Bloomberg Opinion — Imagine que você seja o líder do país mais poderoso do planeta e tenha passado um ano e meio provocando praticamente o mundo inteiro. Como o mundo reage?
Com vaias, se o local for a final da Copa do Mundo de futebol no domingo (19). Lá estava o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebendo — bem, tecnicamente recebendo em conjunto com os líderes do Canadá e do México — os torcedores e jogadores da Espanha e da Argentina, potências médias na geopolítica, mas superpotências em campo.
Mas quando Trump saiu de sua sala VIP à prova de balas para entregar o troféu dourado aos espanhóis — e depois tentou, sem jeito, aparecer na foto de comemoração da vitória — o estádio vaiou. Alguns espectadores foram vistos mostrando o dedo do meio para ele. O astro da Espanha, Lamine Yamal, hesitou em apertar a mão do presidente, como se Trump tivesse alguma doença.
Pesquisas e outros indicadores corroboram a atmosfera que se vivia naquele estádio. Na maioria dos 36 países pesquisados pelo Pew Research Center, as pessoas agora veem a China — uma quase-ditadura leninista-maoísta — de forma mais positiva do que os Estados Unidos, o outrora líder do mundo livre.
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O diretor de pesquisa de atitudes globais do Pew conclui que “o mundo está desistindo dos Estados Unidos”. Isso certamente se aplica aos estudantes internacionais, que cada vez mais evitam as famosas universidades americanas e se matriculam em outros lugares. Os EUA sob Trump perderam o brilho.
Em ambientes diplomáticos, é claro, vaias, assobios e gestos obscenos estão fora de questão. Os líderes mundiais se expressam de outras maneiras.
O caso mais notável até agora é o de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá (que estava entre aqueles que se juntaram a Trump no estádio). Em janeiro, ele proferiu um discurso no qual nunca mencionou Trump pelo nome, mas desafiou o mundo a reconhecer o que o Canadá — país que Trump ameaçou anexar — já aceitou: que a transformação dos Estados Unidos de benfeitor internacional em predador significa que “as potências médias devem agir em conjunto, pois, se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio”.
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Potências médias em todo o mundo começaram a fazer exatamente isso, formando parcerias sem os EUA para se reequilibrarem diante da nova ameaça vinda de Washington. Alguns dos pactos emergentes entre países da Europa, Ásia, América do Sul e além assumem a forma de regimes comerciais destinados a protegê-los contra tarifas arbitrárias (como a enxurrada desta semana contra o Canadá) impostas por Trump ou seus sucessores.
Os novos acordos também incluem planos para aumentar os gastos militares e “diversificar” as aquisições de defesa — ou seja, comprar menos armas dos Estados Unidos e mais de outros lugares.
A primeira parte — o aumento dos gastos militares — deve deixar a Casa Branca satisfeita. O governo Trump há muito pressiona os aliados dos Estados Unidos para que deixem de se aproveitar de sua proteção e assumam a responsabilidade por sua própria defesa.
Agora, países como Japão, Coreia do Sul, Polônia e Alemanha estão atendendo ao apelo e se rearmando rapidamente. (É certo que suas motivações têm tanto a ver com as crescentes ameaças de Moscou, Pequim e Pyongyang quanto com as pressões de Washington.)
Mas a segunda parte — a aspiração de declarar independência militar dos Estados Unidos — não era o que a Casa Branca tinha em mente. Nem o movimento geral das potências médias de se distanciarem dos Estados Unidos, o que, com o tempo, poderia significar uma aliança contra o país em instituições internacionais como as Nações Unidas ou outros fóruns.
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Entra em cena Elbridge Colby, um alto funcionário do Departamento de Defesa que se destaca por sua inteligência e amplitude de interesses em um Pentágono que, sob a atual liderança, se mede pela sua virilidade. É claro que todo aquele “alvoroço” sobre o fato de as potências médias se afastarem dos Estados Unidos o incomodou profundamente, pois ele recorreu ao X para alertar todos esses países a não “desperdiçarem tempo, dinheiro e capital político valiosos com uma distração”.
Como Carney não mencionou Trump em seu discurso, Colby não cita Carney, nem qualquer líder estrangeiro. Mas ele rejeita a ideia de um “alinhamento” das potências médias e, especialmente, a noção de que os aliados poderiam adquirir o armamento mais avançado, letal e de ponta em qualquer outro lugar que não fosse os Estados Unidos.
De forma duvidosa, Colby afirma que “Vemos um aumento no desejo de envolvimento com os Estados Unidos, não uma redução. Sob a liderança do presidente Trump, os países não apenas reconhecem o valor do envolvimento americano, como também não podem mais considerá-lo algo garantido.”
Em um aspecto, Colby tem razão: os países aliados da Otan ou da Ásia não podem simplesmente parar de comprar equipamentos americanos. Colby cita o chefe da Força Aérea Alemã, que comentou que “desenvolver nossas próprias capacidades leva tempo. No momento, não temos tempo”. O Kremlin é ameaçador.
França e Alemanha acabaram de confirmar o estereótipo ao cancelarem o que deveria ser seu caça de sexta geração conjunto — porque não conseguiram chegar a um acordo sobre o que ele deveria fazer.
O restante do argumento de Colby, porém, é uma falácia. É justamente porque as potências médias não podem mais dar como certa a liderança dos Estados Unidos — nem mesmo sua boa-fé — que elas devem buscar segurança em outros lugares e entre si.
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Wolfgang Ischinger, diplomata alemão que foi embaixador nos EUA e agora preside a Conferência de Segurança de Munique, colocou a questão da seguinte forma: “Bridge, se você sente que precisa destacar tudo isso publicamente, isso sugere que está começando a compreender corretamente que muitos de seus aliados perderam a confiança na confiabilidade dos EUA. O que restaria dos EUA como superpotência sem a rede global de parceiros e aliados?”
A falha lógica no cerne da política externa de Trump é que ele quer, ao mesmo tempo, livrar os parceiros dos EUA de sua proteção e mantê-los subservientes. Como me disse Rebecca Lissner, uma alta autoridade de segurança nacional do governo Biden, ele está “tentando ficar com o melhor dos dois mundos: assustar os aliados dos EUA para que invistam em sua própria defesa e, ao mesmo tempo, manter sua dependência e deferência em relação aos EUA. Mas não é assim que o mundo funciona.”
O mundo funciona, na verdade, de acordo com a terceira lei do movimento de Newton, segundo a qual toda ação tem uma reação igual e oposta.
Trump passou grande parte de seu primeiro mandato e todo o segundo ofendendo, ameaçando ou humilhando os parceiros tradicionais dos Estados Unidos. (Até mesmo o refinado Colby ameaçou a Santa Sé, entre todos os lugares.) Agora, todos esses países, em prol de sua segurança e dignidade a longo prazo, estão respondendo com planos para um futuro pós-americano. Será um caminho longo e árduo; mas eles vão seguir em frente.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Andreas Kluth é colunista da Bloomberg Opinion. Já foi editor chefe do Handelsblatt Global e redator do Economist.É autor de “Hannibal and Me.”
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