Enfim uma boa notícia para os frigoríficos nos Estados Unidos. Os americanos poderão voltar a importar gado do México, aliviando parte da severa escassez de animais para abate que vem derrubando as margens dos frigoríficos.
Não à toa, as ações da JBS dispararam 10% em Nova York, enquanto a Tyson sobe quase 7%. Na B3, os papéis da MBRF, que é dona da americana National Beef, subiam 5,5%.
Na sexta-feira à noite, o USDA informou que as importações de gado mexicano poderão ser retomadas em fases. O primeiro porto autorizado a importar foi Douglas, no Arizona, a partir de 24 de agosto.
Historicamente, o gado mexicano representa cerca de 4% dos abates de bovinos nos Estados Unidos, o equivalente a 1,2 milhão de animais por ano. As importações estavam suspensas desde 2025, quando casos do parasita New World Screwworm — que no Brasil tem sido chamado de bicheira-do-Novo Mundo — começaram a aparecer no México.
“A medida não resolve o déficit estrutural criado por anos de liquidação do rebanho norte-americano, mas é a única fonte incremental de oferta de gado antes que o início da reconstrução do rebanho nos EUA comece a se traduzir em maior disponibilidade de animais”, disseram os analistas Henrique Brustolin e Giovanni D’Ottaviano, do Bradesco BBI, em relatório nesta segunda-feira.
“Isso importa ainda mais hoje, com os frigoríficos operando com margens historicamente baixas”, acrescentam os analistas, que fazem uma ressalva: para alterar a disponibilidade de gado nos EUA de forma significativa, outros portos precisam reabrir.
Abertura gradual
Segundo o relatório do Bradesco BBI, o porto de Douglas, no Arizona, respondia por cerca de 15% das importações de gado mexicano antes da suspensão.
Os portos de Santa Teresa e Columbus, no Novo México, são muito mais relevantes, respondendo por cerca de 52% das importações. Embora medidas operacionais estejam sendo adotadas para reabrir esses dois portos, o USDA ainda não informou quando isso deverá ocorrer, o que será fundamental para entender a rapidez com que a oferta de gado nos EUA poderá se recuperar, afirmam os analistas do Bradesco BBI.
A reabertura apenas de Douglas acrescentaria cerca de 180 mil cabeças ao abate dos EUA por ano, em um ritmo normalizado, segundo o Bradesco. Esse volume elevaria a taxa de utilização de capacidade dos frigoríficos em apenas um ponto percentual.
Atualmente, a indústria americana estaria operando perto de 80% de sua capacidade, um patamar considerado baixo historicamente, mesmo considerando o fechamento recente de algumas plantas.
Impacto só em 2027
Além disso, o impacto inicial deve ocorrer nos confinamentos, e não no abate. Segundo o Bradesco BBI, quase todo o gado mexicano importado pelos EUA consiste em bezerros ou animais de recria destinados a sistemas de pastagem ou confinamento, em vez de animais prontos para o abate.
Portanto, a reabertura deve afetar primeiramente a disponibilidade de animais de reposição e a entrada de gado nos confinamentos, com um aumento mais expressivo na oferta para abate ocorrendo apenas alguns meses depois.
“Acreditamos que o benefício para o setor de abate deve permanecer relativamente limitado em 2026, tornando-se mais significativo ao longo do primeiro semestre de 2027”, dizem os analistas. Por isso, concluem, o efeito nos resultados dos frigoríficos deve ser mais gradual do que inicialmente possa parecer.
“A JBS deve ser a primeira a se beneficiar, dada a sua exposição no Arizona, mas um ganho expressivo tanto para a JBS como para a MBRF depende da reabertura de Santa Teresa e Columbus”, dizem os analistas.
Com a reabertura desses dois portos para o gado mexicano, o quadro de oferta ficaria muito mais confortável, elevando a taxa de utilização de capacidade para 83%. “Isso ajudaria as margens a se recuperar dos níveis baixos atuais, embora a disponibilidade de gado doméstico deva continuar diminuindo à medida que os produtores retêm mais animais para recompor o rebanho.”
O desempenho dos preços do gado no mercado futuro americano reflete o tom do relatório dos analistas do Bradesco: a notícia é positiva, mas sem euforia. Por volta das 13h, o contrato de boi magro com vencimento em setembro caía 1,4% na Bolsa de Chicago.




