O analista sênior de pesquisa da Omdia Jusy Hong acredita que o “inverno está chegando” (winter is coming, no original em inglês) para o mercado de smartphones. Em live realizada na noite da última quinta-feira, 23 , o especialista afirmou que a crise da falta de memórias vai provocar um aumento exponencial no preço médio dos dispositivos a partir do segundo semestre deste ano.
Esse aumento acontece pelos preços das memórias subirem mais de 200% no primeiro trimestre de 2026. Agrega-se a este cenário uma queda de 4% no mercado global de smartphones no segundo trimestre e a demanda por memória (em RAM e armazenamento) crescendo pelo uso de aplicativos com IA e pela manutenção de suas fotos nos handsets.
Atualmente, o preço médio do smartphone globalmente está em US$ 577.
Remanejando os custos de smartphones

Jusy Hong, analista da Omdia, explicando em painel a dinâmica de preços em memórias (reprodução: Omdia)
Por sua vez, Zaker Li, analista principal de smartphone da Omdia, afirmou que o custo da memória está esmagando o custo de produção dos smartphones, ao ponto de custar 70% do valor de um device abaixo de US$ 400. Com isso, Li afirmou que smartphones abaixo de US$ 200 não conseguirão cobrir os custos de fabricação.
Mas há margem para fazer manobras visando mitigar o impacto das memórias, como:
- Trocar telas Amoled LTPS por LTPO para reduzir até US$ 5 no custo de fabricação;
- Smartphones intermediários e de entrada com sensores menores de imagem ou adiando uma evolução para modelos mais avançados em zoom óptico e processamento de imagem;
- Usar chipsets de gerações anteriores pode reduzir o preço do device em até 40%.
Hong explicou que os novos smartphones abaixo de US$ 400 estão chegando com downgrade de memória RAM e armazenamento. Mas os smartphones premium (acima de US$ 800) seguem recebendo mais memória. Também explicou que o ultrabásico (até US$ 100) fica impossível de fabricar em uma configuração que hoje seria básica: 4 GB de RAM e 64 GB de espaço. Com isso, a oferta deste segmento deve ficar bem reduzida nos próximos dois anos, até uma estabilização das cadeias de suprimento que hoje estão priorizando memórias para placas e servidores de inteligência artificial.
Li reforçou que o foco das fabricantes de smartphones será nos intermediários e high-end, pois a margem de lucro é melhor, e vão capitalizar com a inflação para aumentar seus preços. Em uma “segunda curva de lucro”, o especialista prevê um redirecionamento estratégico para produtos móveis com baixo consumo de memória, como earbuds, smartwatches e dispositivos de IoT doméstico, assim como descontos em reparos de celular (bateria, tela, vidro traseiro) e planos de seguros mais baratos.
IA e consolidação nos handsets


Custo médio de produção de smartphone e impacto da memória em cada categoria (reprodução: Omdia)
Durante a call na última quinta-feira, Hong respondeu à plateia virtual sobre uma possível entrada de OpenAI ou Anthropic no segmento de handsets. Apesar dos rumores estarem ganhando força, o especialista afirmou que não há evidências de fabricação com parceiros da cadeia de suprimentos no momento.
Porém, o executivo acredita que este seria “o momento ideal” para as plataformas de IA lançarem seus dispositivos, desde que tragam uma nova experiência nativa e fluída de uso baseada em IA agêntica e em suas plataformas, no lugar do modelo atual com o hardware da plataforma de IA conectando desenvolvedores para realizar essas tarefas.
Um outro tema abordado foi uma possível consolidação no mercado de smartphones. O analista sênior de pesquisa da Omdia explicou que as seis marcas principais dominam 80% do mercado e não devem se juntar, ao menos em curto prazo. Mas reconhece que submarcas (Realme, Nubia, Oppo) voltaram para o guarda-chuva de suas matrizes em uma tentativa de racionalizar custos.
Porém, as marcas menores, que atuam em nichos, correm o risco de sair do mercado, prevê o analista.
Imagem principal dos executivos da Omdia, da esq. para dir.: Jusy Hong, celulares; Ishan Dutt, PCs; Ben Yeh, PCs; Zaker Li, handsets; Himani Mukka, PCs (reprodução, Omdia)




