No dicionário de personalidades do cinema brasileiro, o apelido Barretão tinha dois significados distintos: de admiração e de reservas. Luiz Carlos Barreto, talvez a figura mais influente da história do audiovisual no país, falava pouco e fazia muito. Fotógrafo, roteirista e produtor, também se destacou como articulador político do setor, o que lhe rendeu alguns desafetos e algumas controvérsias.
Poucas pessoas, no entanto, tiveram tanta capacidade de transformar ideias em movimento e filmes em patrimônio cultural. Ao morrer na quarta-feira, 22 de julho, aos 98 anos, deixa um legado que ultrapassa os filmes que ajudou a criar. Foi uma das forças que transformaram a produção brasileira em uma indústria com projeção internacional. “O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil”, costumava dizer.
Ao longo de 60 anos de carreira, Barreto esteve presente nos momentos mais decisivos do audiovisual no país — do Cinema Novo à retomada dos anos 1990 — acompanhando as mudanças estéticas, políticas e industriais que moldaram a evolução do setor nas últimas décadas.
Ao lado de sua esposa, Lucy Barreto, fundou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas. A empresa esteve à frente de mais de 80 produções e coproduções. Suas obras conquistaram prêmios em festivais como Cannes e Berlim, além de duas indicações ao Oscar, com O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).
A trajetória de Barreto inclui ainda trabalhos fundamentais para o cinema nacional, como Terra em Transe (1967), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), Bye Bye Brasil (1979), Inocência (1983), e Memórias do Cárcere (1984).
Cearense de Sobral, Barreto teve seu primeiro contato com o cinema ainda menino, no início dos anos 1940. Na ocasião, o cineasta americano Orson Welles, de Cidadão Kane, veio ao Brasil gravar o documentário (jamais concluído) É Tudo Verdade. Em uma de suas andanças pelo país, foi ao Ceará registrar a saga de quatro jangadeiros.
“Eu nem sonhava, tinha 12 anos de idade. Eu ia tomar meu banho de mar e, daqui a pouco, chega aquela equipe de gringos e se instala ali”, contou no programa Conversa com Bial. “Eu fiquei olhando, encantado.”
Sua trajetória profissional, porém, começou longe dos sets. Nos anos 1940 e 1950, Barreto trabalhou como fotógrafo em importantes jornais e revistas cariocas, como O Cruzeiro. Em 1958, ele foi escalado para cobrir a Copa do Mundo na Suécia. No momento da premiação, para fazer a imagem, gritou para o capitão da seleção brasileira: “Bellini, levanta a taça”.
O zagueiro ergueu o troféu acima da cabeça. E a fotografia feita por Barreto ajudou a popularizar um gesto que, desde então, se tornou tradição nas comemorações esportivas em todo o mundo.
A luz que destrói a plantação
A chegada ao cinema aconteceu pela amizade com o produtor Herbert Richers. “Eu e Herbert nos conhecíamos há muito tempo; fizemos muitas reportagens juntos para veículos diferentes. Ele trabalhava em cinejornais e eu era fotógrafo da revista O Cruzeiro”, contou Barreto ao autor deste texto, nos anos 2010. “No momento em que resolvi fazer cinema e fui trabalhar com Roberto Farias, ele e Herbert já tinham começado a fazer filmes juntos.”
Assim, em 1962, ele assinou o roteiro e a coprodução de Assalto ao Trem Pagador.
Na mesma época, em uma viagem à Bahia como fotojornalista, Barreto conheceu Glauber Rocha. Do encontro, surgiu uma amizade profunda e uma parceria histórica — que revolucionaria a estética do Cinema Novo. O cineasta baiano sugeriu que ele assumisse a fotografia de Vida Secas, o clássico de Nelson Pereira dos Santos.
Segundo o cineasta baiano, os filmes mostravam o Nordeste como “um jardim”. Pela cartilha de Hollywood, a luz deveria ser controlada, com filtros para suavizar rostos, equilibrar contrastes e realçar elementos estéticos.
No início, Barreto relutou. Dizia que só sabia fotografar com sua Leica. Acabou aceitando o desafio e fez da luz “um personagem que destrói a plantação, que incomoda o homem”, como lembraria em entrevistas mais tarde.
Nascia, assim, a estética da “luz crua”, uma das marcas visuais do Cinema Novo. Mais tarde, Barreto também faria a fotografia de Terra em Transe (1967), de Glauber.
Herdeiro do espírito crítico do Cinema Novo, Barreto manteve uma atuação política no setor cultural, defendendo mecanismos de financiamento e a construção de uma indústria cinematográfica brasileira.
A partir da década de 1970, ajudou a profissionalizar a produção nacional ao consolidar um modelo empresarial para o cinema e se tornou um dos principais articuladores das políticas públicas para o setor, incluindo a Embrafilme, criada pelo regime militar.
Embora a origem da estatal fosse controversa, Barreto via nela uma ferramenta fundamental para financiar, distribuir e dar escala ao cinema brasileiro. Mais do que produzir filmes, sua ambição era criar as condições para que uma indústria existisse — e fosse capaz de unir qualidade artística, reconhecimento internacional e sucesso de público, uma equação que permanecia como desafio desde o fracasso da experiência da Vera Cruz, nos anos 1950.
Barreto foi muito criticado. Seus opositores afirmavam que sua proximidade com governos e dirigentes do setor favorecia prioritariamente a própria produtora L.C. Barreto. Ele sempre negou qualquer privilégio. Por outro lado, nunca escondeu sua atuação política e negociava diretamente com ministros e presidentes para impedir cortes em incentivos ao cinema.
Admiradores viam isso como liderança institucional. Adversários enxergavam ali excesso de influência daquele que se tornou, sem dúvida, o mais poderoso produtor do cinema brasileiro.
Cultura, identidade e resistência
A maior polêmica de sua carreira surgiu com a produção da cinebiografia Lula, o Filho do Brasil, dirigida em 2020 por Fábio Barreto, seu filho. O longa foi acusado por parte da crítica e da oposição de funcionar como propaganda política do então presidente — sobretudo porque foi lançado no último ano de seu primeiro mandato.
Também surgiram questionamentos sobre o financiamento da produção, orçada em cerca de R$ 17 milhões. Barreto disse que evitou recursos diretos do governo justamente para afastar suspeitas de interferência política, embora persistissem críticas quanto ao apoio de grandes empreiteiras.
Comercialmente, o longa ficou muito abaixo das expectativas, enfraquecido pela exposição negativa na imprensa e nas redes sociais — em um momento de início da polarização política no país.
O último filme de ficção para o cinema produzido por Barreto foi João, o Maestro, dirigido por Mauro Lima e lançado em 2017. O filme narra a trajetória do pianista e maestro João Carlos Martins. Barreto manteve, assim, a tradição da L.C. Barreto de adaptar histórias brasileiras de grande alcance.
O filme reúne características marcantes da obra de Barreto: produção sofisticada, tema ligado à cultura nacional, apelo popular e preocupação com a memória de grandes personagens brasileiros.
Nos anos seguintes, a produtora se concentrou principalmente em trabalhos para a televisão e documentários. Seu último crédito como produtor foi a série documental Escravidão — Século XXI (2021), exibida pelo Canal Brasil, dirigida por Bruno Barreto, seu filho.
Apesar da saúde fragilizada, Barreto manteve a lucidez e continuou participando do debate sobre os rumos do cinema brasileiro. A partir de 2024, seu quadro clínico se agravou após uma queda durante uma viagem ao Ceará.
Com a mobilidade reduzida, praticamente deixou de aparecer em eventos públicos. Afastado dos sets, manteve, porém, intensa participação nas decisões da produtora.
A cada obra produzida, ele reafirmava: contar histórias brasileiras era um ato de cultura, identidade e resistência. Com essa convicção, Barretão fez do cinema brasileiro um patrimônio — admirado dentro e fora do país.




