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Macaúba e IA: como a Acelen quer resolver o nó do custo no SAF

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Para a Acelen Renováveis, a resposta para o nó do custo do SAF esteve o tempo todo debaixo do nosso nariz. Nascido da empresa de energia criada pelo Mubadala Capital, o braço de biocombustíveis achou na macaúba a solução para o desafio de produzir combustível sustentável de aviação a um custo competitivo frente ao fóssil.

Nativa do Brasil e adaptável a vários biomas, a árvore tem alta produtividade de óleo. E um diferencial: sobreviver ao sertão. Pela resiliência, vem sendo pesquisada em universidades há 40 anos, mas até aqui pouco foi usada com fins econômicos.

Agora, é do esmagamento de seus frutos que a empresa espera tirar sua contribuição para o País protagonizar a oferta de SAF, de olho nas metas de descarbonização.

No auge da capacidade, a Acelen Renováveis almeja produzir 1 bilhão de litros por ano de SAF ou diesel renovável — o HVO, diferente do biodiesel por ter a mesma molécula do diesel fóssil, podendo ser usado nos caminhões sem necessidade de adaptação.

No caso do SAF, a obrigatoriedade inicia em 2027 em vários países. No Brasil, a Lei do Combustível do Futuro fixou a meta de descarbonização do setor aéreo em 1% no primeiro ano, sendo elevada em 1% ao ano até atingir 10%. No mundo, a meta é alcançar 10% de SAF até 2030. Até 2050, o alvo é zerar as emissões.

Para chegar lá, será preciso resolver a equação de custo: hoje, o SAF é ao menos três vezes mais caro do que o querosene fóssil de aviação.

Uma solução definitiva, para além de mandatos e subsídios insustentáveis no longo prazo, exige uma matéria-prima escalável, competitiva e de alta eficiência, disse Victor Barra, diretor de Agronegócios da Acelen Renováveis, ao The AgriBiz. A macaúba, com dez vezes mais produtividade de óleo por hectare que a soja, atende aos requisitos.

Ele lembra que a árvore pode crescer em terras degradadas, das quais o Brasil tem um saldo de mais de 100 milhões de hectares. Com isso, não compete com outras culturas e mitiga críticas a um suposto dilema entre comida e alimento.

Barra estima ainda se beneficiar dos créditos de carbono, uma vez regulado o mercado. O projeto prevê menos 80% emissões de CO2 frente aos fósseis, além da captura de até 60 milhões de toneladas no solo.

Fôlego

Criada em 2023, a Acelen Renováveis vai construir sua biorrefinaria em São Francisco do Conde (BA), vizinha a Mataripe, comprada da Petrobras em 2021.

O capex é de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 7,6 bilhões), com parte do valor financiada por um consórcio de 12 instituições financeiras liderado pelo IFC, do Banco Mundial, e pelo HSBC, e incluindo aportes do BNDES e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). A Acelen Renováveis ainda foi contemplada com R$ 125 milhões em crédito do HSBC, via Eco Invest, para financiar a plantação de macaúba.

Com obras de terraplanagem em andamento e início de operação previsto para 2029, a biorrefinaria vai utilizar óleo de cozinha usado e de soja até 2031, quando os cultivos de macaúba devem produzir frutos. Depois, a previsão é seguir 100% na macaúba.

Os números e ambições não assustam com um controlador do porte do Mubadala Capital. O braço de investimentos de um dos maiores fundos soberanos dos Emirados Árabes Unidos tem mais de US$ 430 bilhões em ativos sob gestão.

Apesar de também estar no negócio de combustíveis fósseis, o Mubadala sinaliza almejar mais polos de renováveis, e o Brasil pode recebê-los. Também fortalece as projeções o fato de 90% da produção já ter sido negociada antes de a operação começar, para clientes nos Estados Unidos, Canadá e Europa.

Na logística, a empreitada tem outro trunfo, o Terminal de Madre de Deus (Temadre), a cerca de 11 quilômetros de Mataripe. Serão construídos dois novos oleodutos, além de uma linha de distribuição elétrica, conexão de gás natural e interligação de água.

Ajuda da genética e da IA

Se do portão para fora o negócio parece azeitado, no campo e na indústria o esforço segue intenso, já que a macaúba requer “domesticação” para ser usada em escala.

Para isso, a empresa criou um centro de pesquisa, o Agripark, em Montes Claros (MG). Inaugurado em agosto de 2025, o local teve investimento de R$ 314 milhões, sendo R$ 258 milhões via BNDES. E opera por meio de parcerias estratégicas com a Embrapa, universidades e centros de pesquisa.

germinação de mudas de macaúba no laboratório da Acelen
Germinação de mudas de macaúba no Agripark, o centro-laboratório da Acelen Renováveis

O lugar pode gerar 1,7 milhão de sementes por mês e abriga o banco de germoplasma e ensaios para melhorar o aproveitamento. Por exemplo: na natureza, apenas 3% dos frutos germinam, mas uma tecnologia com inteligência artificial desenvolvida com a Universidade Estadual de Montes Claros atingiu 85% de germinação. Outra pesquisa tenta transformar a casca da amêndoa em SAF. E um robô reduziu de 40 segundos para 1 segundo o tempo de germinação das sementes.

O Agripark produz 10,5 milhões de mudas por ano, suficientes para 30 mil hectares. O prazo de maturação delas caiu de 90 para 67 dias; depois, vão aos viveiros, perto das fazendas. No centro também foi criada uma extratora para tirar o óleo das sementes. E a empresa está investindo em clonagem; as primeiras podem começar neste ano.

Modelo similar ao da celulose

Na lavoura, o modelo será similar ao de papel e celulose, com produção própria, “para mostrar aos parceiros que temos confiança no projeto”, e de terceiros — cerca de 20% pequenos e médios produtores. “A macaúba será adicional às culturas que eles já têm”, diz Barra.

As primeiras dez famílias participantes devem começar o plantio em 2027, em parceria com a Cooperiachão. O diretor diz que há diálogo com o Sicredi para viabilizar crédito.

A meta é chegar a 144 mil hectares na Bahia e no norte de Minas Gerais, divididos em até cinco hubs, cada um com suas lavouras e estrutura de extração e esmagamento. Até aqui, foram plantados 644 hectares; a ideia é chegar a 2 mil até o fim de 2026.

Em paralelo, a empresa busca certificar a macaúba junto ao Corsia, programa da Organização da Aviação Civil Internacional, para viabilizar a exportação do SAF.



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