25.5 C
Marília
HomeUltimas NotíciasTaylor Farms atrasou resposta durante surto de parasita nos EUA

Taylor Farms atrasou resposta durante surto de parasita nos EUA

spot_img


Bloomberg — A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) havia pedido desculpas, afirmou a Taylor Farms em uma publicação na rede X. Segundo a empresa, um teste realizado por um laboratório da agência que vinculava seus produtos ao maior surto de ciclosporíase registrado no país em décadas havia resultado em um falso positivo. Além disso, o governo ainda não havia produzido um exame laboratorial que ligasse a alface da companhia ao surto.

A declaração, publicada no domingo, representou uma tentativa incomum de transmitir a impressão de que os reguladores — que haviam afirmado existir evidências significativas ligando a alface americana da Taylor Farms à crise de saúde pública — cometeram erros científicos importantes.

Na terça-feira, a publicação no X foi apagada.

A exclusão ocorreu após uma repreensão da FDA, que negou ter pedido desculpas à empresa. A agência defendeu seu trabalho e explicou que o resultado incorreto do laboratório apenas teria ampliado um recall já existente — ele não isentava a Taylor Farms de responsabilidade. A FDA também procurou esclarecer outras declarações da empresa que especialistas classificaram como enganosas.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

A doença gastrointestinal causada pelo parasita pode provocar diarreia intensa. O surto já infectou milhares de pessoas e levou mais de 300 pacientes à hospitalização.

À medida que o número de casos aumentava, a empresa atrasou, na prática, um recall que acabou gerando confusão entre os consumidores, segundo um funcionário do governo dos EUA que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a comentar conversas privadas. A Taylor Farms fez isso ao contestar a ciência nos bastidores e obscurecer as informações em público, afirmou a fonte.

Na semana passada, um representante da Taylor Farms disse que a empresa se reuniu com autoridades da FDA e da Casa Branca “para discutir a melhor abordagem para garantir a saúde pública”. A companhia se recusou a comentar o caso para esta reportagem.

“Um teste laboratorial produziu um falso positivo para um carregamento de alface da Taylor Farms que estava fora do escopo do recall atual, e a FDA notificou prontamente a empresa após receber esse resultado”, afirmou Emily Hilliard, porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, em comunicado. Ela acrescentou que a correção do resultado não alterou a conclusão da agência.

“As comunicações da Taylor Farms têm sido confusas”, disse Susan Mayne, ex-diretora do então Centro de Segurança Alimentar e Nutrição Aplicada da FDA. “O comunicado de recall talvez seja o mais confuso de que me lembro.”

Quando a FDA vinculou pela primeira vez as operações da Taylor Farms no centro do México a um grande grupo de casos de ciclosporíase em Michigan e estados vizinhos, o conglomerado agrícola perdeu o prazo imposto pelo regulador para tomar providências.

Em algum momento, a Taylor Farms falou diretamente com a Casa Branca e, posteriormente, a FDA e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) foram instados a defender as evidências que sustentavam suas conclusões. Essa troca de posicionamentos manteve o público sem informações por mais 60 horas, segundo o funcionário da área de saúde.

Leia também: Mosca-da-bicheira desafia pecuária dos EUA e intriga especialistas sobre origem

A empresa também divulgou um comunicado preliminar que evitava declarar explicitamente um recall da alface potencialmente contaminada, antes de fornecer mais detalhes diante do aumento do escrutínio. Desde então, a Taylor Farms apagou publicações nas redes sociais que deixaram alguns consumidores em dúvida sobre se a alface que haviam comprado estava, de fato, ligada ao surto.

Fundada em 1995 no Vale de Salinas, na Califórnia, a Taylor Farms — nome comercial da Taylor Fresh Foods — emprega 20 mil pessoas e vende hortaliças nas principais redes de supermercados dos Estados Unidos, além de abastecer restaurantes e outros estabelecimentos do setor de alimentação.

Em seu site, a empresa se define como “a principal produtora global de saladas e alimentos frescos saudáveis” e possui unidades de produção nos Estados Unidos, Canadá e México.

Na quarta-feira da semana passada, representantes do CDC e da FDA entraram em contato com a empresa para discutir o surto. As autoridades haviam entrevistado centenas de pacientes infectados por ciclosporíase em estados do Meio-Oeste americano e identificaram um ponto em comum: muitos dos que sofriam fortes cólicas abdominais haviam comido em restaurantes da rede Taco Bell.

As autoridades federais disseram aos representantes da Taylor Farms que acreditavam que a origem do surto era a alface americana fornecida pela empresa a unidades do Taco Bell nos estados de Indiana, Kentucky, Michigan, Ohio e Virgínia Ocidental. O grande número de pacientes que relatou ter feito refeições na rede de comida mexicana convenceu os investigadores de que não se tratava de uma coincidência.

Um recall não seria apenas caro — também associaria de forma permanente a Taylor Farms, na mente dos consumidores americanos, à expressão “diarreia explosiva”.

Prazo não cumprido

O governo deu à Taylor Farms um prazo até o meio-dia do dia seguinte para iniciar um recall voluntário, segundo o funcionário da área de saúde. O parasita já havia sido detectado em 34 estados, e as autoridades investigavam com urgência as possíveis fontes da contaminação.

Foi então que a Casa Branca entrou em cena. A processadora de alimentos, sediada na Califórnia, já mantinha vínculos com o presidente Donald Trump.

No ano passado, a Taylor Farms doou US$ 1 milhão a um comitê de ação política que apoia o presidente. O diretor-presidente Bruce Taylor havia participado, poucos dias antes, de um evento com a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, e centenas de executivos do agronegócio, parlamentares e funcionários do governo para celebrar os 250 anos da agricultura americana em Mount Vernon.

O prazo inicial para que a Taylor Farms iniciasse o recall voluntário ou adotasse alguma medida em relação aos produtos — ao meio-dia de quinta-feira — expirou sem qualquer ação.

Leia também: Retorno de praga preocupa pecuaristas no Texas e ameaça recuperação do rebanho dos EUA

Mesmo assim, autoridades das agências de saúde continuaram coordenando um comunicado que planejavam divulgar no fim daquele dia.

Dois funcionários da Casa Branca convocaram uma ligação com representantes da FDA e do CDC, segundo pessoas com conhecimento do assunto. Os assessores pediram que as autoridades de saúde detalhassem as evidências específicas que ligavam o surto à alface e também quiseram revisar os rascunhos dos comunicados que seriam divulgados.

Poucas horas depois, a Casa Branca concordou que as entrevistas com os pacientes apresentavam um quadro claro, disseram as fontes. Em uma reunião interna, os assessores aprovaram a divulgação dos comunicados das agências de saúde pública — embora eles ainda identificassem apenas o Taco Bell como relacionado ao surto, sem citar nominalmente a Taylor Farms.

O Taco Bell se antecipou e divulgou um comunicado. Embora não mencionasse explicitamente a Taylor Farms, afirmou acreditar que “a saúde pública é uma responsabilidade compartilhada entre restaurantes, seus fornecedores e as autoridades, e temos orgulho de sempre agir de forma rápida e proativa para proteger nossos clientes”.

As atualizações das agências sobre o surto só foram publicadas depois das 22h no horário de Nova York — horas após o previsto — e também omitiram o nome da Taylor Farms e qualquer informação sobre um possível recall de seus produtos.

Na semana passada, um representante da Taylor Farms afirmou que a empresa não solicitou que seu nome fosse omitido dos comunicados públicos.

Um funcionário da Casa Branca, falando sob condição de anonimato, descreveu a postura da Taylor Farms como defensiva durante todo o processo e ressaltou que Trump não teve contato direto com a empresa.

Na tarde de sexta-feira, após diversas reportagens associarem a empresa ao surto, a Taylor Farms divulgou um comunicado informando que, com base nas informações fornecidas pela FDA, estava “retirando voluntariamente toda a alface americana proveniente do centro do México”.

A empresa enfatizou que “nenhuma salada ou kit da marca Taylor Farms está associado a este surto” e que nenhum dos kits continha alface americana. Segundo a companhia, o rastreamento realizado pela FDA indicava que uma fazenda independente específica no México era a responsável.

Mas o comunicado apenas levantou novas dúvidas. Ele não reconhecia explicitamente que a alface da empresa estava contaminada, nem classificava a medida como um recall oficial. Também não esclarecia se kits vendidos sem a marca Taylor Farms estavam sujeitos ao problema ou quais produtos os consumidores deveriam descartar.

Posteriormente, a FDA divulgou seu próprio comunicado referindo-se ao caso como um “recall” da Taylor Farms. Horas depois, a empresa publicou uma nova nota anunciando explicitamente o recall de toda a alface americana proveniente do centro do México, incluindo produtos distribuídos em 27 estados sob oito marcas diferentes.

“O comunicado de recall divulgado ao final desse processo é inadequado”, afirmou Mayne.

E, embora a Taylor Farms tenha inicialmente deixado a impressão de que sua alface embalada vendida no varejo não seria incluída no recall, o comunicado posterior indicou que a empresa pretendia retirar também alguns produtos das prateleiras.

Segurança Alimentar

No sábado, o Walmart informou à Bloomberg News que havia retirado quatro tipos de saladas embaladas após receber um comunicado da Taylor Farms. Outras empresas, incluindo a distribuidora de alimentos Sysco, também foram citadas no aviso de recall em meio a uma lista confusa de siglas.

“Por orientação da Taylor Farms, os únicos produtos sujeitos ao recall são produtos processados de alface americana da Taylor Farms provenientes do México, que permanecem indisponíveis para venda ou distribuição”, informou a Sysco em comunicado, acrescentando que notificou seus clientes sobre o recall.

A falta de clareza nas comunicações iniciais da Taylor Farms pareceu evidenciar o quanto um recall representava um risco para uma empresa que sempre construiu sua imagem em torno da segurança alimentar.

Bruce Taylor ajudou a criar o Center for Produce Safety e um acordo estadual de comercialização destinado a padronizar práticas de segurança no setor. A empresa também comercializa um sistema próprio de prevenção de contaminação chamado SmartWash.

Leia também: Não é passageiro: alta de preços de alimentos será cada vez mais comum, diz estudo

A Taylor Farms já havia feito recall de alguns lotes de cebola amarela produzidos em uma unidade no Colorado em resposta ao surto fatal de E. coli, em 2024, associado a hambúrgueres do McDonald’s Corp., que infectou mais de 100 pessoas em 14 estados.

(Foto: Valerie Plesch/Bloomberg)

Qualquer dúvida remanescente parecia ter desaparecido no sábado. Uma amostra de alface americana picada coletada pela FDA durante uma fiscalização direcionada de produtos mexicanos importados de uma unidade da Taylor Farms testou positivo. A alface analisada não fazia parte do recall inicial, indicando que a empresa provavelmente precisaria ampliar a retirada de produtos.

Leia também: CEO da Nestlé encara teste com investidores após recall global de fórmula infantil

No domingo, porém, cientistas federais reconheceram que se tratava de um falso positivo. Especialistas em segurança alimentar afirmam que isso não é surpreendente — a ciclóspora é notoriamente difícil de detectar, e falsos positivos ocorrem com frequência. A empresa aproveitou a admissão para divulgar um novo comunicado afirmando que “a FDA pediu desculpas”.

“Fomos informados de que a FDA cometeu um erro e que este foi um falso positivo. Para deixar claro, neste momento a FDA não identificou um único resultado positivo para Cyclospora em produtos”, afirmou a empresa.

Na segunda-feira, a FDA recorreu às redes sociais para contestar a ideia de que o falso positivo isentaria a Taylor Farms de responsabilidade. Um representante da agência também afirmou a jornalistas que a FDA não apresentou qualquer pedido formal de desculpas à empresa.

Há “dados epidemiológicos contundentes que sustentam o atual recall voluntário da Taylor Farms”, afirmou a agência. A investigação de rastreamento e os dados do surto “continuam convergindo para a alface americana picada proveniente das unidades da Taylor Farms no centro do México”.

“Em todo o período em que estive na FDA, nunca vi tanta desinformação sobre um surto, a ponto de os consumidores estarem tão amplamente confusos”, disse Mayne.

Segundo ela, parte dessa confusão decorreu da comunicação da própria FDA durante o fim de semana, “mas foi realmente agravada pelas comunicações da Taylor Farms, que transmitiram uma mensagem muito diferente daquela que a FDA pretendia comunicar”.

–Com a colaboração de Daniela Sirtori, Skylar Woodhouse e Rachel Cohrs Zhang.

Veja mais em bloomberg.com





Fonte Link

spot_img
spot_img
Fique conectado
16,985FansLike
2,458FollowersFollow
61,453SubscribersSubscribe
Deve ler
spot_img
Notícias Relacionadas
spot_img