comercializado perdeu ritmo.

O consumidor continua demandando conectividade e renovação tecnológica, buscando sempre um upgrade em relação ao aparelho anterior, mas passou a decidir com maior cautela, avaliando utilidade, prazo de troca e condições de pagamento de forma mais criteriosa.

Do lado das empresas, o capital mais caro pressiona margens, encarece estoques e torna mais visível a diferença entre operações capazes de gerar caixa de forma consistente e aquelas excessivamente dependentes de giro acelerado para sustentar crescimento. Durante o período de liquidez abundante, essa distinção podia ser relativizada, mas hoje, tornou-se central.

Há, contudo, uma transformação menos visível e igualmente relevante. Durante muito tempo, o crédito foi tratado como instrumento acessório, acionado para viabilizar vendas ao consumidor ou atender necessidades pontuais de capital de giro. Esse modelo era compatível com uma cadeia mais previsível, ciclos mais longos e menor complexidade operacional.

O varejo atual funciona de outra forma, reunindo múltiplos canais, demanda fragmentada e ciclos mais curtos, tais características passaram a fazer com que decisões financeiras começassem a interferir diretamente na execução do negócio. Nível de estoque, velocidade de reposição, mix de produtos e capacidade de capturar oportunidades comerciais dependem, cada vez mais, da forma como o capital circula entre indústria, distribuidores, varejistas e canais de venda.

Na prática, o crédito deixou de ocupar posição periférica e passou a integrar a infraestrutura que conecta toda a cadeia. Isso ajuda a explicar por que métricas que dominaram o debate do setor nos últimos anos perderam parte de sua força. Expansão de base, ganho de GMV e crescimento de volume continuam relevantes, mas como esse crescimento é financiado, qual margem ele produz e se permanece sustentável sem estímulos artificiais de demanda são ainda mais importantes.

Uma eventual redução dos juros tende a beneficiar o consumo e reativar categorias sensíveis ao crédito, mas ainda assim, seria precipitado imaginar um simples retorno ao varejo do passado. O consumidor tornou-se mais seletivo, e o mercado passou a valorizar eficiência, disciplina financeira e capacidade de execução com intensidade maior do que em ciclos anteriores.

O varejo brasileiro continuará oferecendo oportunidades relevantes, mas sob critérios diferentes daqueles que marcaram o último ciclo. O crédito ajudou a construir parte importante desse mercado; a próxima fase, porém, tende a premiar menos quem apenas cresce em volume e mais quem transforma escala em rentabilidade, geração de caixa e valor duradouro.

*Silvio Stagni é CEO da Allied Tecnologia, onde atua há quase 10 anos. O executivo passou por companhias de renome, como Motorola, Sony Ericsson e Samsung, onde foi vice-presidente de Consumer Eletronics. Antes de ingressar na Allied, Stagni ocupou a presidência da Lenovo por dois anos e meio.



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