Temperaturas altas no Brasil central e chuvas acima da média no sul: o tempo típico do El Niño todo mundo já conhece. Mas em que estados e regiões as previsões devem ser agravadas? E em que meses são maiores as chances de ocorrer episódios como secas, queimadas, vendavais e alagamentos?
Em apresentação nesta quarta-feira durante evento da Mapfre, a MeteoIA, que presta serviços de predição climática para a seguradora, tentou responder a essas e outras perguntas, incluindo o impacto que eventos extremos podem causar ao setor.
Especializada em aplicar inteligência artificial para levantar dados e gerar estatísticas mais precisas e regionalizadas, a empresa fez uma análise sobre os perigos para a soja.
Segundo Gabriel Perez, especialista em ciências climáticas e cofundador da MeteoIA, os modelos sinalizam risco alto de precipitações abaixo da média histórica no Centro-Sul do País. E bem na fase de florescimento do grão, entre novembro e janeiro. “É justamente quando a planta tem maior sensibilidade às chuvas”, afirmou.
Com isso, o score de risco de quebra de safra é mais alto no Mato Grosso do Sul, no noroeste de São Paulo e no norte do Paraná sob o El Niño, que neste ano deve ter intensidade muito forte.
Já outras estimativas são mais difíceis, disse Perez. “Apesar de a gente ter muita certeza sobre o que vai acontecer com a temperatura, é difícil estimar o que vai ocorrer com a chuva, o vento e outros fenômenos atmosféricos, pois depende muito de cada microrregião.”
Feita a ressalva, ele apresentou dados que mostram que o risco de chuvas extremas na região Sul ficou mais provável, tanto em termos de maior precipitação, quanto de uma extensão da janela.
No Rio Grande do Sul, a precipitação adicional em relação à média histórica pode chegar a 90 milímetros, principalmente nos meses de setembro, novembro e dezembro.
Queimadas na primavera
O especialista também mostrou que partes do Centro-Oeste e do Sudeste têm um risco mais elevado de incêndios e queimadas entre setembro e novembro.
“Não dá para cravar se vai pegar fogo ou não, mas a capacidade de o clima favorecer uma pré-disposição a alastrar incêndios nesses meses fica clara nos modelos”, detalhou.
Segundo Perez, o aspecto de temperatura é um entre os quais as previsões com inteligência artificial têm mostrado mais precisão. Os modelos da empresa indicam uma chance de que em 60% do planeta, 2026 seja o ano mais quente da história, pior que 2024.
“No Brasil, isso deve amplificar o uso de ar-condicionado, o que aumenta os riscos de danos elétricos segurados”, complementou. Segundo ele, o perigo será ainda maior na região Sul, onde um eventual aumento de temperatura deve conviver com um risco alto de vendavais.
Perez dimensionou o potencial de danos às seguradoras com os dados do ano-safra 2021/22, a última ocasião em que o El Niño se manifestou de forma muito forte, como estimado neste ano.
“Naquele ano, foram R$ 10,5 bilhões em indenizações. Por isso, é muito importante trazer inteligência para a gestão do risco agrícola, refletindo cenários de incerteza sobre coisas que nunca aconteceram, mas podem vir a ocorrer”, disse.
Segundo Perez, essa e outras previsões têm “entre 70% e 80% de confiança de que vão acontecer”, mas não se controla a atmosfera. “Por isso, como seguradora, o importante é estar ciente dos riscos para preparar equipes de sinistro e ajustar termos de apólices. E, do ponto de vista do produtor, é a chance de contratar um seguro e se planejar.”




