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Em “Incorruptible”, ainda inédito no Brasil, Eric Ries, criador do movimento “lean startup”, investiga por que empresas admiradas acabam abandonando os princípios que as tornaram bem-sucedidas.
A reflexão surgiu após uma conversa com um pesquisador que desenvolvia uma inteligência artificial capaz de revolucionar a medicina, mas que temia ver sua criação usada para fins destrutivos.
Para Ries, o maior risco não está apenas na tecnologia, mas nas estruturas que permitem que organizações sejam capturadas por interesses de curto prazo.
O autor chama esse processo de “corrupção” e argumenta que muitas empresas fracassam não por perder competitividade, mas por sacrificar valores, cultura e relacionamentos em busca de ganhos imediatos. Casos como FedMart, Polaroid e Sears ilustram essa dinâmica.
A partir de sua experiência como empreendedor e da criação da Long-Term Stock Exchange (LTSE), Ries defende a construção de empresas “mission-locked”, protegidas por mecanismos de governança capazes de preservar sua missão ao longo do tempo.
A tese central é que criar algo valioso não basta: é preciso desenvolver estruturas institucionais que impeçam sua degradação.
Para ele, negócios duradouros conciliam propósito, rentabilidade e integridade, protegendo aquilo que os tornou relevantes desde o início.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Em 2018, à beira de concluir uma inteligência artificial capaz de redefinir o futuro da medicina, um pesquisador procurou o empreendedor e autor Eric Ries, criador da metodologia lean startup — um dos pilares da cultura de inovação do Vale do Silício.
A IA deste pesquisador serviria para projetar medicamentos contra o câncer, o Alzheimer e até doenças com potencial pandêmico. A promessa era revolucionária. O pesadelo também.
Nas mãos erradas, a tecnologia poderia ser usada no desenvolvimento de uma arma biológica ou de uma praga contra a qual não teríamos nenhuma defesa. “Acho que estou prestes a estragar tudo”, disse o professor. Aquilo não era ficção científica, observou Ries.
O medo não era tecnológico, mas institucional: o de ver uma descoberta criada para salvar vidas transformada em instrumento de exploração por uma organização sem ética, princípios ou responsabilidade.
A partir daquela conversa, Ries construiu a tese que atravessa seu novo livro Incorruptible: Why Good Companies Go Bad and How Great Companies Stay Great (Incorruptível: Por que boas empresas se tornam ruins e como as grandes continuam sendo grandes, em tradução livre).
Ainda inédita no Brasil, a obra lança uma pergunta inquietante: por que organizações admiradas acabam traindo justamente os princípios que as tornaram bem-sucedidas?
Ries rejeita a ideia de que o problema esteja apenas em líderes ruins ou investidores gananciosos. Existe, segundo ele, uma força estrutural que captura companhias bem-intencionadas.
A galinha dos ovos de ouro
“Quanto mais valiosa é a galinha dos ovos de ouro, maior é a tentação de abatê-la”, diz ele. “Estamos todos a uma aquisição, um IPO ou uma reunião do conselho de assistir a algo que amamos se transformar em algo que odiamos.”
Definir essa mudança como “desvio de missão” ou “burocracia” seria eufemismo, afirma o autor. “Eu chamo isso por um nome simples, antigo: corrupção”, define.
O lucro é condição para a sobrevivência da empresa, mas não deve ser o único critério a orientar as decisões de seus dirigentes. Para Ries, também importa como o retorno financeiro é obtido.
“Nem toda forma de ganhar dinheiro é igualmente boa”, escreve. Segundo ele, “a realidade do nosso sistema financeiro contemporâneo é que ele oferece inúmeras maneiras de ganhar dinheiro sem criar valor algum”. A missão, argumenta, precisa estar incorporada à própria arquitetura da companhia.
Conselhos de administração, direitos de voto, estrutura societária e cultura corporativa passam a funcionar como mecanismos de proteção contra desvios de rumo. As que conseguem preservar seus “ovos de ouro”, Ries batizou de empresas mission-locked.
O NeoFeed selecionou algumas das histórias mais emblemáticas apresentadas em Incorruptible.
Na Novo Nordisk, por exemplo, o desenho da estrutura de propriedade foi pensado para preservar a companhia dos interesses financeiros imediatos.
O controle da farmacêutica dinamarquesa cabe à Novo Nordisk Foundation. Criada em 1924, a fundação filantrópica detém as ações com maior poder de voto. O modelo mantém a companhia alinhada à missão de apoiar avanços na saúde por meio da pesquisa, da inovação e do desenvolvimento sustentável — combinando missão de longo prazo com controle estratégico.
Enquanto a Novo Nordisk protege sua missão por meio da estrutura societária, a Anthropic aposta na governança como mecanismo de proteção de seus princípios.
Criada em 2021 em São Francisco, a empresa nasceu com o compromisso de desenvolver uma IA segura para a sociedade. Para tanto, foi constituída como uma Public Benefit Corporation, modelo jurídico que permite incluir propósitos públicos aos estatutos das companhias. Nesse formato, a missão deixa de ser apenas uma declaração de intenções e passa a contar com proteção institucional.
Já com a Costco, Ries reforça um de seus argumentos mais contundentes: proteger a missão de uma empresa não significa abrir mão de sua rentabilidade. A rede americana de clubes de descontos nasceu em 1983 e construiu um modelo baseado em escala, eficiência operacional e receitas recorrentes.
A combinação permite à marca manter margens reduzidas, investir em funcionários, preservar preços competitivos e priorizar a confiança dos clientes.
O famoso combo de cachorro-quente e refrigerante vendido por US$ 1,50 tornou-se símbolo dessa filosofia. Mesmo com o aumento dos custos ao longo das décadas, desde 1985, a empresa manteve o preço do lanche como uma promessa ao consumidor — uma decisão que, embora pouco relevante isoladamente para o faturamento, reforça a percepção de valor da empresa.
Além de Novo Nordisk, Anthropic e Costco, Ries cita no livro outras tantas companhias, como Patagonia, Vanguard, Whole Foods e John Lewis Partnership, para mostrar que existem diversas maneiras de proteger a missão e a visão de longo prazo sem comprometer o bom andamento dos negócios.
Quando a missão se perde
A ausência dessa blindagem, no entanto, ajuda a explicar por que algumas empresas sucumbem ao próprio crescimento, abandonando justamente aquilo que as tornou especiais.
Um dos exemplos mais contundentes apresentados por Ries é o da FedMart, rede americana de lojas de descontos fundada em 1955 por Sol Price — aliás, fonte de inspiração para gigantes como a Costco e a Walmart.
A empresa prosperou colocando os clientes e os funcionários antes dos acionistas, com margens reduzidas, salários acima da média e padrões éticos rigorosos. Depois de vinte anos, para expandir o negócio, Price vendeu o controle da companhia. Os novos donos, porém, retomaram antigas práticas de gestão. Sete anos depois, a FedMart fechou.
Não faltam casos em que a identidade e valores construídos ao longo de décadas entraram em conflito com pressões financeiras e mudanças de controle — corroendo ativos intangíveis, como confiança, reputação e lealdade. Ries lembra da Polaroid, da Cadbury, da Toys “R” Us e da Sears, entre outras.
A preocupação de Ries com os desafios enfrentados pelas empresas inovadoras acompanha seus 20 anos de carreira, nos quais vem trabalhando ao lado de empresários, CEOs e investidores.
Em 2011, ao lançar A startup enxuta: Como usar a inovação contínua para criar negócios radicalmente bem-sucedidos, tornou-se uma das principais referências do empreendedorismo contemporâneo. A obra popularizou conceitos como produto mínimo viável (MVP, na sigla em inglês), ciclo construir-medir-aprender e pivotagem.
“Mas eu não consegui antecipar o que veio depois”, admite Ries. “Ensinei as pessoas a criar algo que valesse a pena proteger, mas não como protegê-lo.”
O autor acreditava ter encontrado essa proteção com a Long-Term Stock Exchange (LTSE). Aprovada pela SEC em 2020, a bolsa foi concebida para estimular práticas de longo prazo, em vez da busca por resultados financeiros imediatos.
“Mas eu estava errado”, escreve. A LTSE, sozinha, não seria suficiente.
As empresas não protegem seus maiores ativos apenas maximizando lucros. É preciso estruturar sistemas que as mantenham ancoradas em sua missão, evitando que sua essência se dilua à medida que crescem.




