Um estudo recente da Febraban revelou que 80% das instituições financeiras têm o avanço para a inteligência artificial como uma prioridade, assim como a nuvem e a IA generativa, apontadas por 84%. Uma dessas empresas é o Bradesco, o banco aumentou em 22% seus investimentos de tecnologia em 2025, com foco na busca do ganho de produtividade e competitividade.
“Não vamos abrir mão de investir. Vejo a tecnologia como um grande impulsionador da nossa produtividade, da capacidade de entregar muito mais para os clientes, com hiperpersonalização, que já estamos fazendo”, disse o presidente do banco, Marcelo Noronha, durante a divulgação do resultado financeiro de 2025.
Em conversa recente com Mobile Time, Leandro Marçal, diretor de tecnologia do Bradesco, afirmou que a companhia tem avançado no backoffice na modernização de plataformas, como a possibilidade de trafegar dados do mainframe na nuvem. Mas acredita que o principal avanço está no uso de agentes de IA para fazer a engenharia reversa e a tradução moderna de códigos antigos, vide Cobol.
Com o uso da IA agêntica, a engenharia reversa do legado tem tido até 80% de ganho de tempo. Igualmente, o banco tem encontrado um aumento de eficiência na geração de novos códigos de programação (forward engineering, no jargão em inglês) de até 25%. No ciclo todo de legado e forward engineering, o Bradesco tem 20% de ganho de eficiência em desenvolvimento de software.
Nesse projeto, o Bradesco usa a nuvem Microsoft Azure como principal espaço para armazenar e desenvolver as aplicações, a AWS como landing zone para hospedar as aplicações e cargas de trabalho e o Databricks para a arquitetura massiva de dados.
Internamente, a infraestrutura do banco conta com três data centers próprios em Alphaville, Curitiba e Cidade de Deus, além de uma estrutura de backoffice composta por:
- BEX ou Bradesco Engineer Experience – uma plataforma que utiliza a infraestrutura em nuvem para o uso de aplicações pelo engenheiro de dados e software do banco no dia a dia;
- BIATech – Dentro da BEX, a Biatech atua como uma assistente de IA interna para apoiar os profissionais em tarefas como geração de código, checagem de sanidade, testes unitários, avaliação da qualidade de escrita dos códigos.
“Ganhamos tempo com isso. Nós temos observado que o conhecimento nas aplicações está presente nas estruturas de negócios e demais estruturas. A IA generativa não é só da área de tecnologia, mas também da área de negócios. Usamos IA generativa sem se apaixonar pelo hype”, completou Marçal, informando que desde o começo da gestão de Noronha no final de 2023 o Bradesco já contratou 2 mil pessoas na área de tecnologia.
IA no backoffice no C6 Bank
Também em diálogo com esta publicação, o head de tecnologia e inovação do C6 Bank, Gustavo Torres, afirmou que a instituição está adotando a inteligência artificial para acelerar rotinas operacionais e dar mais capacidades aos seus funcionários. Uma jornada que foi construída ao longo de oito anos, com o uso desde machine learning e IA tradicional até IA generativa e agêntica.
Os melhores exemplos que o executivo trouxe são:
- Suporte ao atendimento com um chat interno para auxiliar os atendentes humanos ao validarem a qualidade das respostas em seus cockpits;
- Uso de IA generativa para todos os times internos, como GitHub Copilot e Cursor para desenvolvimento de códigos, e Google Gemini no time business intelligence.
Mas o principal salto no uso da tecnologia foi em uma ferramenta de aceleração de onboarding de clientes PJ, com IA generativa para extrair intenções e ler documentos exigidos na abertura de conta de pessoas jurídica. Com a IA, o processo de aprovação do onboarding caiu de um dia para dez minutos.
No banco digital, o uso da IA generativa começou em 2022 e demorou dois anos de testes de desenvolvimento até começar a explorar as aplicações. Nesse período, o banco optou por mudar de uma parceria com OpenAI e Microsoft para uma arquitetura proprietária que evita o aprisionamento tecnológico (lock-in, no linguajar do setor em inglês) e permite trocar entre diferentes modelos.
“O que notamos desde o princípio é que o modelo evoluiria rapidamente. Por isso construímos uma infraestrutura agnóstica e escalável. Foi uma escolha assertiva pelo avanço dos modelos com valores mais baixo”, disse Torres.
Gerentes de agentes de IA
Pelo lado de quem fornece estrutura aos bancos, o CPO da Matera, Bruno Samora, acredita que esse movimento de adoção da IA na parte interna e administrativa dos bancos ocorre por mudanças na arquitetura de tecnologia bancária. O especialista nota que as instituições financeiras pararam de usar a IA como acessório e passaram a usá-la no centro da operação, o que demandou redesenhar processos inteiros em áreas como concessão de crédito, risco e compliance.
“Estamos vendo uma evolução rápida dos conceitos e da capacidade da IA. Em 12 meses, as plataformas avançaram bem. Antes falamos de assistente para análise, passivo, agora estamos com agentes executando tarefas. Vemos uma evolução muito grande”, disse.
De fato, a pesquisa da Febraban do último mês de junho revelou um crescimento expressivo de 58% no orçamento tecnológico nos últimos cinco anos, com uma previsão de investimento de R$ 50,4 bilhões para o ano de 2026, alta de 8% em relação a 2025.
Para Samora, a primeira parte da IA pode processar mais informações em análise de risco e fraude com mais precisão que o humano. Em um “segundo bloco” estão os assistentes e copilotos que podem ajudar com parte do trabalho e o agente que executa pelo humano e dá escala para tarefas.
Especificamente nesta segunda parte, o CPO da Matera acredita que o futuro está caminhando para profissionais de backoffice que deixarão de ser um operador único para se tornar “gestor de agentes”, o que permitirá um aumento de escala nas operações dos bancos.
Um exemplo recente na direção dessa força de trabalho híbrida é a startup brasileira Tess, cuja plataforma permitiu a construção de mais de 100 mil agentes da IA. Esses agentes têm personalidade, rosto, voz e até nome definido pelo criador. Ou seja, são equipes completas de IA geridas por humanos.
Outro caso híbrido é o da Zup. Marcos Bonas, vice-presidente de engenharia, arquitetura e vendas da companhia, afirma que estão trabalhando no conceito de equipes híbridas, ou seja, os desenvolvedores trabalhando lado a lado com agentes de IA generativa. Como uma empresa que trabalha em projetos de backoffice e modernização de legado em sua maioria, a IA entra como um chassi para reescrever, migrar e escalar as tecnologias, enquanto o profissional valida esse trabalho.
“Nós vemos muitas empresas adotando sem saber como usar. Buscamos garantir governança, guardrails, o uso da IA com melhor custo. Essas três têm o componente que é uso massivo de IA, como a IA para extrair melhor valor para garantir qualidade”, completou Bonas.
Estruturas internas
Samora, da Matera, explicou ainda que saiu na frente quem se organizou bem, como estruturar dados em datalakes, datawarehouse e arquitetura de sistemas: “IA precisa de dados”, disse. “Precisamos de dados, instalação e sistemas que estejam preparados para usar agentes de IA e modelos”, completou.
Já Juan Soto, general manager da Nuvei na América Latina, acredita que a jornada das instituições financeiras “começa pela estratégia, não pela tecnologia”. Atuando junto do projeto da Visa de pagamentos agênticos, o executivo afirmou que as instituições financeiras precisam de dados de qualidade, APIs modernas, identidade forte, governança e responsabilidades bem definidas: “A IA só gera valor quando opera dentro de sistemas confiáveis”, explicou.
Soto também afirmou que as arquiteturas modernas permitem que instituições financeiras adotem novas capacidades de IA sem precisar reconstruir toda a sua estrutura de pagamentos: “Modelos de IA, motores antifraude, roteamento de pagamentos e sistemas de merchants evoluem em ritmos diferentes”, detalhou Soto.
“Uma arquitetura modular permite que cada componente melhore de forma independente, mantendo a confiabilidade que os pagamentos exigem. Essa flexibilidade será cada vez mais importante à medida que o comércio agêntico e os padrões de IA continuarem evoluindo”.




