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A “maioridade digital” está ganhando destaque global, com países como França, Austrália e Reino Unido implementando restrições ao acesso de menores a redes sociais.
Essa movimentação surge em resposta a preocupações sobre os impactos negativos das redes sociais na saúde mental de jovens, evidenciados por um aumento de transtornos mentais nessa faixa etária.
A maturação do cérebro, que continua por anos, exige experiências do mundo real, e a substituição dessas vivências por interações virtuais pode comprometer o desenvolvimento social e emocional.
Embora haja argumentos contra a restrição, como a limitação de acesso à informação, os benefícios incluem um desenvolvimento cerebral mais saudável e menos exposição a riscos virtuais.
A reflexão sobre os valores que queremos para a sociedade é essencial para guiar o uso da tecnologia e das redes sociais.
Por Nina Ferreira.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Na busca por um ambiente virtual mais controlado, a ideia de uma “maioridade digital” ganha força no mundo. Na terça-feira, 21 de julho, a França tornou-se o primeiro país da União Europeia a proibir o acesso de menores de 15 anos a aplicativos e redes sociais.
A Austrália foi pioneira ao aprovar, em dezembro de 2025, uma lei que restringe o uso dessas plataformas por crianças e adolescentes. No Reino Unido, legislação semelhante deve entrar em vigor no início de 2027, enquanto Espanha, Dinamarca, Noruega e Turquia também estudam iniciativas na mesma direção.
No Brasil, a criação do ECA digital em 2025/2026 estabeleceu uma série de regras que visam a proteger usuários menores de idade, como a verificação de idade e vinculação de conta das crianças a usuários adultos. Diante da iniciativa dos governos de legislar sobre um tema tão sensível, surgem algumas perguntas.
Por que esse movimento de ações regulatórias neste momento?
Temos visto na mídia do mundo todo inúmeras notícias sobre prejuízos do uso das redes sociais no desenvolvimento neurológico, psicológico e social dos jovens. Tal fato ressoa, aos nossos ouvidos como sociedade, como um grave problema de saúde pública.
Se pensamos que crianças e adolescentes de hoje serão os adultos econômica e socialmente ativos do futuro, é natural que essa percepção gere insegurança, angústia e, até mesmo, desesperança.
Esse cenário apresenta-se ainda mais alarmante quando dados de pesquisas científicas evidenciam um importante aumento de casos de transtornos mentais e emocionais em indivíduos com menos de 18 anos.
Nesse contexto, a pressão da sociedade instiga os governos a atuarem de forma mais objetiva, culminando na elaboração de ferramentas legais que possam vir a conter o esgarçamento da saúde mental do tecido social — presente e futuro.
Existem motivos reais para preocupação?
Do ponto de vista neural, o cérebro humano permanece em intenso desenvolvimento por muitos anos depois do nascimento. A construção de uma personalidade capaz de regular emoções, controlar impulsos, planejar ações, estabelecer vínculos afetivos e tomar decisões depende desse longo e complexo processo de maturação.
A maturidade necessária para que uma pessoa atue de forma segura e autônoma ao longo da vida demanda a vivência saudável de diferentes etapas de desenvolvimento biológico, psicológico e social.
Atualmente, a ciência compreende que as crianças e adolescentes necessitam de rotina adequada de sono, alimentação e atividades físicas como base essencial para a formação adequada do corpo e do cérebro.
Ademais, são necessários estímulos e treinamentos para construção de redes neurais que constituirão os padrões emocionais, cognitivos e comportamentais a serem usados ao longo de toda a vida.
“Precisamos admitir que não há escolhas sem concessões e perdas”
Precisamos lembrar que nosso cérebro evoluiu em um ambiente muito diferente do universo digital. Assim, o uso intensivo de redes sociais impõe novos desafios ao seu funcionamento, particularmente durante o neurodesenvolvimento. É natural, portanto, que haja distorções ao longo desse caminho.
A ciência ainda não dispõe de evidências conclusivas para afirmar que o uso de redes sociais seja a causa de transtornos mentais e emocionais na infância e na adolescência. Os estudos, porém, apontam uma associação entre a exposição a essas plataformas e o aumento do sofrimento psíquico nessa faixa etária.
Um fator agravante é a substituição do tempo dedicado às experiências do mundo real pela permanência no ambiente virtual.
A redução das oportunidades de brincar, conviver com outras pessoas, enfrentar conflitos, desenvolver tolerância às frustrações e exercitar a paciência compromete a formação da personalidade e das habilidades sociais, com consequências para o indivíduo e para toda a sociedade.
Adultos formados a partir desse contexto correm mais risco de manifestar problemas de saúde mental, além de dificuldades de funcionalidade e inserção social. Por isso, preocupar-nos, enquanto sociedade, com esse tema é não apenas cabível, mas necessário — e profundamente realista.
Leis que limitam o acesso das crianças e adolescentes ao universo virtual valem a pena?
Se considerarmos os impactos negativos associados ao uso precoce e intenso das redes sociais por crianças e adolescentes, os benefícios de restringir esse comportamento tornam-se evidentes.
Entre as principais consequências estão: menor interferência no desenvolvimento cerebral, mais tempo para o fortalecimento de funções cognitivas e habilidades sociais, menos exposição a comparações irreais, redução dos riscos de assédio e violência virtuais e mais oportunidades de vivenciar plenamente o mundo real.
Há quem argumente problemas nesta defesa, como redução das possibilidades de acesso a informações ou de contato virtual com familiares e amigos. Precisamos admitir que não há escolhas sem concessões e perdas.
A questão crucial sobre a qual devemos refletir enquanto comunidade é: que tipo de sociedade valorizamos e queremos construir? Que características, habilidades e formas de interação humana consideramos indispensáveis para sustentar o funcionamento da vida coletiva?
Sem clareza dos valores e princípios que nos guiam, a confusão sobre o papel das redes sociais e da tecnologia em nossa vida cotidiana é uma consequência natural. Então, precisamos definir: o que há de mais precioso para nós como sociedade?
* Nina Ferreira é psiquiatra e psicoterapeuta, sócia-fundadora da clínica LuxVia, em São Paulo, criadora do aplicativo Clube Potente Mente e autora do livro Sinto Muito!




