Bloomberg Línea — A startup argentina Calice foi criada inicialmente com foco em edição genética aplicada à agricultura, mas mudou de estratégia ao perceber que empresas do setor demonstravam maior interesse por suas ferramentas de modelagem computacional voltadas às áreas de pesquisa e desenvolvimento (P&D).
Foi então que a startup decidiu encerrar as atividades do laboratório de biologia molecular e passou a concentrar seus esforços no desenvolvimento de uma plataforma de modelagem computacional para o P&D agrícola.
“Percebemos rapidamente, conversando com as empresas do agro, que o modelo computacional despertava muito mais interesse do que a edição genética”, disse Ramiro Olivera, cofundador e CEO da Calice, em entrevista à Bloomberg Línea.
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Agora, após firmar contratos com empresas globais do setor, – a empresa já atendeu Syngenta, Basf e Corteva – mira o Brasil como um de seus mercados prioritários para a nova fase de expansão.
Trajetória acadêmica
Olivera e Esteban Hernando, também cofundador e CSO da empresa, são biotecnólogos de formação e seguiram caminhos distintos após a universidade.
Olivera conta que iniciou a carreira na biotecnologia animal e trabalhou com clonagem antes de fundar a Calice. Segundo ele, integrou a equipe que realizou a clonagem do primeiro cavalo da América Latina, em 2010.
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Após o que descreve como um sucesso em seu negócio anterior, Olivera voltou a se encontrar com Hernando, que atuava no meio acadêmico e integrava uma equipe multidisciplinar dedicada à pesquisa aplicada ao agro. A partir desse reencontro, os dois fundaram a Calice.
Inicialmente, a empresa pretendia combinar ferramentas computacionais com edição genética no desenvolvimento de cultivos. Mas o contato com potenciais clientes levou a companhia a rever sua estratégia.
Segundo Olivera, empresas do setor demonstravam maior interesse por ferramentas capazes de modelar virtualmente ensaios agrícolas e prever o comportamento de produtos em diferentes condições ambientais do que por tecnologias de edição genética.
Hoje, a Calice concentra sua atuação em modelos computacionais que simulam virtualmente ensaios agrícolas.
A proposta é utilizar dados históricos de experimentos de campo, combinados a informações de clima, solo e manejo, para estimar como sementes, defensivos, produtos biológicos e fertilizantes poderão se comportar em regiões onde ainda não foram testados fisicamente.
Segundo Pablo Romero, COO e CFO da empresa, o foco inicial da empresa foi concentrar a atuação nas áreas de pesquisa e desenvolvimento das grandes companhias do setor, onde acredita ser possível gerar maior impacto para os clientes e ampliar a adoção da tecnologia, em vez de buscar aplicações para toda a cadeia agrícola.
“O gargalo da inovação no agro continua sendo o ensaio de campo”, afirma Romero.
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Segundo ele, o desenvolvimento de uma nova variedade de milho pode levar entre cinco e sete anos, enquanto produtos biológicos e defensivos também precisam passar por diversas safras e ambientes antes de serem lançados comercialmente.
O objetivo da plataforma é utilizar um ou dois anos de dados experimentais para construir modelos capazes de antecipar parte dessas avaliações, reduzindo a quantidade de ensaios físicos necessários para validar o desempenho dos produtos em diferentes regiões.
Além disso, os executivos explicam que a tecnologia empregada pela Calice pode incorporar a variabilidade climática, sobretudo em tempos de aquecimento global e a iminência da chega do El Niño.
Segundo Romero, mesmo programas de experimentação conduzidos durante vários anos podem deixar lacunas importantes porque não capturam toda a variabilidade ambiental que um produto encontrará quando chegar ao mercado.
Os modelos desenvolvidos pela Calice procuram ampliar essa capacidade de previsão ao incorporar diferentes cenários ambientais às simulações.
Atualmente, a Calice mantém contratos ativos com empresas globais do agronegócio com operações no Brasil, Argentina, Estados Unidos, México e Europa.
A companhia conta com uma equipe de 22 pessoas, das quais 20 estão baseadas na Argentina, reunindo profissionais das áreas de direção, produto, engenharia, biotecnologia, pesquisa, marketing e comunicação. A estrutura inclui um diretor no Brasil, Mauricio Garcia, que acumula passagens por empresas como Monsanto, KWS Sementes, TMG e Geneze Sementes, além de outro diretor nos Estados Unidos.
O Brasil figura entre as prioridades da expansão comercial da startup, ao lado dos Estados Unidos.
Segundo os executivos, a escolha dos dois mercados levou em conta a escala de suas produções agrícolas e a estrutura comercial que a Calice conseguiu formar nos dois países.
“Por isso, nosso foco são Estados Unidos e Brasil. Dependendo do ano, o Brasil é o primeiro ou o segundo maior produtor de alimentos do mundo”, disse Romero.
Para o executivo, a empresa também encontrou nesses mercados um caminho mais rápido para ampliar sua atuação, apoiada pelas equipes comerciais locais e pelas experiências já desenvolvidas com clientes.
A expectativa da Calice é que Brasil e Estados Unidos ganhem mais peso nos negócios nos próximos anos.
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“Eu penso que esse crescimento vai ser muito mais forte nos Estados Unidos e no Brasil do que na Argentina”, afirmou Romero.
“Acho que Brasil e Estados Unidos vão caminhar de forma bem parecida em termos de crescimento, pelo menos essa é a nossa projeção”.
Futuro dos negócios
O CEO da Calice disse que a meta da empresa é transformar a modelagem computacional em uma ferramenta amplamente utilizada no desenvolvimento de produtos para o agronegócio. Segundo Olivera, a ambição é consolidar a startup como uma das principais referências nesse segmento.
Questionado sobre um eventual processo de consolidação no setor, o executivo afirmou que uma aquisição por uma grande companhia é um cenário possível no futuro, mas ressaltou que esse não é o foco da empresa neste momento.
“Hoje nosso foco é garantir que eles [as grandes companhias] percebam o valor que a gente agrega e que também percebam que o que nós fazemos é único”, disse.
Segundo Olivera, a Calice já gera receita com contratos comerciais, mas continua buscando capital para acelerar o desenvolvimento da tecnologia e a expansão internacional.
“Hoje nós temos receita própria, mas a velocidade que nós queremos ter para construir mais tecnologia ainda e crescer mais rápido nos motiva a continuar procurando dinheiro do investidor”, afirmou.
O executivo disse que a empresa deve buscar uma nova rodada de investimentos em breve, que tende a ser maior do que a anterior. A companhia, no entanto, não divulga valores nem um cronograma para a captação.
No ano passado, a Calice captou US$ 2,5 milhões para expandir sua atuação no Brasil e nos EUA.
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